O evento Conexões Globais 2.0, que acontece de 25 a 28 de janeiro na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, traz ótimas atrações musicais para deleitar os participantes do encontro que propõe a articulação entre  cultura popular e cultura digital.

Vinculado às atividades do Fórum Social Temático 2012 e do Festival Internacional de Cultura Livre, a programação do evento contará com oficinas, debates e diálogos sobre a liberdade de informação na internet e as relações entre mobilização social e mundo virtual.

Além disso, uma série de intervenções artísticas (literatura, fotografia, artes plásticas, criações multimídia) serão realizadas no final de cada dia da programação na Travessa dos Cataventos da CCMQ. Ao lado de tudo isso, uma rica e criativa agenda musical poderá ser prestigiada por quem pintar lá no evento.

No palco alternativo, das 17h 30 às 18h acontecem as apresentações de Claudio Levitan (25/01), Revolução RS – Mc PX e Dj Pela (26/01), Conjunto Bluegrass (27/01) e Jorginho do Trompete (28/01).

Já no palco principal, todos os dias às 20h, apresentam-se os seguintes artistas listados abaixo, com informações disponibilizadas pela organização do evento:

25/01 – QUARTA-FEIRA

LIRINHA

Após um ano e meio longe dos palcos, José Paes de Lira, Lirinha, retorna com a turnê de lançamento de seu primeiro CD solo, denominado LIRA, e embala o público mais conectado do Fórum Social Temático. [Confira no final da postagem Lirinha recitando versos de Zé da Luz acompanhados das lindas xilogravuras de J. Borges].

Em LIRA, Lirinha se reinventa com uma sonoridade que passa pela utilização de guitarras, teclados, sintetizadores, percussão e bateria, resultando em uma surpreendente e inovadora incursão em território que lhe é familiar: a tênue fronteira entre a música e a poesia. Lirinha mostra seu amadurecimento como artista e letrista, evolui em um trabalho coeso, com forte influência das referências que povoam as suas canções.

Além das faixas inéditas do álbum LIRA, o show terá algumas músicas de sua autoria, registradas quando integrava o grupo Cordel do Fogo Encantado. Fazem parte da banda de Lirinha: Neilton (guitarras), Ângelo Medrado (bateria), Astronauta Pinguim (teclado),Hugo Carranca(percussão) e Igor Medeiros (sintetizador).

26/01 – QUINTA-FEIRA

RICHARD SERRARIA

Depois de lançar 2 discos com a Bataclã FC (2002 e 2006), um disco solo chamado Vila Brasil (2008) e uma trilha sonora também lançada em CD para um documentário sobre tambor de sopapo (O Grande tambor, 2010), Richard Serraria apresenta Pampa Esquema Novo em 2012. Espécie de “road song”, disco de estrada feito a partir de pesquisas realizadas sobre a música do cone sul da América, tal conteúdo cultural vem recheado de parcerias com compositores dos 3 países em diferentes gêneros miscigenados (bossa-tango; candombe-samba; ijexá-candombe; maçambique-samba rock; milonga mourisca-bossa; candombe-maracatu; samba gaúcho com gaita gaudéria e sopapo; etc). No show que será apresentado dia 26/1 em Porto Alegre a percussivafricanidade (conceito central do disco) ganha contornos bem definidos no encontro de uma mini bateria de escola de samba com uma “cuerda” de candombe uruguaio mais tambores de maracatu junto ao bandoneon argentino, gaita de 8 baixos, viola de 10 cordas, violão brasileiro e ainda a modernidade das pickups de um DJ, teclados, baixo e bateria.
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Richard Serraria nas poesias, voz, sopapo, repinique e violão; Lucas Kinoshita no sopapo, voz e bateria; Angelo Primon na viola de 10, violão e viola de cocho; Daniel Lopez Rodriguez nos teclados, escaleta e voz; Mimmo Ferreira nos tambores de candombe, latas, sopapo e leguero; Filipe Narcizo no baixo e ainda convidados especiais: Maracatu Nação Periferica; DJ Duke Jay nas pickups; Alessandro Brinco no repinique, tamborim e pandeiro; Sandro Gravador no sopapo, tamborim e repinique; Renato Muller na gaita de 8 baixos mais bandoneon e Marcelo Delacroix na voz.
27/01 – SEXTA-FEIRA
ANITELLI TRIO (participação especial LEONI)
No intervalo entre o segundo e terceiro álbum da trupe “O Teatro Mágico”, Fernando Anitelli vocalista e idealizador do projeto, vem com a proposta de um álbum solo, com canções autorais que até então estavam dispersas pela internet, releituras de suas composições já interpretadas com a companhia e inéditas, unindo o jazz e a música brasileira em uma experiência sonora única.

