Se Adriana Deffenti foi a origem do meu interesse especial pela música nos últimos anos, posso afirmar sem titubear que Marcelo Delacroix foi a melhor “descoberta” musical que fiz até agora. Digo “descoberta” porque ninguém me indicou esse artista, não ouvi no rádio, não vi na televisão, mas sim encontrei no sítio eletrônico da revista APLAUSO, o seguinte comentário de Juarez Fonseca, em 2006:

“Estamos apenas no meio do ano, mas já tinha para mim que dificilmente alguém tiraria de Marcelo Delacroix, com Depois do Raio, o título de melhor disco feito no Rio Grande do Sul, em 2006. Mas ouvi a prova do segundo CD de Adriana Deffenti […] e balancei.”

Bom, saber que o cd da Adriana era excelente eu já sabia, mas quem era esse Marcelo Delacroix, cujo álbum seria um forte concorrente ao de Adriana como melhor do Rio Grande do Sul naquele ano?

Marcelo Delacroix
Marcelo Delacroix

Perguntei para amigos e outras pessoas conhecidas em Santa Maria e ninguém sabia de nada. Depois fiquei sabendo que Depois do raio havia ganhado o Prêmio Açorianos de 2006 não só como melhor disco de MPB, mas como o melhor disco feito no Rio Grande do Sul, em 2006, entre todas as categorias. Portanto, o cd de Adriana Deffenti tinha sido desbancado (sendo que como colocamos no post abaixo, esse ano ela venceu como melhor intérprete de MPB).

Apesar de meu entusiasmo em conhecer o trabalho de Marcelo Delacroix, tive que esperar vir morar em Porto Alegre para ter acesso ao seu cd e, para minha felicidade, consegui assistir em 2008, dois shows do artista.

Na primeira audição de Depois do raio, aquelas músicas pareciam já ter feito parte da minha vida e nas audições seguintes tive a certeza de que elas fariam de agora em diante. Não parei mais de escutar e tentando recuperar o tempo perdido, ou seja, só dois anos depois do lançamento do disco fui escutá-lo, falei do disco para meio mundo, convertendo alguns, como o amigo Jaisson, e doutrinando outros.

Em julho do ano passado, justamente no dia 23, dia do meu aniversário, assisti a apresentação de Marcelo Delacroix no Sarau do Solar dos Câmara (ao lado da Assembléia Legislativa). Acompanhando ele Marcelo Corsetti (isso mesmo, aquele produtor e companheiro de palco da Adriana Deffenti) e um repertório que foi de Elomar a Villa-Lobos, de Lenine a Caymmi. Show excelente e se faltava a performance ao vivo para me decretar fã do Delacroix, agora não faltava mais.

Este que vos escreve e Marcelo Delacroix no Solar dos Câmara
Este que vos escreve e Marcelo Delacroix no Solar dos Câmara

E nesse show descobri outra coisa muito interessante. Depois do raio era o segundo cd dele. O primeiro, homônimo, havia sido lançado em 2000.

No que se encontra sobre o músico na internet, é consenso a idéia de que o trabalho dele é um legítimo representante da música brasileira, mesclando elementos regionais e universais. Em síntese, um cancioneiro que fala daquilo que as pessoas vivem e sentem.

De melodias agradáveis e primorosamente construídas, as músicas de Delacroix te conquistam na primeira audição e depois te fazem refletir sobre a riqueza das letras e das melodias, que viajam por países, histórias e sensações diversas, produzindo uma síntese, ao mesmo tempo, universal e brasileira.

O álbum Marcelo Delacroix, Prêmio Açorianos de Melhor Disco de MPB em 2000, é composto por 12 músicas: Passará (Marcelo Delacroix e Ronald Augusto); Arrumação (Elomar Figueira de Mello); Testamento (Nelson Ângelo e Milton Nascimento); Inverno (Marcelo Delacroix e Arthur de Faria); Amigo do rei (Marcelo Delacroix e Ronald Augusto); Canoeiro (Dorival Caymmi); Deixa o caroço (Marcelo Delacroix e Ronald Augusto); Alameda das Palmeiras (Marcelo Delacroix, Gustavo Finkler e Jackson Zambelli); Zamba (Marcelo Delacroix); Desencanto (Marcelo Delacroix sobre poema de Manuel Bandeira); O Canto da Purificação (Marcelo Delacroix) e Festa (Marcelo Delacroix e Ronald Augusto).

