Depois de anunciar várias vezes e de desistir outras inúmeras, tomei vergonha na cara e resolvi dar início à série de posts dedicados à discografia dos cantores/compositores Zeca Baleiro e Vitor Ramil.

Podem me questionar: tá e qual a relação entre eles para colocá-los no mesmo post? E eu direi: objetivamente não sei! No entanto, a importância das músicas deles na minha trajetória de ouvinte é imensa e, por razões que explico adiante, a obra dos dois artistas se complementam na formação de minha visão de mundo nos últimos anos.

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Apesar de ter me dedicado a conhecer a discografia dos dois músicos em épocas diferentes (Zeca Baleiro conheci em 2001 e Vitor Ramil, apesar de conhecer desde criança, fui escutar todos os seus discos apenas ano passado), tanto Baleiro quanto Ramil traduziram através de suas letras muitas emoções que um gurizote tímido de classe média baixa do interior do Rio Grande do Sul sentia, mas nem sempre conseguia ter clareza. Não preciso nem dizer (mas já dizendo) que toda essa apreciação da obra dos dois é fundamentalmente subjetiva e que, provavelmente, não corresponde (ainda bem!) àquilo que “realmente” os artistas pensaram ao elaborar suas músicas, já que, para mim, essa busca do “real” e do “verdadeiro” na arte, apartada do sujeito que interage com ela, não tem muito sentido.

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Assim, as letras diversificadas de Zeca Baleiro despertaram em mim uma concepção satírica do mundo contemporâneo, uma reação debochada aos vícios da sociedade de consumo e a elaboração e a procura de um romantismo mais visceral e menos formal. Este último aspecto, aliás,  também encontrei nas letras de Vitor Ramil, as quais, além disso, completaram minhas reações debochadas ao mundo com a recepção melancólica das frustrações que este proporciona. É claro que minha personalidade foi forjada por muito mais elementos do que a música desses dois viventes, mas não seria exagero identificar as contradições do meu ser como uma combinação entre a sonoridade do bumba-meu-boi do maranhense Zeca e da milonga do gaúcho Vitor (com o fermento do tango de Gardel, Piazzolla e outros hermanos mais). Mas deixemos de lado esse divã musical e vamos ao que interessa: os dois discos que inauguram a carreira de Baleiro e Ramil.

Em 1997, José Ribamar Coelho Santos (nascido em Arari no Maranhão) e conhecido como Zeca Baleiro, lança o álbum Por onde andará Stephen Fry? inaugurando no mercado fonográfico sua carreira musical que havia iniciado desde 1984 pelo menos. O título do álbum (também o nome de uma das músicas do disco) é baseado em uma notícia do suposto desaparecimento do ator inglês Stephen Fry após ter sido, também supostamente, vaiado depois de uma apresentação teatral.

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E essa informação é apenas uma dentre tantas que configuram esse artista multifacetado e original que é Zeca Baleiro, que chegou a ser chamado de “neotropicalista”, mesmo que sua música extrapole de forma significativa essa referência. Aliás, em algum lugar, vi o músico afirmando que estava mais para Waldick Soriano do que para Caetano Veloso!

Em seu álbum de estréia, quase todas as canções são compostas  exclusivamente pelo próprio Zeca Baleiro, com exceção de Essas emoções (Donato Alves) e das parcerias com Chico César (Pedra de Responsa)  e com Jards Macalé e Waly Salomão ao incluir Vapor Barato na letra de Flor da Pele. Nas canções, uma heterogeneidade de ritmos, com frequentes alusões à cultura nordestina e afro-brasileira.

Músicas como Heavy Metal do Senhor, Salão de Beleza, O Parque de Juraci (com participação nos vocais de Genival Lacerda) e Kid Vinil mostram a crítica e o humor afiados de Baleiro, enquanto que Skap, Flor da Pele e Bandeira (no vídeo abaixo) expressam a veia romântica mais do que original do bardo maranhense. Depois de escutar Por onde andará Stephen Fry? não temos dúvida de que este poderia ter sido tanto um álbum de estréia quanto resultado de anos e anos de estrada, dada a maturidade do trabalho.

Vitor Ramil, diferente de Zeca, lançou seu álbum de estréia precocemente, aos 18 anos. Trata-se de Estrela, estrela (1981). O LP contém músicas de autoria excluvisa de Vitor, como a faixa-título,  Tribo (com participação de Tetê Espíndola nos vocais), Engenho, Um e dois (com Zizi Possi de parcipação especial) e Epílogo. Além disso, possui duas parcerias com Arthur Nestrovski (Mina de Prata e Aldeia) e duas outras com músicos gaúchos (Kledir Ramil em Assim, assim e Pery Souza na belíssima Noite e dia).

estrela, estrela

Desde então, a marca das letras de Ramil, com exceção de algumas das  parcerias, é o tom intimista e a temática das relações amorosas e suas características e contradições. A minha preferida do álbum, já que gosto mais da versão enxuta de Estrela, estrela em Tambong, é Noite e dia (que pode ser escutada abaixo), uma canção daquelas que pode ser vista como um lema de vida. Além disso, outros grandes músicos participaram do trabalho, como Egberto Gismonti, Wagner Tiso e Luis Avellar, denotando, assim como o disco de Baleiro, a qualidade do trabalho de Vitor no seu nascedouro.

No mais, aguardem o segundo post de nossa série, com os álbuns Vô Imbolá (Baleiro) e A Paixão de V Segundo Ele Próprio (Ramil).

Saudações musicais!

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