A proposta de Anitelli é um pop sofisticado, samba, maracatu e levadas afro-brasileiras se adaptam a hits nunca antes trabalhados. Com um formato violão, baixo acústico e bateria, o músico pretende criar uma atmosfera intimista e pessoal nas apresentações, características das canções que não se enquadrariam junto a trupe e carregam uma forte marca pessoal do autor.

Músicas como “Na Varanda”, “Perto de Você” e “Soprano” que possuíam apenas uma simples gravação de voz e violão, ganham no TRIO um roupagem musical sofisticada contracenando com a complexidade da música brasileira. Versões de músicas já conhecidas com a companhia como “Realejo” e “Samba de Ir Embora Só” no TRIO encontram uma nova formulação deixando clara a versatilidade e a pluralidade de Fernando Anitelli.

Junto ao cantor estão o baixista Fernando Rosa e o baterista Miguel Assis, que também compõem a trupe O Teatro Mágico e carregam uma enorme bagagem no jazz instrumental. Show imperdível para os ouvidos que buscam novos sons e experiências musicais.

28/01 – SÁBADO

COWBOYS ESPIRITUAIS

E são os velhos cowboys voltando à cena do saloon, varrendo a poeira, acordando o barman e pedindo mais uma dose de um Bourbon tão seco e tradicional como as obsessões da banda. Casamentos desfeitos, as derrotas como lições, garotas enfezadas esperando o sujeito depois da festa; são os velhos CowboyscCom Frank Jorge que retornam na poesia beatnick e desperada de Reny, no virtuosismo das cordas caipiras de Márcio Petracco, e na cozinha firme e segura seja no trote ou no galope, a cargo de Paulo Arcari Enviem sinais de fumaça para os comanches! Ressuscitem Billy The Kid! Os Cowboys Espirituais voltaram. E estão com fome e sede de estrada!

Nascido em Sevilha no ano de 1836, o poeta Gustavo Adolfo Bécquer teve sua obra reconhecida principalmente após a sua morte, com a publicação póstuma de muitos dos seus escritos. Entre eles, encontra-se o poema Volverán las oscuras golondrinas (1868), parte de sua obra mais conhecida Rimas y Leyendas, que se tornou um clássico do repertório do cancioneiro hispânico.

Gustavo Adolfo Bécquer pela ótica de seu irmão, o pintor Valeriano Bécquer

Representante do chamado “romantismo tardio”, pois o caráter romântico de seus escritos fazia parte de uma época já considerada realista na periodização literária, Bécquer (que adotou esse sobrenome de seus antepassados, comerciantes de origem flamenga) desenvolveu artisticamente a tensão típica do contexto de meados do século XIX: as relações entre sonho e razão;  entre palavras e idéias; entre o amor idealizado e o carnal.

De acordo com Jesús Rubio Jiménez, Gustavo foi, ao lado de Rosalía de Castro, um marco da poesia contemporânea espanhola e, mesmo que tenha falecido jovem e relativamente desconhecido (o que reforçou a sua recepção posterior), teve uma produção não só poética, mas também narrativa, bastante polivalente e fortemente vinculada ao mundo artístico que se desenvolvia na Espanha na época de sua modernização.

Um exemplo disso é que, além de sua relação com a pintura (herança de família), dedicou muitos dos seus interesses à música, como a ópera e a zarzuela, citando, inclusive, em seus artigos nomes como Donizetti, Verdi e Rossini. Não seria, portanto, apenas um acaso do destino que uma de suas Rimas [38, LIII] fosse interpretada por diversos músicos (mesmo que populares), como Paco Ibañez e Nacha Guevara. No vídeo abaixo, vocês podem escutá-la na emocionante versão de Bïa Krieger, retirada do seu álbum em parceria com Yves Desrosiers lançado em 2011.

Além disso, é claro, acompanhem o poema transcrito abaixo e também uma pequena análise retirada da Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes (que vale uma vistia urgente), que enriquece ainda mais nossa sensibilidade em relação ao poema e à canção.

