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Créditos da foto: Gutemberg

E a seção Conversa Esparsa chega na sua terceira edição. Depois de entrevistarmos o poeta e músico Marcelo Sandmann e o guitarrista Marcelo Corsetti, chegou a vez da cantora e compositora porto-alegrense Karine da Cunha partilhar suas impressões sobre sua trajetória artística conosco.

Karine já lançou dois álbuns, Fluida (2005) e Epahei (2007), tendo sido premiada pelo Açorianos pelo primeiro e indicada pelo segundo. Atualmente, além do show de Epahei, que já percorreu o Brasil, Karine divide com a pianista Bethy Krieger o espetáculo Yá-lé, além de  apresentar shows de diversos formatos, como foi o caso de Poema de ouvido (ao lado do violonista Marcus Bonilla) nesta 55ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Portanto, aproveitem a oportunidade de conhecerem ou saberem mais sobre a arte dessa ótima intérprete e compositora e deixem seu recado lá nos comentários! Para acessarem o MySpace e o blog de Karine é só clicar AQUI e AQUI.

Saudações musicais!

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Créditos da foto: Emílio Pacheco

1) Dentro do universo de intérpretes femininas na música popular brasileira hoje, poucas compõem e fazem um trabalho autoral como tu consegues. A relação intrínseca entre ser compositora e intérprete estabeleceu-se desde o início na tua carreira ou começaste como intérprete somente?

Karine da Cunha: Eu lembro de começar a compor assim que aprendi os primeiros acordes no violão, com dez aninhos. Fazia canções infantis. Mas quando comecei a cantar profissionalmente foi em espaços culturais, happy hours, como intérprete de canções conhecidas, em 1997. Continuei compondo, mas foi só em 2003 que assumi um trabalho totalmente autoral.

2) A feitura de teus álbuns parece ser influenciada por uma quantidade considerável de shows que tu apresentas em diversos lugares, como foi o caso da turnê de Epahei no Norte e Nordeste do país. Qual a importância desses shows na tua composição e na escolha de repertório para teus álbuns?

KC: Com certeza a criação está muito ligada com as vivências pessoais e musicais. Acredito que cada álbum é o “retrato sonoro” de um momento que estamos vivendo, ou ao menos nossa opinião ou reação sobre fatos atuais. Dessa turnê pelo norte e nordeste vieram várias novas canções, parcerias e projetos para o futuro. Felizmente eu sou uma pessoa tão inspirada que não preciso ir muito longe para criar. Muitas das minhas músicas surgiram no caminho de casa para o trabalho, na rua, assim de repente. Mas o mar, o calor e o contato com pessoas e a cultura nordestina me inspiram muito.

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Fluida (2005)

3) A mistura de influências na sonoridade do teu trabalho, como milongas, samba, baião, chamamé, entre outros, é uma característica que foi pensada previamente ou foi sendo forjada na elaboração das canções e nos shows?

KC: Surgiu naturalmente das minhas vivências e influências musicais. Meu pai foi responsável pela “trilha sonora” da minha infância, que sempre teve música gaúcha e jazz – estilos preferidos dele; e quando comecei a tocar violão me encantei pela bossa nova, o samba de Noel Rosa, Carmen Miranda e outras coisas mais da antiga. Quando conheci o Marcus (meu marido e produtor musical) ele me apresentou a autores nordestinos como Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Chico César e a paulistas como o [José Miguel] Wisnik, [Paulo] Tatit, esse pessoal da pesada. E as minhas canções são “reciclagens” do que escuto e curto.

4) A presença da cultura afro-brasileira na sonoridade e na temática das canções de Epahei são, na minha opinião, um exemplo da brasilidade e do caráter multifacetado da cultura do Rio Grande do Sul. Essa característica auxilia na tentativa de extrapolar mais facilmente o estado para mostrar teu trabalho? A tentativa de alguns grupos de atribuir ao Rio Grande do Sul uma homogeneidade cultural do “gaúcho”, vinculada aos referenciais do tradicionalismo, é um empecilho na divulgação de músicas como as tuas aqui no estado ou a recepção delas acaba não se vinculando a esse aspecto da falsa dicotomia gaúcho/brasileiro e seus desdobramentos?

KC: Em geral sinto que é mais fácil tocar esse trabalho do Epahei em outros estados, embora tenhamos um público que aprecia essa temática e o gueto afro do Rio Grande do Sul também é bastante forte. O que acontece muito aqui é uma confusão entre o meu trabalho que é musical com outros segmentos ligados à religião. Quando as pessoas vêem que não sou negra a coisa piora um pouco, surge ainda mais preconceito. Tive a oportunidade de tocar em Salvador, por exemplo, onde o universo dos orixás é praticamente um símbolo da cidade. E fui muito bem recebida tanto pela imprensa, músicos, quanto pelo público. Num primeiro momento causa estranheza o fato de uma “branquela” cantar a cultura afro e de morar no Rio Grande do Sul. Foi bacana para desmistificar um pouco a idéia que o pessoal lá de cima tem do estado. Principalmente a questão racial, eles acham que não temos negros aqui e que só existe música gaúcha. Senti orgulho de poder levar um pouco da nossa cultura, embora estilizada, para outros estados.

