Yo quiero que te asomes a cada hora

Como un preso aferrado a su ventana

Y que sean las piedras de la calle

El único paisaje de tus ojos

(José María Fonollosa – Kennamore Street)

Demorei bastante, mas finalmente tomei vergonha na cara e resolvi escrever sobre o novo show da Adriana Deffenti, Alma Equilibrista, que estreou e ao qual assisti no dia 16 de maio no Teatro CIEE, aqui em Porto Alegre.

Adriana Deffenti (Rochele Bagatini - Divulgaçao)
Adriana Deffenti (Rochele Bagatini - Divulgaçao)

Talvez a demora justifique-se pela minha necessidade de pensar com mais calma, com mais ponderação sobre a nova empreitada musical de Deffenti após o álbum homônimo que me fascinou tanto e que me ajudou a descortinar outros universos musicais.

Aguardei o show com ansiedade, já que a artista voltava aos palcos da capital gaúcha após uma temporada na Europa nos últimos meses de 2008 e também porque sabia, através dos anúncios do show que, para minha surpresa, a composição da banda seria alterada, saindo os já comentados aqui no blog Angelo Primon e Marcelo Corsetti e entrando os músicos Luis Mauro Filho (teclados), Fernando Sessé (percussão) e Paulo Braga (baixo acústico).

Pois então, na noite do dia 16 de maio, eu e um casal de amigos (Paula e Cristian) nos deslocamos ao Teatro do CIEE e a primeira surpresa agradável da noite foi justamente a estrutura do teatro, que ainda não conhecíamos. Um lugar bonito, bem organizado e que me transmitiu uma sensação de aconchego.

Logo que começou o show, constatei aquilo que parece inerente às experiências humanas em geral, a mistura de mudanças e permanências. Permanência da voz bela e impactante de Adriana e de suas interpretações fortes e sofisticadas, mudanças na sonoridade e no ritmo do espetáculo.

Quanto às mudanças na sonoridade, mesmo considerando-as mais adequadas à própria mudança do espetáculo para algo mais intimista, entrecortado por poemas e pequenas narrativas da artista, ainda prefiro, como ouvinte leigo que sou, os arranjos do show anterior, aqueles que me cativaram cerca de três anos atrás. Essa sensação ficou mais forte ainda com a única versão feita no show de uma música do segundo álbum de Adriana, chamada El tungue le que, comparada à original, me soou menos impactante, dada a ausência do incrível “duelo” final dos violões de Primon e Corsetti (veja o vídeo da música no post sobre a cantora que fiz em janeiro).

No entanto, isso não deve ser compreendido aqui como algo problemático no show, que foi excelente, mas sim uma singela comparação de um ouvinte que ainda está mais acostumado com as músicas anteriores da artista. Deste modo, se o objetivo de Adriana foi o de reestruturar suas músicas e espetáculo, como parece ter sido na transição do álbum Peças de Pessoas (2002) para o Adriana Deffenti (2006), declaro aqui que estou disposto também, como ouvinte, a me deixar levar por essa transição e procurar sensações e significados no seu novo trabalho tão importantes como foram para mim os do show anterior.

E essa procura já teve resultados satisfatórios no show, com a interpretação de pelo menos 4 músicas que achei formidáveis: Mi vanidad (da Lhasa de Sela, da qual sou fã declarado), O mapa (baseada no poema do Mário Quintana), Sufre como yo (baseado no poema Kennamore Street do poeta catalão José María Fonollosa, de onde saiu o excerto que é epígrafe desse post) e Ressaca (do compositor porto-alegrense Filipe Catto). Das últimas três canções deixo os vídeos para vocês conferirem abaixo, sendo que a primeira que citei, entre outras, podem ser conferidas no MySpace de Adriana (www.myspace.com/adeffenti). Além destas canções que citei, destaque para versões de músicas de João Bosco, Cole Porter e David Byrne.

Por último, é importante salientar que Alma Equilibrista é um show e não um álbum, pelo menos por enquanto. Vamos torcer para que novos shows aconteçam e que saia em breve um novo disco de La Deffenti.

Saudações musicais!

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