Saudações musicais… e poéticas!

“Estamos ante una rima amorosa, pero de amor desengañado. La construcción del poema se basa en el paralelismo de dos series alternas, una afirmativa y otra negativa: volverán / pero… no volverán. En última instancia, el tema amoroso desemboca en una reflexión sobre el tiempo y sus estragos. La naturaleza es cíclica y todo vuelve, vuelven las golondrinas, vuelven las madreselvas…, pero aquellas golondrinas vividas, las concretas, las asociadas a nuestra experiencia, «ésas… ¡no volverán!» Así, cada regreso trae un nuevo desengaño. De igual manera, los versos vuelven sobre sí mismos en esa estructura paralelística”.

Volverán las oscuras golondrinas
en tu balcón sus nidos a colgar,
y otra vez con el ala a sus cristales
jugando llamarán.

Pero aquellas que el vuelo refrenaban
tu hermosura y mi dicha a contemplar,
aquellas que aprendieron nuestros nombres…
ésas… ¡no volverán!

Volverán las tupidas madreselvas
de tu jardín las tapias a escalar,
y otra vez a la tarde aún más hermosas
sus flores se abrirán.

Pero aquellas cuajadas de rocío
cuyas gotas mirábamos temblar
y caer como lágrimas del día…
ésas… ¡no volverán!

Volverán del amor en tus oídos
las palabras ardientes a sonar;
tu corazón de su profundo sueño
tal vez despertará.

Pero mudo y absorto y de rodillas,
como se adora a Dios ante su altar,
como yo te he querido…, desengáñate,
nadie así te amará.

Até que enfim surge mais um capítulo da série de longa duração deste blog que aborda a discografia dos cantores e compositores Zeca Baleiro e Vitor Ramil. Nos comentários de hoje, os álbuns O Coração do Homem-Bomba, Vol. 1 (2008) do Zeca e Tambong (2000), do Vitor.

Depois de lançar uma versão ao vivo de Baladas do Asfalto e Outros Blues em 2006, dois anos depois Zeca Baleiro apresentou um disco duplo (cujas partes foram lançadas em datas distintas), intitulado O Coração do Homem-Bomba. No volume 1, do qual se ocupa essa postagem, 13 canções (com exceção de Alma não tem cor do André Abujamra e de Bola Dividida do Luiz Ayrão, todas do Baleiro, sozinho ou em parceira) expressam a ironia típica do compositor, que versa sobre os relacionamentos amorosos e sobre as desigualdades sociais e de status de maneira muito criativa.

Por exemplo, em Você não liga pra mim, Zeca canta a decepção originada na rejeição amorosa, incluindo-se no destino de muitos frustrados: “eu ligo o rádio pra lhe esquecer/mas tudo ali me lembra você/ eu também vou fazer/canções de amor pra vender/ igual a mim quanto trouxa que tem/ que se apaixona e chora também/você quer ser o meu mal/mas sabe que podia ser meu bem“.

Mas também há o tormento amoroso da companheira que pede muitos presentes e exige do parceiro uma performance financeira e consumista maior do que é possível: “aí eu lhe disse ó nega quero que me entenda/até já botei a minha alma à venda/mas não há ninguém que lhe pague o preço“.

No entanto, as dificuldades impostas pela sociedade de consumo não atrapalham apenas os romances, mas interferem em todos os aspectos da vida desse malandro do século XXI, que acaba dando um jeito de se conformar com a sua fatia da riqueza social: “se tiver o que comer não precisa caviar/se faltar molho rosé no dendê vou me acabar/se não tem moet chandon cachaça vai apanhar”. 

A partir desses exemplos, o repertório de O Coração do Homem-Bomba mostra aquela que é, para mim, uma das principais características do letrista Zeca Baleiro: a de ser um dos melhores cancioneiros/cronistas do mundo contemporâneo. Característica presente também na ótima Toca Raul, na qual Baleiro expressa sua indignação bem humorada em relação aos “sem noção” que pedem pra os artistas tocarem Raul Seixas em qualquer show na face da terra:

Em 2000, Vitor Ramil lançou Tambong, que também tem dois volumes, um com canções em português e outro com as versões em espanhol. Produzido pelo excelente Pedro Aznar o álbum de 14 canções é quase por inteiro um conjunto de hits da obra ramiliana, seja pela releitura de canções como Estrela, estrela e Foi no mês que vem, seja pela sensibilidade de composições como Espaço e Valérie.

