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Créditos: Cláudio Etges. Divulgação/JC

E a nossa seção de entrevistas do blog recebe seu segundo convidado: Marcelo Corsetti. Guitarrista nascido em Santa Rosa, mas com carreira musical consolidada em Porto Alegre, Marcelo é um dos principais instrumentistas gaúchos da atualidade, sendo parte fundamental de diversos trabalhos, produzindo outros ou mesmo dando aquela motivação necessária, como foi com este Música Esparsa, humilde blog que conta com a leitura do músico há algum tempo.

Profissional de extrema competência e qualidade, Corsetti, que já venceu o Troféu Açorianos em 1993 como revelação e foi indicado em outros anos na categoria de melhor instrumentista, integra o grupo de música instrumental Xquinas (com Luke Faro, Matheus Kleber e Carlos D’Elia), o grupo Realidade Paralela, que lança álbum dia 5 de novembro no Teatro do CIEE (com Angelo Primon, Vanessa Longoni e Luke Faro) e recentemente participou do show coletivo POA-Montevideo Sin Fronteras (com músicos uruaguaios e brasileiros como Vitor Ramil, Daniel Drexler, Ana Prada e Marcelo Delacroix).

Um dos primeiros posts desse blog foi dedicado a Corsetti e a seu companheiro em muitos trabalhos musicais Angelo Primon. Para conferir é só clicarem AQUI. Agora é a oportunidade de conhecermos um pouco mais do que pensa o artista e reforçar o convite para que vocês leitores prestigiem o trabalho de Marcelo Corsetti sempre que puderem.

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1) Quais são os principais projetos musicais que tu desenvolves atualmente?

Marcelo Corsetti: Hoje, o Xquinas e o Realidade Paralela são, digamos assim, minhas bandas. Mas toco também o show do Bebeto Alves, do Richard Serraria e esse novo projeto que é o Sem Fronteiras [POA-Montevideo Sin Fronteras, ver meu post AQUI]. Basicamente esses são os projetos que estão ativos. Ainda tem, em fase de latência, o show com o Angelo Primon e o Matheus Kleber, que foi de grande satisfação e de um resultado que nos surpreendeu. A cada dia surge algo para fazer, mas por enquanto é isso aí.

2) Poderia estabelecer as principais características e momentos de tua trajetória artística (como, por exemplo, os instrumentos que toca e os discos que lançou e/ou produziu)?

MC: Toco guitarra, é isso. Engano no violão e para isso tive que fazer um grande esforço na época dos shows da Adriana Deffenti. Sempre quis ter o meu trabalho e desde o início compus minhas músicas. Em 92, no “túnel do tempo”, lancei um LP. Fiz um mutirão de investidores, eram muitos mesmo e mandei ver, algumas horas de estúdio e o resto a gente vê depois. Assim iniciei a trajetória de meu trabalho. Nunca parei, e lancei discos em 94 (DDD)  97 (TRES – AO VIVO NO TEATRO RENASCENÇA), 2002  (XQUINAS), 2004 (XQUINAS AO VIVO NA CULTURA), 2007 (VOMO) e agora 2009, CD E DVD XQUINANDO NA TRAVESSA AZEVEDO 79. No meio do caminho produzi discos do Bebeto Alves (Blackbagualnegoveio – cd e dvd, e agora o novo, Pirata, que estamos mixando), Richard Serraria (Vila Brasil), Adriana Deffenti (Peças de pessoas e Adriana Deffenti). Também toquei com um monte de artistas e vou levando assim, todos os dias tem algo a fazer.

Xquinas
Xquinas

3) Desde o LP lançado em 1992 até o álbum Vomo do Xquinas (2007) que mudanças ocorreram no cenário da música instrumental no Rio Grande do Sul? O público aumentou? Os espaços de divulgação se ampliaram?

MC: Não penso muito nisso, senão paro já … Assim, os espaços diminuíram, mas seguem aí, sempre há um lugarzinho e algumas pessoas a fim de ouvir nossa música. Quanto ao público, existe um problema maior que não é da música instrumental, que é segurança, comodidade, etc. Se fores ver, hoje só lotam os grandes shows e daí já não é a música que está em questão e sim o evento social. Marisa Monte lota sempre, o Xquinas só de vez em quando (risos). A divulgação aumentou se pensarmos em internet, mas os jornalistas de música infelizmente são uma grande decepção, simplesmente não sabem o que está acontecendo fora da grande mídia e pelo jeito não estão a fim de saber.

4) Quanto ao projeto Realidade Paralela, que congrega 4 músicos reconhecidos na cena porto-alegrense, ele pode ser considerado uma referência para a construção de experiências coletivas na música urbana gaúcha?

