Em outubro de 2008, quando eu estava entranhado na audição da música popular urbana produzida em Porto Alegre, minha irmã me liga e comenta que havia assistido um curta-metragem na RBSTV sobre um músico de Porto Alegre que havia morrido precocemente.

Carlinhos Hartlieb
Carlinhos Hartlieb

Corri no computador, acessei o sítio eletrônico da emissora de TV e logo cliquei para assistir o referido curta. Intitulado “Um Risco no Céu”, o documentário falava de um tal de Carlinhos Hartlieb, que eu nunca havia ouvido falar até então. Fiquei interessado imediatamente na história, emocionando-me já com a primeira música executada no curta: “Risco no céu”. Parecia que havia voltado para a minha infância e visto a vida passar diante de meus olhos, com um nó na garganta. Exagero? Para mim não foi.

Ali naquela história fiquei sabendo de um artista multifacetado, cuja história de vida (curta, mas intensa) confunde-se com a própria trajetória da música popular urbana em Porto Alegre e da profissionalização de seus criadores.

Encontrado morto em sua casa na Praia do Rosa com 37 anos incompletos, Carlinhos Hartlieb tornou-se, para os músicos porto-alegrenses, curiosamente, aquilo que o próprio compositor atribuiu a John Lennon, na música Nós que ficamos sós, que fez em homenagem ao ex-beatle quando de sua morte.

Foi preciso que te fosses

Pra sabermos de nós que ficamos sós

Nenhuma palavra dirás

Além das milhares de outras

Que te fazem conosco ficar

Foi preciso que te fosses

Pra sabermos de nós que ficamos ouvindo tua voz

Nenhuma loucura farás

Que nos deixe te amando mais

Tua caminhada termina em nós

Que ficamos sós

Além do documentário citado acima, “Um Risco no Céu”, dirigido por René Goya Filho, conheço pelo menos duas obras que podem ajudar o leitor a entender a trajetória de Carlinhos. Uma é a biografia escrita por Jimi Neto e Rossyr Berny, intitulada Carlinhos Hartlieb, editada pela Tchê! e pela RBS na coleção “Esses Gaúchos” e outra é a dissertação de mestrado em antropologia social de Nicole Isabel dos Reis, de nome “Dançar nos fez pular o muro”. Um estudo antropológico sobre a profissionalização na produção artística em Porto Alegre (1975-1985), defendida em 2005 na UFRGS que, mesmo não focalizando exclusivamente a obra de Carlinhos, auxilia sobremaneira no entendimento do contexto artístico de Porto Alegre na época da atuação do artista.

Carlinhos Hartlieb num estilo que Bob Dylan tornou famoso
Carlinhos Hartlieb num estilo que Bob Dylan tornou famoso

Neto de Theodoro Hartlieb (proprietário da “Casa Hartlieb”, responsável pela venda e conserto de instrumentos musicais, discos e partituras na Porto Alegre do início do século XX), Carlinhos aproximou-se das principais vertentes da música popular urbana da época, como a bossa-nova e a tropicália, além de incorporar muita coisa do rock dos anos 1960 (participou das bandas Liverpool e Bixo da Seda, pioneiras do rock no estado), da música regional e de ritmos latinos.

No entanto, além de seu próprio trabalho, Hartlieb foi um grande agregador das diferentes manifestações artísticas da Porto Alegre dos anos 1970 e início do anos 1980. Grande importância tiveram as “Rodas de Som” promovidas por Carlinhos, as quais, a partir de 1975, reuniram artistas novatos e já reconhecidos da Porto Alegre da época. O espetáculo acontecia no Teatro de Arena e era dividido em duas partes, a primeira para os novos artistas e a segunda para os mais conhecidos. A fórmula surtiu um efeito impressionante. Na noite de estréia, a atração principal foi a Bixo da Seda, deixando o teatro lotado e inúmeras pessoas empoleiradas nas escadarias da Borges. O sucesso da Bixo da Seda podia ser mensurado também pela gravação, bastante difícil na época, de um LP pela Continental. Segundo Jimi Neto e Rossyr Berny, deveria ser algo muito impactante ver a referida banda, famosa por suas performances “destruidoras”, tocando no pequeno espaço do Arena.

Capa do álbum de 1976
Capa do álbum de 1976

A dinâmica peculiar do trabalho de Carlinhos pode ser exemplificada pela temporada que passou no Rio de Janeiro, por sua atuação no TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo, aquele da peça “Morte e Vida Severina”, musicada por Chico Buarque e baseada na obra de João Cabral de Melo Neto), com o qual viajou pela América Latina e a parceria com o diretor José Celso Martinez Corrêa no Teatro Oficina.

Quando retornou a Porto Alegre, Carlinhos desenvolveu diversos espetáculos musicais, aglutinando música, teatro, dança e imagem. Entre eles, M’boitatá, Voltas e Sonho Campeiro (foto abaixo), que percorreu o interior do estado com o apoio da Secretaria de Educação e Cultura.

