Estava eu, na pindaíba clássica de final de mês, conformando-me com a impossibilidade de assistir ao show de lançamento do álbum Milongaço, do violonista gaúcho Maurício Marques. O show, acontecido terça (30/06) no Theatro São Pedro, no entanto, foi prestigiado por este que vos escreve.

Maurício Marques (Foto: Juliano Ambrosini/Lígia T. Sumi)
Maurício Marques (Foto: Juliano Ambrosini/Lígia T. Sumi)

Ao conferir as notícias da revista digital ZOOM RS (link no blogroll ao lado), soube da promoção que eles estavam fazendo para o show e, para a minha sorte e bom andamento deste blog, participei e fui premiado com um ingresso e um cd do Maurício Marques.

Antes de falar do espetáculo, faço uma pergunta: já escutaram a canção Memória dos Bardos das Ramadas, interpretada pelo Vitor Ramil no álbum Ramilonga? Se não, reproduzo abaixo o poema no qual se baseia a música, de Juca Ruivo, para ilustrar meus argumentos sobre o “projeto musical” de Maurício Marques.

MEMÓRIA DOS BARDOS DAS RAMADAS
(Juca Ruivo)

Memória dos bardos das ramadas
dos ilhéus, das violas lusitanas;
memória das guitarras castelhanas
em milongas, pericons e habaneras.
Lembrança das cordeonas afanadas,
animando fandangos e guerrilhas;
saudade das Tiranas e Quadrilhas
nos sorongos, em noites estreladas.

Tristeza das toadas missioneiras,
refletindo a angústia guarani!
Nostalgia do terço Lau Sus Cri,
rezado ao pôr-do-sol, nas Reduções.
Fascínio das histórias fronteiriças,
de caudilhos, duelos, entreveros!
Sensações de canchas, parelheiros,
no aconchego noturno dos fogões!

Memória do Negro Pastoreio,
da Boi-Guaçu, das lendas extraviadas,
das salamancas, das furnas encantadas,
dos cerros bravos, lagoas e peraus…
Nobreza dos amores confessados
no floreio de endechas cavalheiras
ao donaire das prendas e sesmeiras,
das vetustas estâncias, nos saraus.

Memória das payadas quixotescas
de andarengos, malevas, chimarritas,
dos menestréis de trovas não escritas,
dos cancioneiros de romance e adaga!
Memória dum passado novelesco,
desse filão de motes e poesia
donde gerou-se o estro e a galhardia
do fidalgo verso gauchesco!

Pois então, no poema é explícita a tentativa de elencar as diferentes influências culturais que sedimentaram a plural (apesar da tentativa de singularização por alguns) cultura gaúcha. Influências indígenas, africanas e européias, em combinações de diferentes matizes.

Mas para que falar disso num comentário dobre o álbum Milongaço de Maurício Marques? Porque é justamente a preocupação em mostrar a diversidade de influências da música gaúcha que perpassa todo o disco, sendo que apesar do nome “milongaço”, as faixas não são apenas milongas, mas também choro, chamamé, chamarra, baião, vanerão, chacarera, valsa, candombe e tango.

O nome das 15 músicas do álbum, todas de autoria de Maurício Marques, são: Chacarera no Planalto, Baiaoneirão, Amigo Missioneiro, Uma Pequena Canção ao Rei Arthur, Chotstrot, Serenata, Candonga, Estância da Glória, De Mansinho, Fronteiriço, Milonguita, Serena, Un Tango para “El Flaco”, Valsa Chuvosa e Milongaço.

Todas executadas com violão de 8 cordas, as faixas possuem peculiaridades. Algumas delas são a mistura proposital de ritmos, como demonstram os títulos híbridos de Baiaoneirão, Chotstrot e Candonga e a participação especial de alguns músicos, como no caso de Baiaoneirão (Renato Borghetti na gaita-ponto), Fronteiriço (Ernesto Fagundes no bombo legüeiro), Un Tango para “El Flaco” (Carlito Magallanes no bandoneón, no tango em homenagem a Carlos Garofali) e Valsa Chuvosa (Augusto Maurer no clarinete).

Os demais membros da banda, que participaram da gravação do álbum e também do show são: Felipe Álvares (baixo acústico e baixo fretless); Celau Moreyra (violoncelo); Marco Michelon (percussão) e Luciano Maia (acordeon).

O resultado de tudo isso são composições instrumentais de altíssima qualidade, com performances destacadas pelo virtuosismo dos músicos.

Não bastasse os prêmios recebidos pelos músicos que acompanham Maurício Marques (como os açorianos de Felipe Alvares, Luciano Maia e Renato Borghetti, por exemplo) e a maestria impecável do bandoneón de Carlito Magallanes, o próprio violonista tem uma trajetória rica em premiações. Em 2004 recebeu o Açorianos de melhor instrumentista, sendo que seu disco Cordas ao Sul recebeu três indicações. Além disto, Marques dividiu o palco com artistas da estirpe de Kleiton e Kledir, Plauto Cruz, Dominguinhos e Luiz Carlos Borges e, como se não bastasse, foi premiado pelo Itaú Cultural, pelo Prêmio Visa e no Projeto Violões do Brasil, com o Duo Assad. Abaixo um vídeo de Maurício no Itáu Cultural:

Assim, o que me resta dizer é recomendar expressamente a audição de Milongaço e, sempre que possível, assistir às apresentações de Maurício Marques, um dos principias criadores e intérpretes da música regional na atualidade.

Saudações musicais!

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