Apenas após 3 anos do ícone Ramilonga, Vitor deixou claro que não ia ser apenas o compositor da “estética do frio”, mas que também seria um dos principais compositores da música brasileira dos últimos anos, com letras diversificadas sobre romances, dilemas existencias e mesmo de homenagens a filmes, como aquela feita em Grama Verde para Blow-Up (1966) do Michelangelo Antonioni.

Neste disco, Vitor também arrisca compondo em inglês. Quiet Music é, além de muito bonita, uma aparente (porque pode ser apenas aos meus ouvidos) antecipação do clima intimista do álbum Longes (2004), tema da nossa próxima postagem dessa série. Além disso, em Espaço, o compositor consegue explorar aquelas contradições que só a apropriação subjetiva e poética da realidade é capaz de fazer: “Quarto de não dormir/Sala de não estar/Porta de não abrir/Pátio de sufocar”.

Em Tambong, outra característica de Ramil se torna evidente. Não bastasse a versão estupenda de Joey (Bob Dylan) a partir da “transcriação” de Joquim, do álbum Tango, Vitor consolidou-se aqui como talvez o artista que consegue fazer as melhores versões baseadas em Dylan no Brasil, com as fantásticas Só você manda em você (baseada em You are a big girl now) e Um dia você vai servir a alguém (baseada em Gotta serve somebody), que vocês podem conferir abaixo com a participação especial de Lenine.

Saudações musicais!

 

 

2 ANOS SEM LHASA DE SELA

Publicado: janeiro 2, 2012 em Comentário
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Ontem completaram-se 2 anos do falecimento da cantora que mais me surpreendeu nos últimos anos. Nascida nos Estados Unidos da Amércia, mas dotada de uma criatividade e de uma musicalidade sem fronteiras, Lhasa de Sela deixou um legado de 3 álbuns de estúdio: La Llorona (1998), The Living Road (2003) e Lhasa (2009) e uma diversidade de performances e interpretações emocionantes mundo afora.

Um sinal de que a sensibilidade artística de Lhasa continua comovendo e que será relembrada por muito tempo é o número de homenagens que desde a sua morte são feitas por seus admiradores. Abaixo, mostro dois exemplos: a canção Snow days for Lhasa, composta  por Patrick Watson e Esmerine (e divulgada dia 31 de dezembro de 2010) e o show feito pelas argentinas Georgina Hassan e Laura Ledesma em homenagem à artista, cuja canção El pájaro pode ser conferida no segundo vídeo abaixo.

Notem que as duas homenagens conseguem captar duas das inúmeras facetas de Lhasa: a primeira, melancólica e soturna; a segunda, graciosa e comovente.

Para concluir essa postagem, no entanto, nada melhor do que ouvir a própria Lhasa de Sela, em um dos registros feitos pelo excelente Vincent Moon em Montreal, no mês de abril de 2009. No vídeo, Fool’s Gold, do seu último álbum, uma das canções mais interessantes sobre os desencontros da vida amorosa: “I don’t miss you much/ Except sometimes early in the morning”.

Saudações musicais!

 

 

Depois de alguns meses sem atualizações, a seção de entrevistas aqui do blog retorna apresentando aos seus leitores a cantora e compositora portuguesa Luisa Sobral, que lançou em março desse ano seu primeiro álbum, intitulado The Cherry On My Cake.

Com marcante influência do Jazz, da música portuguesa e mesmo de expressões da música brasileira, o primeiro trabalho de Luisa é incrivelmente belo e suave, com um repertório de canções em português e inglês que permite uma percepção diversificada da linda voz da intérprete. Os ótimos arranjos das músicas são também mérito da banda que a acompanha, formada por Filipe Melo (piano), Carlos Miguel (percussão) e João Hasselberg (contrabaixo).

Com apenas 24 anos, a artista demonstra muita competência e criatividade e já fui indicada a diversos prémios de Jazz nos E.U.A. Suas referências nesta  tradição musical passam por Ella Fitzgerald, Chet Baker e Billie Holiday, além de incluir intérpretes tão importantes quanto diferentes, como Björk, Maria João, Regina Spektor e Elis Regina.

Para conferirem mais informações sobre Luisa Sobral, acessem seu site AQUI e prestigiem essa pequena entrevista concedida pela artista com exclusividade para o Música Esparsa.

