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Para inaugurar, portanto, a nossa nova seção, Conversa Esparsa, publico a entrevista feita com Marcelo Sandmann, poeta, músico e professor de literatura na Universidade Federal do Paraná. É autor dos livros Lírico Renitente (Sette Letras, 2001) e Criptógrafo Amador (Medusa, 2006) e lançou o álbum Cantos da Palavra em 1998 em parceria com Benito Rodriguez.

Neste blog já falei um pouco sobre Marcelo quando comentei sobre o álbum A Mulher de Oslo, da Vanessa Longoni, no qual duas canções são de letras do poeta: As Coisas da Casa e Amor com Guerreiro (onde é recitado o poema Sadomasoquismo a la carte). Falando da cena musical de Porto Alegre, Sandmann também fez parceria com Arthur de Faria (produtor do A Mulher de Oslo) no álbum Música Para Bater Pezinho de Arthur de Faria e Seu Conjunto.

Sem mais delongas, confiram, portanto, a entrevista:

1)      Quais são suas principais atividades no campo da poesia e da música atualmente?

Marcelo Sandmann: Estou às voltas com a preparação de um terceiro livro de poemas, sem pressa, que deverá sair dentro de dois ou três anos. Escrevo regularmente, mas pouco, e costumo deixar de lado aquilo que não me parece minimamente consistente.

Na música, eu e Benito Rodriguez, meu parceiro no CD Cantos da Palavra (1998), escrevemos algumas letras para melodias do compositor e instrumentista Cláudio Menandro. Essas canções deverão ser gravadas em breve pelo Cláudio, se tudo der certo.

2)      Que características identificam seus dois livros de poemas, Lírico Renitente (2001) e Criptógrafo Amador (2006)?

MS: Difícil para um autor caracterizar seu próprio trabalho. E poderia parecer pedante ou arrogante fazê-lo aqui em termos muito circunspectos. Prefiro deixar ao leitor essa tarefa.

3)      De que modo a sua produção poética vincula-se à música? Esta relação fez-se desde o início ou aconteceu durante a sua trajetória como poeta? Quais as semelhanças e as diferenças, na sua trajetória, entre a composição na música e a elaboração dos poemas?

Faço poemas, escrevo música, escrevo letras para músicas minhas, escrevo letras para músicas de outras pessoas, por vezes vejo poemas meus musicados por terceiros. São coisas distintas entre si, apesar das evidentes conexões entre uma e outra atividade. Tanto a palavra enunciada quanto a música trabalham com sons, ritmos, timbres, duração, chegam até nós através do sentido da audição. É esse o liame fundamental entre elas. Mas o signo linguístico é impregnado de sentidos, socialmente definidos, individualmente refratados, de uma maneira que a música não é. E o discurso musical (modal, tonal ou atonal) tem uma lógica que lhe é própria, por vezes bem alheia ao verbal.

Quando escrevo poesia, não penso em música. Penso num texto que vai ser lido, ou dito em voz alta, e que precisa manter-se por si. Quando escrevo uma letra, sei que não é um texto independente, que sua eficácia depende de sua plena adequação a uma melodia pré-existente, e que ele, uma vez criado, só funciona em conexão com essa melodia. Quando crio uma melodia, posso ter em vista alguma idéia de texto, mas o que mais frequentemente ocorre é que a letra vai ser criada só depois que a parte musical tiver se resolvido plenamente. Isso quando a música permite, de fato, a possibilidade de uma letra, o que às vezes não ocorre.

Capa do álbum "Cantos da Palavra" (1998)
Capa do álbum "Cantos da Palavra" (1998)

4)      Em parceria com Benito Rodriguez, lançaste o CD Cantos da Palavra em 1998. De que modo vocês combinaram suas atuações como escritores e compositores no álbum?

MS: Benito é um excelente letrista (e, até onde sei, nunca escreveu nem publicou poesia). Aprimorei-me como letrista nesse trabalho de parceria com ele. No Cantos da Palavra, com algumas exceções, a parte musical em geral é minha. Muitas letras são só do Benito. Algumas escrevemos juntos, por vezes ajustando a música ao texto quando isso se impunha.

5)      Qual é a situação, no caso de Curitiba, em relação a parcerias no meio musical (entendendo aqui parceria quando a obra ou show não são “assinados” por apenas um artista)? Ela é frequente e integra pessoas de outras cidades e/ou estados?

MS: No meu caso pessoal, tenho tido a alegria de estabelecer parcerias variadas, em Curitiba e outras cidades. Além de Benito Rodriguez e Cláudio Menandro, a que já me referi aqui, sou parceiro de dois dos integrantes do grupo curitibano Fato, Grace Torres e Ulisses Galetto, entre alguns outros na cidade. No Rio de Janeiro, tenho canções com Emerson Mardhine. Em Porto Alegre, sou parceiro do Arthur de Faria, um músico altamente inventivo, aberto ao risco e à experimentação.

A propósito, Arthur musicou a série de poemas “As Coisas da Casa”, que incluiu no CD Música pra Bater Pezinho. Recentemente a Vanessa Longoni regravou de modo estupendo essa canção, no seu A Mulher de Oslo, CD que você comentou com destaque aqui neste blog. Outra parceria minha com Arthur, e que ilustra bem a idéia de “troca” que a canção popular solicita e possibilita, é “Circo de Bairro”. Trata-se de um poema do meu primeiro livro, Lírico Renitente, como “As Coisas da Casa”. Arthur compôs uma música “maior do que o poema” e pediu que eu aumentasse o texto. Imagino que um poeta muito zeloso de suas coisas talvez pudesse se incomodar com isso. Eu achei o máximo, mexi no texto, Arthur deu uns palpites, virou uma outra coisa sendo ainda a mesma coisa.