MC: O Realidade Paralela nasceu de uma data que não eu não sabia o que fazer. Então falei com Angelo Primon e Vanessa Longoni, agregamos o Luke Faro e fomos nos divertir, a diversão deu tão certo que no fim do show as pessoas queriam disco, mais shows, etc. Daí criamos o Realidade que segue sempre o princípio da diversão em primeiro lugar. O Realidade é uma desculpa pra gente se encontrar , tomar café e dizer um monte de bobagens, em seguida a gente ensaia, faz shows, grava discos, clipes e vamos sempre nos divertindo. Quem dera todo mundo pudesse encontrar três pessoas tão especiais como são Luke, Angelo e Vanessa e ter sua banda.  Para mim é uma experiência gratificante e seria bom que houvesse outras reuniões como a nossa, porque acima de tudo creio que a gente faz boa música, gerada por essa infinidade de coisas comuns que temos.

Realidade Paralela
Realidade Paralela

5) Em relação à divulgação da música feita em Porto Alegre para outros lugares, pensas que ainda é marcante a oposição entre o regional e o nacional? Se para muitos debruçar-se sobre o regional é atingir o universal, existiria mesmo uma música “nacional” nesse entremeio que também não fosse por sua vez regional?

MC: Pra mim música é música, se regional, nacional, mundial ou cósmica, isso depois a gente vê. Só espero que as pessoas pensem sempre em fazer bem feito. Tem um texto do Sting que levo em conta:

A maioria das formas musicais estão sendo categorizadas. Isto é country, isto é gospel, música negra, música urbana, rockn’roll. Eu desprezo essas categorias. Quanto antes nos livrarmos disso, melhor. Eu não quero confundí-las. Não sei como categorizar minha música. Pra começar, não quero ser categorizado. Meu trabalho é evitar essas categorias e combatê-las.

Creio que a música pop deveria ser uma grande união, ou seja, ela pode sair de qualquer fonte: música clássica, jazz, literatura, história, em tudo que está o homem, está a música pop. Os críticos dirão que não pode ser isso.

E desculpem, eles estão errados!!!!”

Penso assim, ponto.

6) Quais atitudes seriam fundamentais, a seu ver, para a melhor difusão do tipo de música que crias e/ou produz para outros espaços? O papel de políticas públicas estatais seriam importantes nesse aspecto?

MC: Caro Icaro, não me sinto fora do sistema, simplesmente faço um tipo de música que aqui, em Nova York ou em Moscou não tem o devido espaço nos meios de grande divulgação. Não quero ser especial, e acho que quanto a atitudes oficiais, os governos têm coisas bem mais graves com que se preocupar, embora não pareça, do que fazer com que essa ou aquela música toque, ou deixe de tocar. Não conheço músicos ou artistas que estejam a fim de trabalhar e sejam organizados e que não estejam conseguindo se colocar no meio dessa grande confusão que é o mundo de hoje.

7) Recentemente aconteceu em Porto Alegre, em paralelo ao Fórum Internacional de Software Livre, o I Fórum Música para Baixar. Qual a importância da internet na divulgação de seus trabalhos? A internet pode ser ou já é uma maneira de renovar os meios de distribuição e circulação das músicas?

MC: A internet é uma grande salada de frutas. As pessoas falam como se fosse a salvação da lavoura, o myspace, o site, etc. Eu penso que só vai te procurar nesses endereços quem já ouviu falar de ti, portanto, não foi aquilo que te jogou para cima, simplesmente foi mais uma mãozinha. Lógico que não devemos esquecer que tenho 41 anos, sou de Santa Rosa e um baita chato. Quanto a baixar música, se o cara disponibiliza, não vejo problema. Mas se o autor não quer que baixe, vejo problemas, porque daí ele não está recebendo o que lhe é de direito e que, mal ou bem, é uma graninha para ajudar no orçamento. Acho que o direito autoral deve ser a grande discussão dessa nova era digital. Por exemplo, no disco do Realidade Paralela poderíamos fazer de conta que isso não existe, mas fizemos questão de pagar todos os direitos para que nenhum autor fosse lesado. Acho que a propriedade intelectual de um povo deve ser preservada sempre e a qualquer custo.

8 ) Fale algo sobre música (sobre quaisquer aspectos) que pensas ser importante o leitor deste blog saber ou refletir.

MC: Quero que todos se divirtam como eu me diverto fazendo isso, que os ouvintes tenham a satisfação que eu tenho. Isso não só na música, mas em qualquer profissão que o cara escolher, ele deve se preparar, tentar fazer o melhor possível e sempre ter o maior respeito por aquilo que faz, isso é o que penso. A música está muito acima de mim, eu sou apenas um meio de tocar ela adiante.

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