Saudações musicais!

1) Quais características da tua trajetória artística gostarias de destacar para o público brasileiro conhecer melhor tua música?

Luisa Sobral: Comecei a tocar guitarra, o vosso violão , aos 12 para tocar as canções que ouvia na radio mas acabei por ter mais vontade de compor as minhas próprias canções.

Aos 18 anos fui estudar para a Berklee college of Music em Boston onde terminei o curso superior de música.

Após o curso mudei-me para NY onde tive a oportunidade de conhecer e tocar com músicos incríveis. Enquanto estava em NY fui convidada pela Universal Portugal para gravar o meu primeiro álbum e foi assim que regressei a Portugal.

2) Como está sendo a recepção do seu álbum de estreia The Cherry on my Cake?

Luisa Sobral: Tem sido muito boa. Antes do álbum sair não tinha quaisquer expectativas até porque não é um estilo de musica muito comum em Portugal mas acabou por correr muito bem.

3) Faça um comentário sobre duas músicas do disco, para orientar a audição do leitor.

Not there yet – É o single do álbum. Acho que é uma canção que nos faz sentir bem apesar da história ser triste.

O Engraxador – Primeira canção que escrevi em Português. Fala de um engraxador que sonha em ser actor.

4) Qual é sua relação com a música brasileira, que já incluíste nos teus repertórios em bares? Ela pode ser considerada como uma inspiração no teu trabalho atual? 

Luisa Sobral: Claro que sim. É impossível ser compositora e não admirar alguns dos melhores compositores Brasileiros como o Tom Jobim e o Chico Buarque e é igualmente impossível ser cantora e não admirar a intensidade e entrega da Elis Regina. Todos eles são uma grande inspiração.

5) Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Luísa Sobral: Obrigada por lerem a entrevista! Espero que gostem da minha música e espero ver-vos num concerto aí no Brasil!

JUNTOS 30 ANOS

Publicado: novembro 26, 2011 em Comentário
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Em 2011, completam-se 30 anos do lançamento do LP Juntos do cantor e compositor Nelson Coelho de Castro, um dos mais importantes álbuns da música popular do Rio Grande do Sul.

Apesar disso, não me lembro de ter encontrado alguma nota ou comentário sobre isso na imprensa e, por isso, resolvi fazer essa pequena homenagem aqui no Música Esparsa.

Em 1981, Nelson Coelho de Castro já era um nome conhecido na música urbana de Porto Alegre. Havia participado nos anos 70 das Rodas de Som no Teatro de Arena, promovidas por Carlinhos Hartlieb, e também do festival de música da PUC, vencendo na categoria originalidade com a canção Futebol. Além disso, antes de Juntos, Nelson gravou o compacto Faz a cabeça em 1979 e duas músicas suas (Rasa Calamidade e Águias) fizeram parte do repertório do sensacional e histórico Paralelo 30 (1978), ao lado de Bebeto Alves, Carlinhos Hartlieb, Nando D’ávila, Raul Ellwanger e Cláudio Vera Cruz.

A despeito da qualidade do cantor e compositor, Juntos é um marco por outro louvável motivo: foi o primeiro disco de produção independente aqui do estado, que contou com uma rede de colaboradores extensa que viabilizou o registro fonográfico. Na contracapa do LP, constam os nomes dos cooprodutores que adquiriram os bônus que financiaram o disco e promoveram algo nem sempre muito praticado por aí: a parceria genuína pela arte.

Formado por 12 canções, todas compostas por Nelson, com exceção de Gosto (Paulo Killing), Juntos inclui a sensacional Armadilha (em parceria com Dedé Ribeiro), que ficou muito conhecida ao integrar a trilha sonora do filme Verdes Anos (Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil). No repertório já se destacava a poética urbana inconfundível do artista, repleta de criatividade e referências ao cotidiano de Porto Alegre, como em Zé – Aquele tempo do Julinho, que vocês podem conferir abaixo:

A sensibilidade grandiosa do compositor, que perpassa todas as canções, foi reforçada também pelos músicos que acompanharam a gravação do disco nos estúdios da Isaec entre maio de 1980 e agosto de 1981: Paulo Killing (baixo), Paulino Soares (bateria), Zezinho Athánazio (guitarra, piano, violão e voz) e De Santana (percussão), acompanharam a voz e o violão inconfundíveis de Nelson nestas 12 preciosidades sonoras da nossa música.