            VANESSA LONGONI cantando AS COISAS DA CASA

6)      Quais seriam as diferenças (na elaboração e circulação, por exemplo) entre o poema registrado nos livros e a letra da canção?

MS: O poema é escrito para ser lido ou dito em voz alta. A letra, para ser cantada. Precisa articular-se com a parte musical. Só existe plenamente nessa articulação. A princípio, o poema publicado em livro atinge menos pessoas do que uma canção registrada em CD, cantada num show, veiculada no rádio. Mas com a difusão via internet, pode muito bem acontecer de um poema circular amplamente em blogs por aí e a canção ficar confinada a um registro num CD de pequena tiragem que poucos ouviram ou ouvirão. Cada vez é mais difícil de a gente saber como as coisas circulam, se chegam ou não chegam às pessoas, como chegam e o que as pessoas fazem com elas.

7)      Existem poetas e/ou músicos que são referências constantes na sua produção? Se sim, quais seriam eles e por quê?

MS: Na poesia, gosto especialmente do José Paulo Paes, sobre quem escrevi uma dissertação de mestrado há uns bons anos. Um autor que me impressiona pela coerência, contundência e longevidade criativa é Dalton Trevisan, o maior nome da literatura curitibana e uma grande referência na prosa brasileira. Entre os poetas recentes, aprecio muito o Paulo Henriques Britto.

Capa do livro "Lírico Renitente" (2001)
Capa do livro "Lírico Renitente" (2001)

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8)      Mesmo sabendo dos laços estreitos existentes entre literatura e música popular, muitas vezes na divulgação das mesmas (pelo ensino, pelos meios de comunicação, entre outros) o que se vê é uma separação ou mesmo o desconhecimento do possível diálogo entre elas. O que poderia ser feito e/ou já é feito por poetas, compositores e músicos em geral para modificar essa situação?

MS: Não me parece que a situação seja exatamente essa, especialmente no ensino ou no meio acadêmico. Do final dos anos 60 para cá, há uma grande quantidade de poetas importantes (poetas do livro) que têm uma forte atuação como letristas, uma tradição meio que iniciada com Vinicius de Moraes: Torquato Neto, Capinam, Cacaso, Sérgio Natureza, Paulo Leminski, Alice Ruiz, Wally Salomão, Antonio Cicero, Arnaldo Antunes (para citar alguns bem conhecidos). A atuação desses autores num e noutro campo, e com igual qualidade, explicitou as muitas possíveis trocas entre poesia e letra.

Os livros didáticos de língua e literatura trazem sempre canções como exemplos de textos criativos, junto com outras modalidades mais restritamente literárias. No início dos anos 80, a série Literatura Comentada, da Abril, que circulou em bancas de revista, em meio a escritores, dedicava alguns volumes a compositores populares (Noel Rosa, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil), como que reconhecendo o lugar de prestígio por eles ocupado no âmbito da cultura letrada. E os estudos universitários andam cada vez mais abertos para o estudo da música popular (Letras, História, Sociologia, Antropologia, Musicologia etc.). Em Letras, onde atuo profissionalmente, vejo uma grande quantidade de trabalhos de pesquisa voltados para as relações entre música e literatura.

Quanto aos meios de comunicação de massa, realmente há poucos programas de caráter educativo onde poesia, ou letra de canção e poesia, surjam como assunto. Mas, nos poucos programas sobre língua portuguesa ou literatura existentes (na televisão, no rádio, na imprensa escrita), curiosamente sempre se recorre à letra de canção na hora de se dar algum exemplo de recurso estilístico inventivo ou mesmo adequado uso de linguagem.

Capa do livro "Criptógrafo Amador" (2005)
Capa do livro "Criptógrafo Amador" (2006)

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9)      Apesar do auxílio da internet na divulgação, ainda parece ser muito difícil o reconhecimento por parte do público em geral da diversidade e da riqueza da música independente e da poesia contemporânea. De que modo, na sua opinião, configura-se hoje a relação entre a indústria cultural e a fruição individual, principalmente no que concerne à música e à poesia?

MS: Mas qual seria esse “público em geral”? Se for o grosso do público da Rede Globo de Televisão ou da Transamérica FM, ou o que lê apenas livros como Harry Potter e séries do gênero, ele está pouco interessado em música independente, menos ainda em poesia contemporânea. E não porque não tenha acesso, mas simplesmente porque certas coisas “não fazem muito sentido”, estão fora de um certo padrão de gosto e repertório.

Aliás, “acesso”, como você aponta, é o que mais existe nestes tempos de internet. A possibilidade que se tem hoje, meio ao acaso, passeando por sites e blogs, de se esbarrar com coisas imprevisíveis e surpreendentes é cada vez maior. Mas daí a pessoa precisa estar disposta a querer processar essa nova informação, e não simplesmente encontrar aquilo que já previamente esperava encontrar. Por falar em acaso, eu mesmo, meio ao acaso, vim cair aqui neste seu interessante blog, e desse acaso começa a surgir uma interlocução e a possibilidade de outros conhecimentos.

10)  Escreva algo sobre música e poesia que pensas ser importante para os leitores deste blog saberem ou refletirem.

MS: “Make it new”, dizia o poeta norte-americano Ezra Pound. O que eu, muito modestamente, adaptaria para: “faça diferente”. Ou ainda, pensando em leitores e ouvintes: “leiam, ouçam coisas diferentes”.

              MARCELO SANDMANN interpretando o poema “Simpathy for the devil” com a banda ZIRIGDANSK

E, para finalizar nossa primeira entrevista do Conversa Esparsa, Marcelo Sandmann fez a grande gentileza de nos ceder um poema inédito para postar aqui. Portanto, apreciem sem moderação.

Saudações musicais!

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