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(Arnaldo Antunes, Wherever)

Durante meus 24 anos de vida, ocupei os dias 20 de setembro de diversas maneiras. Desde não “fazer nada”, passando por assistir, quando pequeno (muito a contragosto, diga-se de passagem), meu pai desfilar no seu cavalo, até dar uma de guia turístico num desfile para um professor marroquino, que comparou o evento com os “trotes” das universidades portuguesas.

Hoje, no entanto, o feriado foi de uma dupla jornada de shows (que seria tripla caso tivesse conseguido o ingresso para ver Ná Ozzetti!). Pela manhã Luiz Carlos Borges com a Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro, lá mesmo no teatro e, pela tarde, a performance de Arnaldo Antunes na Pré Bienal: Índices e Anotações no Santander Cultural.

No primeiro espetáculo, uma aula de arranjos muito bem feitos por Pedrinho Figueiredo e Rodrigo Bustamante para os temas executados por Luiz Carlos Borges e pela orquestra, comandada pelo competente e divertido maestro Antônio Carlos Borges-Cunha. Aliás, belíssima combinação dos violinos da orquestra com o acordeón, principalmente nos chamamés e nas polcas.

Além disso, participações mais do que especiais abrilhantaram o espetáculo: João de Almeida Neto, Alessandro Kramer e Shana Müller que, além de participarem de duas músicas cada um reuniram-se no final para cantar o hino do estado. Surpresa especial para mim foi a interpretação, já no bis, de Alfonsina y el Mar por Luiz Carlos Borges, belíssima música do vastíssimo repertório de canções latino-americanas.

Concertos CEEE com Luiz Carlos Borges
Concertos CEEE com Luiz Carlos Borges (crédito: Chico Cougo)

Já no final da tarde foi a vez de enfrentar uma fila maior que a do show de manhã para ver a performance visual, musical, teatral e poética de Arnaldo Antunes. Acompanhado do músico Marcelo Jeneci (acordeón e teclados) e da artista plástica Márcia Xavier, Antunes explorou diversos recursos para sensibilizar a platéia para os poemas e/ou canções escolhidas para o espetáculo.

Para quem foi ver um show e não leu o release do espetáculo deve ter saído um pouco confuso da performance. No entanto, achei excelente a combinação de efeitos visuais (o telão e os espelhos ajudaram muito!), com os efeitos sonoros dos instrumentos de Jeneci e com os “significados” dos poemas que poderiam ser testados/interagidos tanto com a “realidade” quanto com os próprios efeitos do espetáculo, ou seja, os sons e as imagens. Pontos altos para mim foram a performance final sobre o corpo, com as folhas de papel nas quais estavam escritas as palavras totem e tabu e a escrita do poema  concretista Wherever (lá no topo do post), com um trocadilho muito inteligente na língua inglesa entre o “aqui”, “agora” e o “lugar nenhum”. Em síntese, uma performance de luxo para esquentar os sentidos para a próxima Bienal do Mercosul. Abaixo, como não tenho vídeo da performance, deixo um com Arnaldo e Jeneci interpretando a música Luzes:

Portanto, dois ótimos espetáculos forjaram este meu 20 de setembro que, além de filas enormes, tiveram em comum a presença de excelentes acordeonistas, como Luiz Carlos Borges, Alessandro Kramer e Marcelo Jeneci.

Por último, gostaria de apenas fazer uma ressalva a alguns comentários que ouvi do público lá na performance do Arnaldo Antunes e que me deixaram preocupados, do tipo: “se fosse um pouco mais caro o ingresso não teria tudo isso de gente!” ou, para quem tentou justificar a pouca empatia com o espetáculo de outra forma, “para quem pagou oito pilas já tá bom demais!”.

Ou seja, para mim, estas nada mais são do que opiniões elitistas que de uma forma ou de outra tentam negar o acesso à cultura a quem não tem “oito pilas” nem para passar um mês. Como se só pudessem prestigiar bons espetáculos quem dispusesse de  uma boa quantia em dinheiro, isto é, uma das formas mais puras de mercantilização do trabalho artístico (até parece que o Santander, uma instituição financeira que lucra bilhões de dólares  por ano está fazendo uma caridade para o público de suas atrações culturais!) . Por fim, se o problema são as filas e a lotação do espetáculo, essa é uma questão para ser pensada antes, quando da venda dos ingressos que, portanto, deveriam ser limitados em menor número.

Bom, depois desse desabafo, desejo que venham mais dias como esse recheados de bons espetáculos em Porto Alegre.

Saudações musicais!

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