Há poucos meses atrás fiz alguns comentários sobre a trajetória da cantora  Adriana Maciel, descrevendo sucintamente as características dos quatro álbuns lançados por ela até agora: Adriana Maciel (1997), Sozinha Minha (2000), Poeira Leve (2004) e Dez Canções (2008).

E agora, reforçando o convite para vocês leitores conhecerem um pouco mais do trabalho dessa ótima intérprete, publico uma entrevista com Adriana, que gentilmente colaborou com o Música Esparsa. Aproveitem!

Saudações musicais!

1)  Desde o seu primeiro álbum Adriana Maciel em 1997 até o lançamento de Dez Canções (2008), quais seriam as principais mudanças e permanências na sua trajetória artística?

Adriana Maciel: Cada cd, cada trabalho é uma tentativa de responder a questões que me interessam em cada momento. Do primeiro ao quarto trabalho muita coisa mudou, em Adriana Maciel, a gravação é ainda muito crua, eu gravei logo que comecei a cantar, e isso se deu no teatro, de maneira mesmo teatral, eu usava a voz de forma muito diferente, e senti muita dificuldade de me adaptar ao estúdio, foi um trabalho mais intuitivo e ingênuo. Sem dar a isso nenhuma intenção de valor, foi tanto bom, quanto ruim. O segundo trabalho foi o oposto, eu, Sacha Amback, que produziu, e Walter Costa, que gravou e mixou o cd, trabalhamos muito tempo para usar  o estúdio da melhor maneira. É um trabalho muito rico timbricamente. É cheio de detalhes. Esta foi a viagem, esta era a questão. Poeira Leve foi uma idéia de Ramiro Musotto, que produziu o cd. Regravamos sambas de maneira delicada. Foi um processo também longo de pesquisa, e foi difícil fecharmos em onze músicas. O critério de seleção foi absolutamente subjetivo. Mas buscávamos, de alguma forma, uma sonoridade “menor”, uma estética de pouco. Eu andava cansada de estímulos e buscava uma sonoridade “menor”. Esta idéia, esta questão, se manteve em Dez Canções, mas agora com um repertório praticamente inédito, de compositores com os quais me reconheço.

2)  O repertório de seus 4 álbuns é bastante qualificado e diversificado. Como funciona o processo de pesquisa e de escolha do repertório de seus discos?

AM: A busca de repertório é o trabalho mais demorado, e de certa forma, o mais difícil pra mim. É muito difícil não compor, e ao mesmo tempo conseguir dar identidade a uma canção que não é sua. Torná-la, de alguma forma, sua, é um desafio estimulante.

Para cada cd a pesquisa foi diferente, mas o que há de constante, é que preciso me reconhecer ali, e preciso conseguir cantar de uma forma que ache que traga algum interesse, não me preocupo com originalidade, mas com uma presença distinta. Sou bastante honesta nas minhas escolhas e muito crítica.

3) No “Making of” do álbum Poeira Leve (2004), o músico Moska afirma que foste tu que chamaste a atenção dele para músicos como Zeca Baleiro e Vitor Ramil, sendo que letras destes compositores são freqüentes nos teus discos. De que maneira tu entraste em contato com o trabalho destes artistas?

AM: Eu os conheci através da música, sempre fui muito curiosa e gosto de ouvir bastante coisa. O Celso Fonseca , que produziu meu primeiro trabalho, me mostrou uma música do Zeca e eu adorei, ele não era conhecido, gravamos. Depois eu o conheci, acho o Zeca um artista muito importante, se move por vários lugares, está sempre fazendo coisas, de maneira muito fiel às suas escolhas estéticas. O Vitor também conheci através de Marcos Palmeira, que tinha feito um filme no sul. Eu pesquisava músicas e peguei emprestado do Marquinho um cd do Vitor, e me encantei pelo trabalho. Gravei no primeiro cd, e acabamos nos conhecendo.

4) Falando ainda de compositores do Rio Grande do Sul (como Vitor Ramil), o que mais conheces da música daqui? O que mais lhe agrada?

AM: O que mais me agrada é a capacidade que o Rio Grande tem de produzir cultura e se alimentar de sua própria cultura, isto é muito interessante. Eu sou de Brasília, cidade sem tradição, meu pai é gaúcho, minha mãe, carioca, convivi sempre com pessoas de outros lugares, é fascinante ver como vocês lidam e produzem  através de suas tradições, mesmo quando contra elas.

5) Quais foram as principais parcerias que estabeleceste durante os teus anos de carreira e quais aquelas que mais marcam tuas músicas hoje?

AM: Foram muitas parcerias, e acho que sou uma pessoa bastante fiel às minhas escolhas, não mudo muito. Sacha Amback, Celso Fonseca, Bernardo Bosisio, Vitor Ramil, Marco Suzano, Dunga, Billy Brandão, Mônica Tomasi, Cris Braun, Milton Guedes,  Walter Costa, Chico Neves, Cecília Spyer, Christiaan Oyens, Carlos Bernardo, são artistas com os quais estou sempre trocando.

6) Nos teus álbuns, duas músicas são de tua co-autoria, Silêncio (Adriana Maciel, 1997, com Vanessa Barum) e O mundo ao redor (Dez Canções, 2008, com Billy Brandão). Pensas em investir mais na autoria de canções para os próximos trabalhos?

AM: Tenho vontade, vamos ver se ela é suficiente.

7) Sobre a geração recente de intérpretes femininas na MPB, na tua opinião a quantidade de novas cantoras e novos álbuns em geral significa também um avanço na qualidade e na pesquisa da música popular brasileira?

AM: Não, não acho que o número esteja ligado à qualidade, infelizmente. Acho que há pouca diversidade. Apesar da internet ser uma nova máquina de divulgação, aqui no Brasil ainda engatinhamos em relação à diversidade. Porque isto está ligado à educação, é um problema complexo. Para que haja diversidade, é preciso tempo, interesse, se não ficamos todos, homens e mulheres, preguiçosamente repetindo padrões, o que em arte, e prefiro ver a música assim, é muito ruim.

8 ) Do que eu conheço, a quantidade de intérpretes masculinos da MPB parece ser menor atualmente ou menos divulgada. Concordas com isso ou o que tu conheces contraria essa minha impressão?

AM: Não, acho que o número de mulheres intérpretes é mesmo superior ao número de homens, mas este é um pensamento que não me interessa. É uma divisão que não faz muito sentido pra mim, temos bons intérpretes, temos incríveis intérpretes, alguns são homens e alguns mulheres. Não gosto da idéia de que o Brasil é um país de cantoras, isto não me diz nada, a não ser, que há sempre um pensamento que pretende dividir homens e mulheres, e para as mulheres, isto me parece sempre redutor.

9) A internet hoje tem um papel importante na divulgação do teu trabalho?

AM: Confesso que tenho trabalhado menos do que deveria na internet, mas acho que é um excelente meio de divulgação, descubro muita coisa através dela, é mesmo incrível. Mas ao mesmo tempo, é uma quantidade muito grande de coisas, é preciso saber se fazer ver.

10)  Escreva sobre tuas principais atividades na música hoje e deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

AM: Comecei a pesquisar para o novo trabalho, levantando novas questões, e estou me organizando para gravar o DVD do Poeira Leve.

É um prazer pra mim estar aqui no Música Esparsa, mais uma maneira de se visitar, com calma, muitos lugares ao mesmo tempo.

Muito obrigada a todos,

Um beijo,

Adriana

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