Em 1996, Juntos foi reeditado em CD e em 1997 deu nome ao show coletivo Juntos Ao Vivo, com Gelson Oliveira, Bebeto Alves e Totonho Villeroy, que também foi distribuído em CD no ano seguinte e foi vencedor do Troféu Açorianos. Experiência que foi repetida em 2002 e que viajou em turnê pela Europa como o nome de Povoado das Águas.

Para concluir, escutem comigo Armadilha, citada anteriormente, talvez a canção que mais me emocionou na primeira vez que escutei. Não sei bem explicar as razões disso, pois na ocasião eu não conhecia as músicas do Nelson e não sabia nada dessa história que contei aqui, apenas senti algo muito forte quando depois da parte instrumental embasada na flauta do magnífico Plauto Cruz, o cantor derrama com sua voz suave  “Mas quando a gente é pequeno…

Saudações musicais!

Talvez o leitor estranhe o título dessa postagem: “música para pensar”. Pode ele inclusive argumentar que música é para ouvir e o resto é bobagem. No entanto, mesmo concordando que a experiência sensível da audição é um dos pilares da interação com a arte musical, penso que boa parte do interesse restrito e do repertório limitado (muitas vezes justificado como um ecletismo amorfo) de grande parte das pessoas na atualidade no que se refere à música, deve-se ao ato de apenas “ouvir com os ouvidos”, sem considerar outros aspectos que poderiam fazer parte de uma audição mais enriquecedora.

Nesse caso, porém, minha intenção não é “racionalizar” uma das expressões artísticas menos afeita a qualquer tipo de vínculo limitador com a razão, mas tentar mostrar que diversos exemplos de criação musical podem ser apreciados incluindo a reflexão sobre outros temas que não sejam exatamente a composição musical e a sonoridade.

E um dos grandes exemplos dessa questão que há tempos já queria ter comentado, é o trabalho artístico feito pelo cantor e compositor Oly Jr. com sua Milonga Blues. A primeira vez que ouvi falar do artista, com um atraso considerável, foi em julho de 2009, no Teatro de Arena, quando de sua participação especial no show de gravação do disco ao vivo do Bebeto Alves e os Blackbagual. No cartaz do show que ele faria na semana seguinte no Arena, o anúncio da mescla, nesse projeto musical, da milonga, do blues e do folk, três tradições musicais que sempre me interessaram e que ao ver a possibilidade de serem misturadas, fiquei muito curioso para conferir o resultado.

Naquele mesmo ano de 2009, seria lançado o disco Milonga Blues (depois premiado pelo Açorianos), trazendo 11 canções compostas por Oly Jr. nas quais as sonoridades blueseira e milongueira combinavam-se de forma muito peculiar e criativa. E é a partir desse disco que vou abordar aqui as relações entre o blues e a milonga e também entre o regional e o universal nas composições do artista.

Oly Jr. começou profissionalmente na música a partir do Blues, em 1998. E desta escola musical veio não só a sua consolidação no meio artístico como também uma gama de referências sonoras e culturais preservadas por ele até hoje. No entanto, a cena blueseira não satisfez totalmente o artista que buscava uma marca própria e original e não apenas ser mais um representante local de um estilo musical “estrangeiro”.

Foi a partir daí que o músico começou a incorporar explicitamente na sua criação artística os elementos da música regional que sempre fizeram parte do imaginário cultural onde viveu (o Rio Grande do Sul). Assim, entre Robert Johnson e Muddy Waters intercalaram-se a inventividade milongueira de Bebeto Alves e Vitor Ramil, dois ícones no que diz respeito à renovação do relacionamento com a tradição musical regional.

Se à primeira vista poderia parecer estranha a combinação do blues e da milonga, sentimento logo desfeito ao escutar os acordes das canções de Oly Jr., devemos lembrar da similaridade entre essas duas tradições musicais, relacionada à cultura afro-americana, seja aquela que se desenvolveu à beira do Mississipi nos E.U.A. ou às margens do Rio da Prata na América do Sul.

