Apesar da sua origem reconhecidamente argentina (ou, para ser mais amplo, platina) o Tango disseminou-se pela Europa antes mesmo da Primeira Guerra Mundial. Isto é, antes de Carlos Gardel fazer do tango-canção o carro-chefe de sua carreira como solista, o tango como dança e música instrumental já fazia sucesso no Velho Continente.

Ao longo de sua história, muitas foram as formas de apresentação e interpretação deste estilo musical que conquistou o mundo. Desde os famosos sextetos de Julio de Caro, Francisco Canaro e Roberto Firpo, passando pelos solistas Carlos Gardel, Ignacio Corsini e Agustin Magaldi até (mas não parando por aqui) a renovação originalíssima pelas mãos e pelo bandoneón de Astor Piazzolla.

Uma das formas de apresentação do tango que se disseminou consideravelmente foram os duos, com combinações diversas, desde aquele conhecido dos porto-alegrenses com o bandoneón de Carlito Magallanes e o piano de Carlos Garofalli até a combinação de voz e piano que apresentamos hoje no Conversa Esparsa. Trata-se do duo Garufa Tango, formado pelo cantor argentino Axel O”Mill e pelo pianista espanhol Gorka Pastor. O duo, que expressa justamente a troca tanguera entre a Argentina e a Europa mencionada  no início, será a  primeira “atração internacional” da nossa seção de entrevistas.

Tempos atrás, no segundo post da seção Sempretango, comentei rapidamente a música feita pelo duo, formado este ano e que já lançou um álbum homônimo com 8 temas: Sur (Aníbal Troilo/Homero Manzi), Naranjo en flor (Virgilio Expósito/Homero Expósito), Balada para un loco (Astor Piazzolla/Horacio Ferrer), Uno (Mariano Mores/Enrique Santos Discépolo), Adiós Nonino (Astor Piazzolla), El corazón al sur (Eladia Blázquez), Garúa (Aníbal Troilo/Enrique Cadícamo), Cafetín de Buenos Aires (Mariano Mores/Enrique Santos Discépolo).

E hoje publico a entrevista que gentilmente foi concedida ao blog pelo vocalista Axel O”Mill desde Pamplona, na Espanha, onde se originou e se sedia este projeto.  Agradeço ao Carlos e à Fernanda pela ajuda na revisão das perguntas e espero que vocês gostem e comentem!

Saudações musicais!

Axel O'Mill e Gorka Pastor

1) Como vocês (Axel O’Mill e Gorka Pastor) se conheceram e decidiram formar um duo de tango? Qual a trajetória do duo até hoje?

Garufa Tango: Nos conhecemos no ambiente musical de Pamplona há cinco anos aproximadamente. Gorka tocava teclado em um grupo chamado THC e eu sou cantor do grupo Gualitxo. No último disco de Gualitxo convidamos Gorka para colaborar em uma das canções. Andávamos buscando um projeto para fazermos em comum e eu estava com a idéia de fazer algo com o tango. Um dia enviei a Gorka Adiós Nonino [composição de Astor Piazzolla] e lhe disse que, se ele a tocasse, montávamos um duo de tango… Em três horas ele me reenviou a música gravada… E assim começou esta nova viagem.

2) O tango-canção tem cerca de cem anos. Que características atribuem a ele e que motivações vocês possuem que fomentaram a criação do duo, apostando na atualidade do estilo?

GT: O Tango Argentino é de fins do século XIX e nasce entre os imigrantes que chegavam buscando “as Américas”, deixando seus países.  Eu mesmo sou de origem irlandesa, escocesa, siciliana e catalã. Todas as diferentes culturas que chegaram a Buenos Aires colocaram seu grão de areia no tango… O tango é principalmente a nostalgia do que se deixou para trás, mas também é ironia, picardia, comédia e tragédia. Como todos sabem, os argentinos são muito nostálgicos. Faz onze anos que estou fora da Argentina e cantei tango desde que era pequeno. Assim, estando longe de meu país, me propus a ir além e montar algo sério, pequeno e bonito… Que fosse fácil de levar por aí… Isto me ajuda de alguma maneira a estar em contato com minha cultura.

3) Do que conhecem, como é a recepção do tango atualmente na Europa, em geral, e na Espanha, em particular? E como está sendo a receptividade ao trabalho de vocês?

GT: No geral a recepção é muito boa. Acredito que o Tango, como tantas outras músicas latino-americanas, está vivendo um bom momento no Velho Continente. Há muitos festivais de tango disseminados pela Europa. E também há um nível muito bom de intérpretes sul-americanos e europeus. O tango já é internacional, tanto que foi declarado patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO.

