Finalmente consegui um tempinho para dar continuidade aos meus comentários sobre as discografias de Zeca Baleiro e Vitor Ramil. No primeiro post da série escrevi sobre os álbuns de estréia dos artistas: Por Onde Andará Stephen Fry (1997) e Estrela, estrela (1981), respectivamente. Agora chegou a vez de Vô Imbolá, lançado por Zeca em 1999 e de A Paixão de V Segundo Ele Próprio, lançado por Vitor em 1984.

O segundo álbum da carreira de Baleiro, composto por 14 canções, demonstra, como no primeiro, a capacidade do artista em transitar por diversos estilos musicais sem cair em um ecletismo non sense. Desde canções calmas e românticas como Lenha até aquelas mais agitadas e irônicas, como Samba do Approach, Vô Imbolá faz o ouvinte viajar por diferentes ritmos, sensações e letras muito criativas, sejam nas composições próprias de Zeca, como as duas citadas acima, ou em versões inspiradíssimas, como a de Disritmia (Martinho da Vila).

Nesta diversidade de referências que povoam Vô Imbolá, em diversos momentos aparecem importantes “declarações” do artista, explicitando suas preferências e suas sempre inteligentes autodefinições. Como exemplo, podemos citar trechos da primeira e da última canção. Na faixa-título , que abre o álbum, ouvimos: “nem Frank Zappa, nem Jackson do Pandeiro/lobo bom e mau cordeiro/mais metade que inteiro/me chamei Zeca Baleiro/pra melhor me apresentar”. Em Maldição, a última música, ouvimos: “meu coração não quer dinheiro/quer poesia” e, mais adiante, “Baudelaire, Macalé, Luiz Melodia/ Waly Salomão/Itamar Assumpção/o resto é perfumaria”. Assim, nestas poucas palavras entramos em contato com diversas influências do artista e, ao que me parece, sua admiração por escritores e compositores nem sempre valorizados devidamente. Além disso, a oposição entre poesia e dinheiro é um dos grandes motes utilizado por Zeca em várias letras ao longo da sua carreira, sempre com um tratamento original e instigante.

Apesar de eu gostar de absolutamente todas as músicas do Zeca, sempre tenho algumas preferidas em cada álbum e, nesse caso, Não tenho tempo (do próprio Baleiro) e Tem que acontecer (Sérgio Sampaio) são especiais para mim. No vídeo abaixo, uma prova do álbum com a última canção citada:

Diferente do segundo disco de Zeca Baleiro, no qual pode ser vislumbrada uma certa continuidade em relação ao seu ábum de estréia, Vitor Ramil surpreendeu em A Paixão de V Segundo Ele Próprio. Neste segundo LP, o cantor e compositor abriu-se à experimentação, incluindo, como consta no site do artista, “vinte e duas canções cuja sonoridade ia da música medieval ao carnaval de rua, de orquestras completas a instrumentos de brinquedo, da eletrônica ao violão milongueiro. As letras misturavam regionalismo, poesia provençal, surrealismo e piadas”.

Se pensarmos nos argumentos apresentados por Vitor no seu ensaio “A Estética do Frio”, A Paixão de V Segundo Ele Próprio faz parte da etapa do seu processo criativo na qual a experimentação tornou-se premente na tentativa do compositor romper com o ecletismo de certos desdobramentos do tropicalismo e encontrar, como faria mais tarde com a milonga, uma “unidade na diversidade”, uma maneira de apresentar sua visão de mundo a partir de uma proposta musical e poética definida  e rigorosa. Neste período, como afirmou o próprio Ramil no referido ensaio “desci a lupa sobre os extremos: o grotesco e o sutil, o rítmico e o imóvel, o literário e o coloquial, etc. Forcei os limites. Estive na ausência da melodia, no minimalismo harmônico. Saí de letras gigantes, cheguei em letras de duas linhas. Compus músicas de dez minutos e músicas de alguns segundos. Partido em dois, em mim mesmo exercitei os extremos”.

E neste “exercício de extremos”, A Paixão de V… apresenta pequenos temas, como Auto-retrato e As Moças e músicas bem elaboradas como Satolep, Clarisser e as minhas preferidas do álbum Ibicuí da Armada, Milonga de Manuel Flores (poema de Jorge Luis Borges que ganhará outra versão no álbum a ser lançado por Vitor esse ano) e a clássica Semeadura (parceria de Ramil com José Fogaça). Portanto, o segundo álbum de Vitor antecipou algumas das texturas musicais e estilos, como a milonga, que o artista iria aprofundar em trabalhos posteriores.

No vídeo abaixo, como não consegui encontrar nenhuma canção do álbum no YouTube (só pode ser incompetência minha!) repito aqui, pela terceira vez, a interpretação, que não me canso de rever, da Milonga de Manuel Flores no filme argentino Invasión (1969), de Hugo Santiago.

No próximo post da série escreverei sobre os álbuns Líricas (2000) de Zeca Baleiro e Tango (1987) de Vitor Ramil.

Saudações musicais!

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