Utilizando-se da técnica do slide blues e dos acordes milongueiros, Oly fez uma fusão criativa e diversificada entre os dois estilos, sendo que as canções do álbum Milonga Blues transitam do ponto de vista temático e da sonoridade por diferentes combinações, como podemos exemplificar com o paralelo entre o “pacto com o demônio” e a lenda do M’boitatá, que vocês podem conferir na faixa-título abaixo:

No caso da relação entre universal e regional, a combinação entre o blues e a milonga já mostra a maneira heterodoxa que o artista lança mão para reelaborar a sonoridade de característica regional, sem encará-la como algo estanque e digno de culto. Assim, o regional não é um “projeto identitário” e nem uma “tradição inventada”, mas uma matéria-prima móvel e aberta ao intercâmbio cultural.

Desse modo, o regional nas canções de Milonga Blues é uma referência de inventividade e diálogo com outras culturas, o que só pode ter como resultado uma produção artística de cunho universalizante, isto é, de contato e de proliferação de trocas entre contextos e tradições diferentes. Na canção Delta do Jacuí, Oly Jr. expressa bem essa fusão proposta por sua arte: “Eu canto Blues com uma charla e sotaque que é só daqui/ Toco milonga como um blueseiro do delta do Jacuí”.

Assim, um dos grandes méritos, entre tantos outros, da empreitada musical de Oly Jr. é a postura audaciosa em relação a alguns paradigmas culturais que muitas vezes são engessados demais, como o foco no universal ou no regional, como se fossem aspectos excludentes ou o aprisionamento a estilos supostamente herméticos. Nesse caso, o artista é perspicaz em assumir a sua vocação criativa e experimentar intensamente as potencialidades das trocas culturais, desde à sonoridade aos temas das letras das canções.

Atualmente, Oly Jr. prepara o álbum Milonga em Blue (Notas do Delta), com previsão de lançamento até o final do ano e que traz releituras de milongas consagradas na voz de Bebeto Alves e Vitor Ramil a partir de sua levada milonga blues. Junto dele, continuam Os Tocaios, formado por Jaques Trajano (bateria/percussão) e Jacques Jardim (baixo).

Para concluir, e contrariando a proposta incial da postagem, convido vocês a deixar os pensamentos de lado e embalar no lirismo e na melancolia de Poesia Campeira, a canção que encerra o álbum Milonga Blues.

Saudações musicais!

No último dia da 27ª Feira do Livro, a população cachoeirense teve a oportunidade de ampliar seus horizontes e sua sensibilidade musical com a impecável apresentação da banda Realidade Paralela, formada por Marcelo Corsetti (guitarra), Angelo Primon (violão, viola caipira e sitar), Luke Faro (percussão) e Vanessa Longoni (voz).

Formado na feira do livro de Porto Alegre em 2008, o quarteto combina competência técnica e sensibilidade criativa com uma atmosfera sonora especial e um repertório diversificado e de grande qualidade. Corsetti e Faro são figuras de extrema importância no cenário da musica instrumental gaúcha e brasileira, principalmente a partir do grupo Xquinas. Angelo, versátil instrumentista, foi premiado já com seu álbum de estreia instrumental, Mosaico, assim como Vanessa Longoni com A Mulher de Oslo.

No setlist do show, além das canções do álbum homônimo lançado em 2009, como Luz da Nobreza, Atirador, Gírias do Norte e a sensacional Arrastão, entre outras, o grupo apresentou ótimas releituras de canções de Queyi (Lorca), Ana Prada (Me quiere sonar) e Marcelo Delacroix (Alameda das Palmeiras), além do tema Pedro, em homenagem ao dia das crianças e parte do repertório do disco infantil que será lançado em breve.

Eu que acompanhei a trajetória da banda desde o início, e que me impus a obrigação subjetiva de divulgar aos quatro ventos a arte desses músicos, fiquei extremamente feliz em poder intermediar a vinda deles para minha cidade natal, que conheceu o excelente trabalho e a sinergia entre os instrumentistas Corsetti, Faro e Primon e conferiu a espetacular performance e a voz maravilhosa da Vanessa Longoni. Não foi à toa que a recepção do público presente foi calorosa após a apresentação, surpreendendo-se com o “desconhecido” na música que tantas vezes as pessoas evitam e não têm interesse em prestigiar.

Não há como deixar de dizer também que foi uma apresentação marcante no cenário musical da cidade que há tempos não acolhia uma atração musical da cena independente com tanta qualidade. O “mais do mesmo” que costuma se ver por aqui com as atrações da “música de entretenimento” sofreu um grande revés ontem com o sopro (na verdade um furacão) de criatividade e competência musical que passou pela Feira do Livro. É certo que quem compareceu na apresentação do Realidade Paralela em Cachoeira, nunca mais vai ouvir música do mesmo jeito.

