Em tempos de Semana Farroupilha e da execução das músicas que tematizam a “vida do gaúcho”, publico um post sobre um “outro lado” da música feita no Rio Grande do Sul, lado aliás que agrada mais aos meus ouvidos e ao meu vínculo com a cultura do estado.

Com certeza, um dos momentos mais importantes da música popular urbana no Rio Grande do Sul em geral, e em Porto Alegre em particular, foi o lançamento do LP Paralelo 30 em 1978.

Numa época em que o lançamento de um disco era, se não raro, pelo menos muito difícil (o primeiro LP solo independente foi o Juntos do Nelson Coelho de Castro em 1981), a iniciativa da extinta ISAEC e de seus membros, como Geraldo Flach, e do produtor Juarez Fonseca, de congregar alguns dos principais artistas da época num LP (com duas músicas de cada) foi fundamental para a divulgação da música popular feita em Porto Alegre e atestar a qualidade e originalidade da mesma.

No álbum estão presentes Bebeto Alves, Nelson Coelho de Castro, Cláudio Vera Cruz, Raul Ellwanger, Carlinhos Hartlieb e Nando D’Ávila.

Paralelo 30 (1978)
              Paralelo 30 (1978)

Abaixo reproduzo o texto do encarte do LP escrito por Juarez Fonseca (retirado do endereço eletrônico: http://www.gazeta4distrito.com.br/2009/06/fatos-da-cidade-por-paulo-pruss-2/). Já que o texto apresenta uma análise das músicas muito melhor do que  eu poderia fazer.

“Da série de antologias de novos contistas e poetas, surgidas no Rio Grande do Sul nos últimos tempos, me surgiu a idéia de propor à ISAEC a gravação de uma “antologia” de compositores, mostrando um trabalho feito agora. A sugestão foi feita em dezembro de 1977; em fevereiro começamos a gravar com Carlinhos Hartlieb, Raul Ellwanger, Nando D’Ávila, Nelson Coelho de Castro, Bebeto Nunes Alves e Cláudio Vera Cruz. Os nomes poderiam ser ampliados, poderiam ser dez ou doze, cada um com uma faixa. Mas achei que seria mais interessante escolher seis e dar a cada um a oportunidade de mostrar pelo menos dois tempos de sua criação. Então, evidentemente, a escolha tem um certo caráter subjetivo. Paralelo 30 me parece que mostra um novo início de trabalho, mesmo que alguns de seus integrantes tenham já cerca de anos de vida ligada à música. É o caso de Raul, Carlinhos, de Cláudio. Nando, Bebeto e Nelson são da segunda metade dos anos 70 mesmo. Paralelo 30 é um disco gaúcho, mas não é um disco gauchista. Ele mostra tendências que coexistem aqui, em Porto Alegre, e que são resultado de muitas influências, inclusive a recente influência da consciência da terra, do que se vê e faz no lugar. Desde uma nova-milonga como Que se passa? Onde Bebeto fala da fronteira de Uruguaiana, sua terra natal, até o samba-choro Te Procuro Lá, que Raul compôs com Ferreia Gular em Buenos Aires. Desde a “invenção” de Nelson Coelho de Castro falando da sujeira Urbana, até o quase-baião Como Relâmpago no Céu, de Nando. Desde a latina Maria da Paz, de Carlinhos, até as canções pop-rurais do citadino Cláudio. Ao mesmo tempo, Raul tem uma música pampeana. Fronteiras; ao mesmo tempo Bebeto tem uma quase-tango, De Banquetes e Jantares. E assim por diante. Mas isso é apenas um trecho, um pedaço do trabalho deles. São as primeiras coisas que eles podem mostrar ao nível de uma gravação profissional (mesmo que, como eu disse, três deles tenham mais de dez anos de trabalho). Então, se pode dizer que Paralelo 30 é um disco de estréias. Um disco ao mesmo tempo sujo e limpo, como sujas e limpas são as coisas verdadeiras. Mas não pretende representar nada, em termos de Rio Grande do Sul – aqui há muita coisa entocada, por ser descoberta, ao lado de coisas que só não foram descobertas por acidente geográfico: não somos Rio ou São Paulo. Paralelo 30 representa uma parte do trabalho de seis autores. Apenas uma antologia. Mas uma primeira antologia. Neste texto procurei não me queixar pelos músicos, pois hoje penso que as dificuldades que todos enfrentaram são apenas pedras no caminho. E as pedras no caminho, mais cedo ou mais tarde, ficam para trás (Ah!: o nome Paralelo 30 é idéia de Geraldo Flach)”.

Atualmente, Bebeto Alves e Nelson Coelho de Castro são os mais conhecidos dos músicos do LP que continuaram em atividade. Mesmo assim, Raul Ellwanger e Claúdio Vera Cruz merecem muito mais reconhecimento do que têm. Já Carlinhos (cujo post que escrevi sobre ele está AQUI) e Nando, infelizmente faleceram, respectivamente, em 1983 e 1999.

Em 2001, um projeto intitulado Paraleo 30: Ontem e Hoje (com arranjos da Orquestra da Unisinos e do maestro Vagner Cunha no disco 2 e remasterização de Renato Alscher no  disco 1) relançou em cd a coletânea original e mais um disco com regravações de 6 composições do LP original e mais 6 composições inéditas, com as músicas de Carlinhos e Nando sendo interpretadas respectivamente por Gelson Oliveira e Zé Caradípia. Gelson Oliveira inclusive venceu o Prêmio Açorianos de melhor intérprete de MPB pelas músicas Maria da Paz e Manhã (Nei Duclós/Carlinhos Hartlieb).

Aproveitem, portanto, uma das origens daquilo que há de melhor na música gaúcha de todos os tempos e escutem o disco inteiro no vídeo abaixo.

Saudações musicais!

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