Eu perdi várias oportunidades de assistir Mercedes Sosa ao vivo, principalmente ano passado, quando La Negra esteve em Porto Alegre e em Cachoeira do Sul. Mas ontem, no auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural Érico Veríssimo, senti como se tivesse expurgado qualquer remorso em relação a isso, pois a homenagem feita à cantora argentina no Sarau La Negra: um tributo a Mercedes Sosa foi de uma emoção tão grande (saí consideravelmente abalado do local e aquilo tudo ainda me parece irreal demais) que a presença da arte de Mercedes fez-se retumbante, como se a mesma estivesse ali coordenando o espetáculo.

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Shana Müller e Luiz Carlos Borges

Mas quem verdadeiramente coordenou o Sarau foi o amigo de Mercedes, o incrível Luiz Carlos Borges, exímio acordeonista que convidou diversos artistas que tiveram alguma relação com Sosa para fazer sua homenagem. Entre eles Shana Müller, Sérgio Rojas, Daniel Torres, Maria Luiza Benitez e Vitor Ramil. Além deles, ótimos instrumentistas qualificaram o show, como o percussionista Marco Michelon.

Na abertura com Shana Müller, de performance impecável, já deu para sentir o tom especial do acontecimento. Quando, logo em seguida, Borges interpretou Alfonsina y el Mar, meu coração disparou de vez, tal o carinho especial que tenho por esta canção. Maria Luiza Benitez, com sua voz forte e bonita deu sequência à apresentação que continou depois com Vitor Ramil. O compositor pelotense apresentou a versão espanhola de Não é céu (Cielo no es na gravação em Tambong e El cielo no es na versão de ontem) que quase foi gravada por Mercedes, segundo a história contada pelo músico antes da interpretação (veja a música no vídeo abaixo). Além disso, acompanhado pela banda e por Borges, Vitor apresentou a milonga Semeadura, essa sim gravada por Mercedes e que com certeza emocionou a platéia.

E, por falar em emoção, acho que um dos principais momentos que eu tive que me segurar foi na participação de Daniel Torres, que simplesmente arrasou nas versões de Como la cigarra (Maria Elena Walsh) e Solo le pido a Dios (León Gieco). E, para finalizar as participações, Sérgio Rojas não foi menos incrível que os outros intérpretes ao cantar uma canção de Fito Paez e o hino Los hermanos (Atahualpa Yupanqui/Pablo del Cerro).

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Daniel Torres

E como se não bastasse toda a energia emotiva da apresentação até o encerramento, a interpretação coletiva de Luna Tucumana (Atahualpa Yupanque), entrecortada por um poema da grande cantora Teresa Parodi lido por Vitor (que se emocionou e emocionou a todos), encerrou a homenagem que ainda teve como bis a indefectível Gracias a la vida (Violeta Parra).

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Vitor Ramil na interpretação do poema de Teresa Parodi

Assim, a noite de ontem (12 de novembro de 2009), com certeza foi a maior homenagem que se fez a Mercedes Sosa aqui no Brasil e, abruptamente, vou parando por aqui, porque este meu texto pobre não consegue dar conta de tudo que vi, ouvi e senti naquele momento.

Para finalizar, quero agradecer meu grande amigo Chico Cougo (autor das fotos e do vídeo deste post) pela companhia no show e no debate dos devaneios proporcionados por ele. Chico, que já tem dois blogs de sucesso, Revivendo Teixeirinha e Memórias do Chico, lançou há poucos dias sua mais recente cria blogueira, América Macanuda, que pretende abordar a diversidade e a riqueza da música desse continente musical formado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Acessem lá e confiram também os comentários dele sobre o Sarau e mais fotos do show. Daqui para frente, todo espetáculo que chamar a atenção de nossas abordagens esparsas e macanudas terão uma dupla cobertura para quem quiser conferir.

Saudações musicais!

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