Saudações musicais!

You’ve got me on my knees

Depois de uma boa noite de sono, agora me sinto em condições de tentar expressar a beleza e o significado do maravilhoso show do Eric Clapton que assisti na agradável noite desta última quinta-feira (06 de outubro) no estacionamento da FIERGS em Porto Alegre.

A saga emocional deste show começou exatamente uma semana antes do espetáculo, quando de forma impressionante meus alunos e minhas alunas da escola Borges me presentearam com um ingresso de camarote para assistir ao deus da guitarra! Se a homenagem deles já havia me deixado “de joelhos”, como Layla na inspiração claptoniana, o dedilhado do Slowhand coroou uma experiência fantástica que foi partilhar as emoções deste show com meus queridos alunos e alunas: antes na expectativa, durante em pensamento e agora quando conversarmos sobre o espetáculo.

A guitarra, grande protagonista do show, atingiu seu apogeu já na quarta música, quando Clapton me deixou embasbacado com o solo em Old Love, que vocês podem experimentar um pouco no vídeo abaixo.

Empolgantes pra caramba também foram as versões de dois clássicos blueseiros, Hoochie Coochie Man, famosa na voz de Muddy Waters e Crossroads, de Mr. Robert Johnson que foi o único e incrível bis. Além delas, Badge, Cocaine, Key to The Highway e Going Down Slow impressionaram pela execução impecável e criativa da guitarra divina de Eric.

A parte na qual Clapton tocou sentado não foi menos impressionante: Layla, Lay Down Sally e Driftin’ emocionaram muita gente! Além disso, os companheiros de banda Steve Gadd (bateria), Chris Stainton (teclados), Willie Weeks (baixo), Sharon White e Michelle John (vocais) e principalmente Tim Carmon (teclados) ajudaram a incendiar o palco e em vários momentos deu pra perceber a diversão dos músicos com os acordes e solos impecáveis de Clapton e da banda.

O mais incrível depois disso tudo é a sensação que tenho de que a gratidão para os meus alunos é infinita, pois a emoção e a felicidade que sinto desde então não são possíveis de ser retribuídas por mim de forma adequada e tão forte.

E é pra todo esse pessoal que pensou em mim, se dedicou e se uniu para me proporcionar esse momento, que me estimulou a viajar e ficou torcendo para que o show fosse espetacular como foi que dedico a versão de Wonderful Tonight que rolou naquela noite. MUITO OBRIGADO pessoal!

Saudações musicais!

Eric Clapton – O presente

Publicado: setembro 30, 2011 em Uncategorized

Someone like you
Could make me change my ways

Antes de mais nada, coloque a música do vídeo para tocar. Pronto, agora pode ler o texto…

Sensibilidade, criatividade e generosidade: três palavras que ontem ganharam uma dimensão única e inesquecível na minha vida. Três palavras que atualmente podem ser consideradas esquecidas por muitas pessoas, mas que se mostraram vivas e belas como nunca no gesto impressionante de carinho que meus alunos me dedicaram nesta quinta pela manhã.

Toda a emoção e a sinergia que rolaram naquele momento foram como uma síntese dos inúmeros momentos de parceria, aprendizagem, amizade e de especial convivência que compartilho com meus alunos do Borges desde agosto do ano passado. O melhor de tudo é saber que o imenso prazer que sinto em conviver com eles parece ser também o que eles sentem cada vez que nos cruzamos pelos corredores, pelas ruas ou mesmo quando fazemos da hermética sala de aula um lugar de agradável interação e que pode ser motivo de ótimas recordações.

Aliás, nisso meus alunos foram mestres: criaram uma situação fabulosa para ser lembrada, revivida, recordada com emoção e, além disso, presentearam-me com mais uma oportunidade de mobilizar tudo isso: um ingresso de camarote para o show do Eric Clapton em Porto Alegre no dia 6 de outubro. Quando estiver lá curtindo o show lembrarei de cada abraço caloroso, de cada rosto sorridente e dos olhos marejados que me receberam ontem de forma inesquecível.

Meus queridos alunos, MUITO OBRIGADO por existirem e fazerem de mim o professor mais feliz desse mundo, por ter os melhores alunos do mundo!

Saudações musicais!