5) Com quais músicos tu trabalhas atualmente (desde aqueles que integram teus shows até aqueles com os quais estabelece parcerias paralelas ao teu trabalho autoral) e como eles contribuem na tua trajetória artística?

KC: Marcus Bonilla faz a produção musical dos meus Cds e shows além de atuar como violonista; Rafael Dusik, percussionista de Esteio; Mario Pirata, com quem apresento o espetáculo “Quando a poesia canta”; Bethy Krieger, pianista que me acompanha no show “Yá-lé”; tem o pessoal do show Epahei: Vinícius Prates (flauta), Aninha Freire (contrabaixo acústico) e Edgar Araújo (percussão e bateria), além de outros músicos que participaram dos Cds. Eles contribuem principalmente na sonoridade dos trabalhos, as canções é que ganham com a maturidade e o talento de cada um deles.

6) Desde a tua formatura no curso de Música na Universidade Federal do Rio Grande do Sul até hoje, quais seriam as principais mudanças e permanências na tua relação com a música e na recepção do teu trabalho artístico?

KC: O fazer musical e a carreira artística são duas coisas completamente diferentes. Mas ambas ganham com o passar do tempo a chamada maturidade. Quando eu resolvi assumir o trabalho autoral montando o show Fluida foi uma espécie de teste para ver a recepção do público e dos colegas. Como surgiu uma demanda e a cada apresentação desde 2003 a receptividade do público é cada vez melhor, não parei mais. A mídia é fundamental nessa relação entre artista e público e graças a Deus tenho ótimos parceiros nos principais meios de comunicação da cidade e trabalho para ter mais e mais adeptos à minha música.

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Epahei (2007)

7) No post inaugural do teu blog (http://karinecunha.blogspot.com) mencionas a inexistência de crítica musical de shows em Porto Alegre e a dificuldade, portanto, de sabermos o que foi apresentado na cena musical da cidade. Na tua opinião essa situação ainda persiste? A música independente ainda é algo quase inexistente na pauta do jornalismo cultural da cidade?

KC: O que eu percebo é que o espaço no jornalismo que existe é para a divulgação do que vai acontecer, ou seja, muita agenda. Aliás, atualmente, Porto Alegre tem uma agenda variada e intensa de programação cultural de segunda a segunda para todos os gostos e bolsos, o que é ótimo. Mas é muito raro um comentário ou uma crítica no dia seguinte de um lançamento ou show local. Isso é um sinal de que a imprensa não frequenta ou não tem interesse em assistir a cena local. E eu como artista sinto falta desse feedback.

8 ) As indicações dos teus álbuns ao Prêmio Açorianos, tendo sido vencedora em 2005 pelo Fluída, possibilitaram mudanças concretas no reconhecimento e na divulgação do teu trabalho? E como a internet te auxilia nesses aspectos?

KC: As indicações e o Prêmio Açorianos funcionam como uma “carta de visitas”. O trabalho e o artista ganham reconhecimento da classe artística, imprensa e meio artístico em geral. Infelizmente o impacto junto ao público ainda é muito pequeno. Já a internet é uma verdadeira rede que aproxima cada vez mais o público do trabalho e as possibilidades são muitas. É maravilhoso de repente receber o email de um francês, ou de alguém lá do Acre que encontrou meu site, o que já aconteceu. A internet tem um papel fundamental na divulgação e eu fui uma das primeiras artistas de Porto Alegre a ter um site lá em 2003.

Show Yá-lé com Bethy Krieger

9) Quais são os principais projetos musicais que tu desenvolves atualmente e suas próximas apresentações?

KC: 2009 foi um ano no qual me dediquei aos shows e à “digestão” de uma turnê de 5 meses pelo Brasil. A correria foi grande e por isso não lancei nada. Projetos eu tenho vários pra registrar em CD ou DVD. Confesso que ainda não sei por onde começar, mas a idéia é lançar ao menos um trabalho com produção musical do Rafael Brasil, que é um parceiro recente. Na semana passada, dias 12 e 13 de novembro, fiz o show Epahei em Chapecó, Santa Catarina; e dias 18 e 19 participo de um evento em São Leopoldo sobre a Consciência Negra, 21h, acompanhada do percussionista Rafael Dusik ao ar livre, numa praça próxima ao Ginásio Municipal da cidade. Desde já estou trabalhando para participar de feiras do livro do litoral no início de 2010. Em breve estarei com meu site no ar novamente, quem quiser é só acessar. Por enquanto minha agenda está no meu perfil no MySpace [acesse AQUI].

10) Deixe uma mensagem para os leitores do Música Esparsa.

KC: Quero agradecer a oportunidade de divulgar ainda mais meu trabalho, parabenizo o blog pela iniciativa e interesse pela música da nossa cidade e o carinho do idealizador Icaro que compareceu aos shows. Muito obrigada por tudo e conta comigo. Grande abraço.

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