Show "Sonho Campeiro"
Show "Sonho Campeiro"

Em 1983, Carlinhos Hartlieb gravou aquele que poderia ser seu primeiro álbum, intitulado Risco no Céu que, além da música-título e da antes citada Nós que ficamos sós, agrupava mais oito canções, com os nomes: Relativa Paz; Um No Outro; Linda; Pedaço de Areia e Mar; Como o Vento Sul; Criar; Fascinante Amanhecer; É Tão Bom Saber.

Risco no céu
Risco no céu

Infelizmente, como não conseguiu apoio de nenhuma gravadora para lançar o disco até sua morte, Risco no Céu foi lançado postumamente, em 2004, com apoio da CEEE e da Prefeitura de Porto Alegre e que continha seis faixas bônus: Azulão; Por Favor, Sucesso; Sonho Campeiro; Teiniaguá; Associação das Cigarras e Maria da Paz (no vídeo abaixo, seguido do vídeo com a música Tempo da Borboleta).

Mesmo assim, em 1978, duas músicas suas (Maria da Paz e Admirado por todos) foram gravadas no marcante LP Paralelo 30, ao lado de músicas de artistas como Nelson Coelho de Castro (que em 1981 gravou Juntos, o primeiro álbum independente no estado), Bebeto Alves, Cláudio Vera Cruz, Nando D’Ávila e Raul Ellwanger. Aliás, em 2001, a Orquestra da Unisinos reeditou o Paralelo 30 num espetáculo no qual Gelson Oliveira homenageou Carlinhos cantando Manhã e Maria da Paz.

Paralelo 30 (1978)
Paralelo 30 (1978)

Paralelo 30 (2001)
Paralelo 30 (2001)

Cabe-nos agora destacar algumas músicas de Carlinhos: Por Favor, Sucesso foi inscrita em 1969 no II Festival Universitário de Música em Porto Alegre, sendo vencedora e classificada para o Festival Internacional da Canção no Rio de Janeiro, sendo a banda Liverpool, da qual Carlinhos fazia parte, convidada para registrar suas músicas em um LP, algo inédito para uma banda de rock gaúcha na época.

Algumas músicas, como Criar e É Tão Bom Saber revelam a capacidade de Hartlieb para compor canções que falassem da sua condição de artista, o que ficou ainda mais claro na música Associação das Cigarras que é um manifesto pelo reconhecimento da profissionalização dos músicos, fazendo-se valer de uma inversão da “moral” da fábula da cigarra e da formiga.

Risco no Céu e Maria da Paz mostram o lado profundamente lírico do artista e emocionam qualquer ouvinte que tenha um pouco de carne no coração. Abaixo reproduzo a letra de Risco no céu, lembrando uma pessoa muito especial que conheci melhor há pouco tempo, mas que já fez toda a diferença na minha vida:

Meu amor, só um risco no céu
Anunciava que você passou
E eu nem sei como vou te encontrar, meu amor
Nem sei como vou te encontrar

Fico aqui procurando enxergar
A poeira da estrada
Onde alguém que muito se quer vai passar
Alguém que muito se quer

Meu amor, sou aquele que escreve
Aquilo que deve e não deve falar
E por isso não quer e não consegue
Parar de te gostar

Meu amor, sou aquele que canta
A tristeza e a alegria do coração
A tristeza é fruto da saudade
E a alegria é a flor da paixão

Sonho Campeiro e Teiniaguá versam sobre temas regionais, antecipando uma roupagem para eles que se distancia de qualquer rótulo essencialista, tal qual praticado pelo tradicionalismo. Importante notar, nesse sentido, a riqueza da mistura dos instrumentos e das melodias de Hartlieb, que incorporam de forma primorosa tanto a guitarra quanto o bumbo legüero.

Infelizmente, Carlinhos Hartlieb foi encontrado morto na sua casa na Praia do Rosa (foto abaixo), sendo que na versão oficial da polícia ficou registrado a morte por suicido (enforcamento). Porém, como lembram Jimi Neto e Rossyr Berny, o laudo da necropsia não apontou lesões na região cervical e ainda destacou que no cadáver faltavam vários dentes. Por isso, ainda hoje, se reivindica justiça para um caso que os indícios levam a crer ter sido um assassinato.

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Independente disso, Carlinhos Hartlieb deixou um legado formidável para a música popular gaúcha, em particular, e para a brasileira em geral, sendo urgente a divulgação de sua obra, para que nunca esqueçamos a linda arte deste que foi o grande nome da música popular do Rio Grande do Sul, quando do início do processo de profissionalização dos músicos entre o final da década de 1960 e início da década de 1980.

Quem leu até aqui é obrigado a ver o documentário citado no início do post, cujo link reproduzo logo abaixo do vídeo com o trailer do curta (basta copiar e acessar), e que teve a direção musical de Marcelo Delacroix, tema do nosso post anterior e que inclusive já interpretou nos seus shows a música Sonho Campeiro.

http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&contentID=38502&channel=45

Divulgação do documentário
Divulgação do documentário

Termino dizendo que sinto saudades de Carlinhos mesmo não o tendo conhecido!

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Saudações musicais!

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