Por ser historiador, fui ensinado a desconfiar dos chamados “mitos de origem”, das grandes causas que explicam tudo. No entanto, no caso do meu despertar mais intenso para a música, não posso me furtar de atribuí-lo a uma artista em especial: Adriana Deffenti!

Adriana Deffenti
Adriana Deffenti

Desde que conheci seu segundo disco em 2007 (através do professor André Fertig da UFSM), impressionei-me com a qualidade e a força da interpretação desta cantora porto-alegrense. Como as minhas preferências musicais até então, em sua maioria, eram estrangeiras, fiquei surpreso que tamanha qualidade musical vinha de bem pertinho, ali da capital (naquele tempo residia em Santa Maria).

Logo comecei a pesquisar no onipresente virtual Google as possíveis informações sobre a artista. Deparei-me com comentários que elogiavam seu trabalho e que lembravam da conquista de dois Prêmios Açorianos de Música como intérprete de MPB, em 2002 e 2006, respectivamente pelos álbuns “Peças de Pessoas” e “Adriana Deffenti”.

No entanto, a designação de MPB para a música de Adriana Deffenti provavelmente refere-se apenas a uma formalidade do concurso, já que a música feita por ela ultrapassa as fronteiras deste rótulo. Como escreveu o jornalista Juarez Fonseca, “La Deffenti” é uma artista que desde o início da carreira se apresentou sem rótulos, nem mesmo o de “eclética” lhe cabe. Talvez seja justamente a pluralidade dos significados e das sonoridades de sua música que atraiu este humilde ouvinte que lhes escreve.

Contudo, para a execução de sua obra foram fundamentais algumas parcerias, como a do músico Marcelo Corsetti, produtor dos dois discos de Adriana, acompanhado no primeiro por Rodrigo Rheinheimer. E nos shows da turnê de seu segundo cd, além de Corssetti, o músico Ângelo Primon.

Minha curiosidade por esses músicos começou a crescer a partir daí, e foi justamente a apresentação de Ângelo Primon, de seu álbum instrumental “Mosaico”, que assisti primeiro, já que o show passou por Santa Maria em 2007. Porém, tanto Primon como Corsetti serão assuntos para outros posts, mas esse adendo justifica a minha consideração de que Adriana Deffenti foi a “origem” dos meus interesses musicais recentes.

No entanto, além desses colaboradores, Deffenti contou com um seleto grupo de letristas, que vão de Vitor Ramil a Jimmy Page, de Luiz Tatit a Herbert Vianna. Isso se deve porque ela é fundamentalmente uma intérprete, condição que ficou manifesta na música “Canção sem autor”, do primeiro disco, cuja letra é de Nico Nicolaiewsky.

Assim, seu primeiro cd, “Peças de Pessoas”, classificado ora como pop ora como MPB, combina elementos eletrônicos e acústicos, dando uma roupagem bem contemporânea às canções.

Peças de Pessoas
Peças de Pessoas

A música-título é de autoria de Leornado Boff e Mateus Mapa. As outras são Balagandans (Maurício Pereira), Quem te ensinou a dançar? (Otávio Santos/Luciano Granja), Sapatos em Copacabana (Vitor Ramil), Música para a psicoterapeuta (Juli Manzi), Menina do jornal (Adriana Deffenti), Samba Tango (Otávio Santos), Pô, amar é importante (Heremelino Neder), Cha cha moderno (Nei Lisboa), Going to California (Robert Plant/Jimmy Page) e a já citada Canção sem autor.

Os destaques do álbum, para mim, são Balagandans, Quem te ensinou a dançar? (no vídeo abaixo, depois de O negócio é amar), Pô, amar é importante e Going to California (numa versão inspiradíssima do clássico de Led Zeppelin).

Já o segundo álbum, homônimo, foi o primeiro que ouvi e gostei de todas as músicas de cara, sendo que a porta de entrada do disco para mim foi Tabu (Gustavo Cerati, com um trecho no final de “Tercer mundo”, texto do Julio Cortazar, que já havia sido gravado pelos Secos e Molhados).

Adriana Deffenti
Adriana Deffenti

Fundamentalmente enraizado em cordas e percussão, é um álbum vigoroso do início ao fim, com algumas músicas cantadas em espanhol de uma maneira primorosa, como demonstra a faixa El Tungue le de Eduardo Mateo (no vídeo abaixo).

As outras músicas são: O recado delas (Maria João/Mario Laginha), Luca (Herbert Vianna), Capitu (Luiz Tatit), É assim que brinco (Otávio Santos), Mírala (Edgardo Cardozo), Tem tainha (Raul Ellwanger), Berlim Bom Fim (Nei Lisboa), La pomeña (Gustavo Leguizamón/Manuel Castilla), La ventana (Edgardo Cardozo/L. Lamborghini) e Foi no mês que vem (Vitor Ramil). As músicas em destaque do disco?: TODAS!

As interpretações em espanhol de Adriana ainda lhe renderam shows na Argentina e mesmo o lançamento de seu álbum por lá, pela Random Records, sendo aclamada inclusive por Fito Paez.

Além desses álbuns, a artista já participou de vários outros projetos, como a ópera “As sete caras da verdade” de Nico Nicolaiewsky e intepretou junto com Renato Teixeira, acompanhados por Renato Borghetti, a música “Aquela rosa” de Teixeirinha, num DVD em homenagem ao cantor. Versão esta, aliás, primorosa, inclusive segundo o maior especialista em Teixeirinha destes pagos, Chico Cougo. Chico, aliás, que lembrou no primeiro comentário deste post que no show de Peças de Pessoas, Deffenti incluiu em seu repertório o samba-canção “Querendo chorar”, também do Teixeirinha.

Para finalizar, tenho que lamentar que assisti apenas um show de Adriana Deffetni e foi ano passado, no dia 02 de setembro, na 16ª Feira do Livro do Colégio Marista Rosário. Depois de uma temporada de shows na Espanha, Adriana Deffenti está de volta a Porto Alegre preparando seu terceiro álbum com o nome provável de “Malabarismo íntimo”.

Portanto, a única mensagem que posso deixar para vocês é esta: onde estiverem, tendo a oportunidade de escutar as músicas ou assistir um show de Adriana Deffenti corram e se deliciem!

Saudações musicais!

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