Devemos agradecer às pessoas, que animam o duo a seguir adiante, sempre preocupados em saber onde tocamos. Temos alguns admiradores que já vão a todos os concertos.

4) Axel faz parte do grupo Gualitxo e Gorka do THC. Alguma parte dos admiradores destes grupos também acompanha o trabalho do duo Garufa? O trabalho com estas bandas, apesar das diferenças, influencia de alguma maneira a sonoridade do duo?

GT: Sim, muita gente que vem nos assistir com o duo Garufa nos conhecem primeiro a partir de nossas outras formações. Alguns sequer haviam escutando um tango antes. O mais bonito é que, entre o público, há gente de todas as idades.

Não creio que nossas outras bandas influenciem na sonoridade do Garufa, mesmo sendo certo que cada um leva suas influências na hora de tocar.

5) Além dos 8 temas do álbum de estréia de vocês, que músicas costumam aparecer nas apresentações do duo?

GT: No repertório dos concertos incluímos também tangos como: La última curda [Aníbal Troilo/Cátulo Castillo], Los mareados [Juan Carlos Cobián/Enrique Cadícamo], Garufa [Juan Antonio Collazo/Víctor Soliño/Roberto Fontaina], Tinta roja [SebastiánPiana/Cátulo Castillo]…

Estamos começando a trabalhar em um segundo disco que esperamos lançar no início do próximo ano, no qual incluiremos esses e outros tangos.

6) Como a internet os ajuda na divulgação do trabalho do duo, já que foi através do MySpace que um blog brasileiro como este conheceu a música de vocês?

GT: É evidente que para os artistas menos conhecidos, a internet, e em especial o MySpace, são uma ferramenta imprescindível. De outra maneira não poderíamos nem sonhar em fazer chegar a nossa música a todo o mundo. Além disso, nos dá a possibilidade de conhecer muitos músicos com os quais podemos montar projetos em comum. Graças ao MySpace contatamos com Dario Polonara e Gustavo Cassissi, dois grandes músicos que vivem em Barcelona e convidamos eles para tocar duas vezes conosco.

7) Garufa (o nome do duo) pode ser entendido como festa e o tango-canção muitas vezes relaciona-se com a melancolia. A exploração de aparentes contradições como esta, como a relação do lunfardo, um vocabulário específico, com temas universais (como o amor e os problemas do mundo), pode ser considerada uma das razões da longevidade do tango?

GT: Geralmente o tango se relaciona com a melancolia, mas, como disse antes, ele também é picardia, ironia. Enrique Santos Discépolo foi, na minha opinião, um dos maiores letristas do tango e sua obra reflete este conceito perfeitamente. Cambalache, Yira yira, Que vachaché, Esta noche me emborracho, Chorra… estes são exemplos perfeitos desta dualidade comédia/tragédia.

O lunfardo é um argot que evolui a cada dia. Suas origens remontam às prisões do início do século XX, onde estavam delinqüentes de diferentes nacionalidades. Cada um tinha seu idioma e, além disso, entre eles, inventavam palavras para que os guardas não as entendessem. O tango, nesta época, era uma música das classes baixas e era mal visto nas altas esferas da sociedade. Nesse sentido, de modo natural, o lunfardo começou a ser usado no tango.

Álbum Garufa Tango (2009)

8 ) Quais outros músicos se apresentaram na companhia do duo? Indique-nos outros intérpretes recentes de tango na Europa.

GT: Até hoje, colaboraram conosco: Dario Polonara, Gustavo Cassisi e em uma ocasião também o quarteto de cordas do Conservatorio Pablo Sarasate de Pamplona, dirigidos por Koldo Pastor.

Há muitos intérpretes atualmente na Europa. Fulanas Tango, Quinteto Porteño, entre outros.

9) Conhecem algo da música brasileira? Se sim, o que mais vocês gostam?

GT: Ambos somos amantes da música do Brasil, aliás, Gorka é capoeirista (risos). Temos em comum pais músicos e amantes da boa música. Ambos. Desde pequenos escutamos muita bossa nova, choros e música variada do Brasil. Gorka também toca em Zura, um grupo de bossa nova com letras em Euskera (idioma do país Vasco).

Da música brasileira, poderíamos nomear a Paulinho da Viola, Caetano Veloso, João Gilberto, Vinicius de Moraes, Toquinho, Maria Betânia…etc.

10) Deixem alguma mensagem para os leitores do blog Música Esparsa.

GT: Um abraço muito grande para os leitores do Música Esparsa e para esse país, cheio de tantas coisas bonitas, um país que apesar de tudo se mantém positivo e sempre vivo. Esperamos poder estar logo por estas terras.

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