A dica de tango de hoje (uma bela “descoberta” de Chico Cougo) é o grupo argentino La Chicana (que em Lunfardo significa “mentira, “engodo” ou mesmo se aproveitar de trâmites formais para enganar ou levar vantagem). Formado em 1995 por Acho Estol, Dolores Solá e Juan Valverde, o grupo hoje é composto, além de Solá (voz principal) e Estol (guitarra, arranjos, direção e voz), pelos músicos: Osiris Rodriguez (violino), Patricio “Tripa” Bonfiglio (bandoneón), Federico Tellechea (percussão) e Manuel Onis (baixo).

Já tendo lançado 4 álbuns de estúdio, La Chicana (segundo Antonio J. Polito) preocupa-se em recuperar e reinterpretar uma tradição mais “transgressora” do tango, inspirada no melodrama e no estilo mais canyengue (arrabalero, com uma dança mais cadenciada, entrecortada por pausas) de seu início. Por isso, a atitude dos músicos os aproxima mais do estilo rock do que das influências orquestrais e jazzísticas do tango mais conhecido.

La Chicana
La Chicana

No entanto, isso não significa um ecletismo vazio ou uma interpretação “moderninha” do tango, pelo contrário, os músicos demonstram qualidade e precisão em interpretações muito bem acabadas e fortes das músicas. Um exemplo dessa característica principal de La Chicana pode ser conferida  cabalmente no vídeo abaixo, onde interpretam Confesión, de Enrique Discépolo. Se você leitor não costuma ver os vídeos que posto aqui, faça-o agora!

A aproximação com os anos iniciais do tango, fez La Chicana valorizar os temas folclóricos platinos, como fizeram também Carlos Gardel, Ignácio Corsini e Agustín Magaldi. Desse modo, a zamba, a chacarera, o gato, o estilo, o chamamé, também integraram o repertório das melodias do grupo. E essas influências foram aumentando e ganhando matizes com as viagens que o grupo fez para se apresentar em diversos países.

Quando veio ao Brasil, em 1996, tomaram contato com a sanfona de Sivuca, em Natal. Já em Porto Alegre, no ano de 1999, aproximaram-se ainda mais do chamamé, da milonga e da ranchera. Após voltarem do Senegal, passaram a valorizar com mais afinco a origem afro-americana da milonga, o candombe. E assim, construíram álbuns formidáveis, mesclando canções próprias (com belas letras de Acho Estol) com regravações de clássicos  do tango, entre outras músicas, como por exemplo do álbum Estudando o Samba de Tom Zé.

Assim, La Chicana demonstra qualidade e sofisticação ao tentar interpretar  o tango para além de seu “congelamento estilístico” (como definem seus membros na divulgação do último álbum), preocupando-se com suas origens mestiças.

Abaixo listo a discografia de La Chicana com algumas músicas em destaque nos vídeos:

Ayer hoy era mañana (1997), álbum de estréia, no qual destaco a música Farandulera (Acho Estol):

Giro Extraño (2000), com a faixa-título, composta por Acho Estol:

Tango Agazapado (2003, vencedor do Prêmio Gardel em 2004), com a belíssima Milonga de los Perros e Sopapa (ambas de Acho Estol):

Lejos (2006), com La mariposa (Celedonio Flores/Pedro Maffia, que Gardel interpretou) no vídeo abaixo. Ainda editaram uma coletânea intitulada Canción Llorada (2005), incluindo temas de seus dois primeiros álbuns, para divulgar sua música na turnê européia.

Saudações musicais!

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