Marcelo Delacroix (2000)
Marcelo Delacroix (2000)

Detalhemos algumas delas: Arrumação, do grande Elomar, é com certeza um dos destaques do disco, uma versão primorosa com a participação da “Compañia del Tempranillo” de Buenos Aires, executando inclusive trechos de uma música anônima do século XVII intitulada “Marizápalos”. Inverno, parceria com Arthur de Faria, revela um profundo sentimento intimista, falando de um tema clássico, mas de um jeito surpreendente. No vocal, participação especial de Bebeto Alves. Desencanto (no vídeo abaixo, mas numa versão diferente do álbum), música sobre poema de Manuel Bandeira, o que já dispensaria qualquer outro comentário, é um tango formidável, cuja melodia ainda cita um outro tango espetacular, “Fuga y Misterio” de Astor Piazzolla. Para minha modesta opinião, um dos melhores tangos já feitos no Brasil, com arranjo de Carlos Garofalli e bandoneón de Carlitos Magallanes. A versão de Dorival Caymmi em Canoeiro ficou muito animada e bem construída, uma homenagem e tanto ao grande compositor baiano. As músicas da parceira de Delacroix com Ronald Augusto também são excelentes, com destaque para Amigo do rei (no segundo vídeo abaixo), com a participação de Mateus Mapa. O Canto da Purificação, composição de Marcelo Delacroix para a peça “Homem Branco e Pele Vermelha”, é a representante no álbum de outro viés do trabalho artístico do cantor, a produção de trilhas musicais para peças de teatro.

O disco Depois do raio, de 2006, é composto por 13 músicas: Chove sobre a Cidade (Marcelo Delacroix e Ronald Augusto); Cantiga de Eira (Barbosa Lessa); Depois do Raio (Marcelo Delacroix e Arnaldo Antunes); Vinheta dos Peregrinos (Marcelo Delacroix); Gente Boa (Marcelo Delacroix e Ronald Augusto); Ciranda da Lua (Marcelo Delacroix e Ronald Augusto); Diáfana (Marcelo Delacroix e Nelson Coelho de Castro); Signos (Marcelo Delacroix e Sérgio Napp); Minueto (Marcelo Delacroix e Gustavo Finkler); Valsa do Lucas (Marcelo Delacroix); Vinheta do Sambalelê (Marcelo Delacroix); Flores (Marcelo Delacroix sobre poema de Fernando Pessoa); Deuses (Marcelo Delacroix e Arthur de Faria); Nessa Rua (Marcelo Delacroix e Arthur de Faria) e Vinheta das Alamedas (Marcelo Delacroix).

Depois do raio (2006)
Depois do raio (2006)

Este álbum revela uma coesão impressionante nas melodias, demonstrando o refinamento nas composições do próprio Marcelo e de seus parceiros e nas versões de Cantiga de Eira de Barbosa Lessa (no vídeo abaixo com Vitor Ramil) e Flores (composta sobre o lindo poema de Fernando Pessoa, no pseudônimo Ricardo Reis). A voz macia e forte do cantor converge de modo impressionante com as melodias. Nessa Rua (no segundo vídeo abaixo)e Signos são ótimas para românticos como eu, Deuses tem uma letra irônica muito inteligente e Gente boa, sobre o Fórum Social Mundial, é bastante animada. Para quem não curte um carnaval muito agitado, Diáfana e Minueto são uma ótima pedida.

Devido à qualidade do trabalho de Marcelo Delacroix e de seus parceiros, é imprescindível também assistir a um show dele, que consagra a formosidade de seus discos. O único que fui dedicado à apresentação de seus CDs foi no Teatro Renascença em 13 de novembro do ano passado, numa apresentação memorável cuja foto abaixo (da minha amiga Paula Rafaela da Silva) capta um dos momentos do espetáculo.

Simone Rasslan e Marcelo Delacroix
Simone Rasslan e Marcelo Delacroix

Uma última dica sobre Marcelo Delacroix é o documentário “Um Risco no Céu” sobre o cantor Carlinhos Hartlieb, no qual Marcelo foi diretor musical. Uma produção comovente sobre o artista porto-alegrense morto em 1984 e que será tema de nosso próximo post.

Saudações musicais!

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