Após escrever sobre ela em dois posts intitulados “Música sem fronteiras”, está mais do que na hora de dedicar um texto exclusivo à cantora portuguesa Cristina Branco. Isto porque esta artista nascida na cidade de Almeirim pode ser considerada a minha cantora preferida!

Desde que conheci seu trabalho no início deste ano, a audição e a pesquisa sobre o trabalho artístico de Cristina são uma constante no meu cotidiano. A combinação de um repertório de belas canções, com arranjos sofisticados e com a voz incomparável da artista justifica meu apreço imensurável por sua trajetória.

Cristina Branco
Cristina Branco

Desde que me conheço por gente (o que não faz muito tempo), aprecio a sonoridade e as letras da tradição fadista e da canção portuguesa em geral. De Amália Rodrigues até Dulce Pontes, de Madredeus e Teresa Salgueiro até Maria João e Mário Laginha, meu ouvido acostumou-se a apreciar as músicas feitas na terra de Fernando Pessoa.

No entanto, ao escutar Cristina Branco, não senti apenas que gostava de sua música, mas que, daquele momento em diante, suas canções fariam parte da minha vida de forma inexorável. Tentando racionalizar um pouco o motivo do surgimento de meu “fãnatismo” pela cantora, posso dizer que a atitude de utilizar-se do fado de uma forma não-dogmática, explorando e extrapolando seus limites para outros gêneros, me fez perceber o trabalho de Cristina como uma síntese extraordinária entre “tradição” e “modernidade”.

Além disso, a voz doce e forte, interpretando de forma mais sóbria do que as cantoras de fado mais conhecidas, deixou a música portuguesa mais agradável e mais fácil de ser digerida por um ouvinte brasileiro. Não é à toa que Cristina Branco é responsável pela divulgação da música portuguesa para outros países, principlamente europeus. Para exemplificar, a turnê de seu álbum atual percorre até o final deste ano, além de Portugal, Bélgica, Alemanha e França, além de já ter apresentado-se na Holanda, na Suíça e na Grécia.

Cristina Branco
Cristina Branco

Aliás, sua carreira começou justamente fora de Portugal, ao gravar seu primeiro álbum, na Holanda, em 1997. Desde então vieram mais 9 trabalhos: Murmúrios (1998), Post-Scriptum (1999), Cristina branco sings Slauerhoff (2000), Corpo Iluminado (2001), O Descobridor (2002), Sensus (2003), Ulisses (2005), Live (2006), Abril (2007) e Kronos (2009). Portanto, foram lançados quase um álbum por ano, o que, segundo a cantora, proporcionou um aprendizado de estúdio muito importante. Porém, nos próximos anos, a situação deverá ser diferente, como explica ao falar de seu mais recente álbum na entrevista abaixo:

Neste texto quero comentar ainda os seus últimos 5 álbuns, pois infelizmente só tive acesso à metade da discografia de Cristina.

O álbum Sensus (2003), segundo o site da cantora: “foi inspirado num trabalho prévio: Corpo Iluminado; este poema de David Mourão Ferreira foi o mote para conceber esta idéia (ousada, dirão alguns!), já que não é vulgar cantar-se explicitamente o amor físico, para mim é muito mais que isso, já que se revelou um verdadeiro documento de como a sexualidade e o amor são encarados desde o séc. XIII até aos nossos dias”. Para atingir esse objetivo, fazem parte do álbum canções de artistas de diversos lugares, desde os brasileiros Vinícius  de Moraes (Soneto da Separação) e Chico Buarque (O meu amor), até o bardo inglês William Shakespeare, cujo um de seus sonetos é interpretado no vídeo abaixo, da canção Se a alma te reprova:

Ulisses (2005) “evoca a viagem, a aventura, a divagação, o amor, a partida, o regresso. O mito de Ulisses podia ter nascido da Saudade portuguesa, essa nostalgia fatalista, marca da espera, tão ligada ao mar e às incertezas que ele gera”. Para tratar desse tema, Cristina incluiu no disco canções  como Alfonsina y el mar (famosa na voz de Mercedes Sosa) e Navio Triste, as duas respectivamente nos vídeos abaixo:

No álbum Live (2006), gravado ao vivo, a cantora faz uma homenagem à tradição fadista e à Amália Rodrigues, tornando-se o concerto uma espécie de “balanço” de sua carreira até então. Além de canções já presentes em álbuns anteriores, Cristina deixou a marca de sua personalidade artística ao revisitar com respeito e refinamento temas clássicos do fado português. Abaixo as canções Os teus olhos são dois círios e Trago Fado nos sentidos:

Abril (2007) é o disco dedicado a José (“Zeca”) Afonso, que naquele ano completavam 20 anos de sua morte. Compositor dos mais respeitados da canção portuguesa, recebeu uma homenagem sofisticada de Cristina. Nos vídeos, duas faixas do álbum que já haviam tido uma primeira versão no disco Ulisses: Sete Pedaços de Vento (junto com Deolinda) e Redondo Vocábulo.

E seu décimo álbum, lançado este ano e intitulado Kronos, os temas são unificados pelo “tempo”, que é o cerne das letras compostas por diferentes e qualificados artistas portugueses, entre eles: José Mário Branco, Sérgio Godinho e Mário Laginha. Para mim, este é, disparado, o melhor álbum que ouvi esse ano. Com interpretações emocionantes de Cristina e um trabalho instrumental excelente dos músicos que a acompanham: Ricardo Dias (piano), José Manuel Neto e Bernardo Couto (guitarra portuguesa), Alexandre Silva (viola de fado) e Fernando Maia (guitarra baixo). Para apreciarem uma parte disso tudo, abaixo as músicas Trago um fado, Bomba relógio e a magnífica Longe do Sul:

Portanto, se depois dessa longa viagem feita nesse post você ainda não aprecia o trabalho de Cristina Branco, não há problema, com certeza não ficarei triste, já que estou me preparando agora para ouvi-la mais uma vez.

Saudações musicais!

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