Uma das principais preocupações deste blog, como já afirmei em outros momentos, é chamar a atenção (dentro dos limites desse espaço virtual) para alguns artistas que nem sempre são valorizados devidamente no mundo da música. Inicialmente, essa preocupação ganhou um caráter “geográfico”, já que passei a comentar sobre parte da cena musical de Porto Alegre cujas atividades não conseguia encontrar satisfatoriamente em outros meios de comunicação.

Com o passar do tempo e com a diversificação dos temas tratados aqui no Música Esparsa fui percebendo o quanto o caso da pouca visibilidade da cena musical de Porto Alegre é semelhante ao de outros lugares no Brasil. Para chegar a essa conclusão não precisamos de muito esforço, basta tentarmos enumerar os artistas que são amplamente divulgados nos tradicionais meios de comunição e que desenvolvem sua criação artística fora do eixo Rio-São Paulo. O resultado: poucos, muito poucos.

No entanto, além deste problema “geográfico” que, mais do que isso, envolve aspectos culturais, econômicos e políticos bem definidos, fui percebendo também a proeminência de um tipo de fruição em relação à música muito personalista, que costuma enxergar a arte apenas no intérprete, característica reforçada amplamente pela “indústria do entretenimento”. Deste modo, na maioria das vezes, instrumentistas, compositores, arranjadores e produtores são negligenciados pelo público que prestigia a música nos seus diferentes estilos, produzindo uma “invisibilidade” injusta em relação aos profissionais que são, em muitos casos, o principal vetor de criatividade da criação musical.

Pensando em tudo isso, convidei o compositor, arranjador, produtor musical e violeiro pernambucano Caçapa para uma entrevista na qual o músico fala de sua carreira, de seu processo criativo (como a técnica do contraponto) e também aborda algumas das questões que problematizamos nos parágrafos anteriores. Assim, para quem não conhece a cena musical pernambucana (e a diversidade real da música brasileira) e nem se importa muito com os arranjadores das canções que escuta, diria que a leitura desta entrevista é obrigatória, já que ela pode ser uma bela abertura de horizontes para qualificar nossa audição musical.

Há quase um mês atrás comentei um pouco sobre o trabalho de Caçapa no post Os Cordões de Pernambuco, no qual escrevi um pouco sobre os arranjos criados por ele para as canções dos álbuns Segura o Cordão (2004) de Tiné e Brinquedo de Tambor (2006) e Dois Cordões (2009) de Alessandra Leão.

Por tudo isso, confiram abaixo as ótimas respostas de Caçapa, que deve lançar seu álbum solo este ano, e apreciem mais do trabalho do músico pernambucano no MySpace, no SoundCloud e no Overmundo.

Saudações musicais!

Foto: Nara Cavalcanti

1) Escreva um pouco sobre a sua trajetória na música (como começou, quais discos produziu e com quais artistas já trabalhou e/ou trabalha).

Em 1989 comecei a estudar órgão e teoria musical e só parei para prestar vestibular para arquitetura em 1993. Foi nessa época que assisti aos primeiros shows de Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre e Mestre Ambrósio nas ruas do Recife. Um pouco depois tive a oportunidade de ir ao bairro de Cidade Tabajara, em Olinda, pra assistir às apresentações da família de Mestre Salustiano e pude conhecer mais de perto o Maracatu de Baque Solto Piaba de Ouro. O impacto de ver e ouvir tão de perto a música tradicional, e de presenciar o início do manguebit foi enorme! Junto com meus amigos da UFPE, fundei um boi de carnaval e me iniciei na percussão do maracatu de baque solto. Já estava muito descontente no curso de arquitetura e decidi que iria voltar a estudar e viver de música. Estudei um pouco de violão clássico durante 6 meses e em seguida transferi minha matrícula para o curso de Licenciatura em Música.

Nas visitas à Cidade Tabajara conheci Maciel Salu (filho de Salustiano) que me convidou para formar uma banda. Pouco tempo depois fomos chamados para integrar o Chão e Chinelo, que na época era um trio de forró pé-de-serra. Com a nossa entrada, e em seguida com a chegada do músico Nilton Júnior (compositor com forte influência da música indígena do Nordeste), a banda passou a utilizar a rabeca, a viola de 10 cordas (que eu tinha acabado de adquirir e estava aprendendo a tocar), a guitarra elétrica, e a se dedicar a outros gêneros: coco de roda, toré, maracatu de baque solto, ciranda, toada de cavalo marinho. Em 1999 gravamos um dos únicos discos realmente independentes do Recife naquela década (“Loa do Boi Meia Noite”). No disco participei como zabumbeiro, tive minha primeira composição gravada (“Chã de Camará”, na qual também toquei viola e cantei), e ainda me iniciei como arranjador e produtor musical (sempre em colaboração com a banda).

Em 2001 o Chão e Chinelo se desfez e fui convidado pela cantora paulista Renata Rosa (que já havia colaborado com a banda) para tocar viola e assumir a direção musical e os arranjos de seu show e de seu primeiro disco, “Zunido da Mata”, lançado em 2002 no Brasil, e em 2004 na França. [no vídeo abaixo a música Sereia] Em 2003, o cantor e compositor Tiné (que integra atualmente a Orquestra Contemporânea de Olinda) me propôs a criação dos arranjos para seu primeiro disco. Criados os arranjos, aprovamos um projeto na Lei de Inventivo à Cultura do Estado para custear a gravação e eu assumi a produção musical do disco, que foi lançado em 2004 com o nome de “Segura o Cordão”. Neste disco também toquei viola e registrei mais uma composição minha (“Vento Corredor”, em parceria com Tiné).

Desde 2006 dedico boa parte de meu tempo ao trabalho de minha esposa Alessandra Leão, cantora, compositora e percussionista que já havia sido integrante da Comadre Fulozinha. Em seus dois discos solo (“Brinquedo de Tambor” e “Dois Cordões”) participei como arranjador, produtor musical, violeiro e guitarrista, além de assinar algumas composições em parceria com ela [confiram a canção Varanda no primeiro vídeo do post abaixo].

Tenho trabalhado com bastante frequência em arranjos de sopros para shows e gravações de Siba e a Fuloresta. Entre as gravações estão o single “Canoa Furada” [confira no segundo vídeo do post] e as participações no CD “Macunaíma Ópera Tupi” de Iara Rennó, e na coletânea “Frevo do Mundo”. Contribui com arranjos pro show que reuniu Siba e Fuloresta com a Nação Zumbi no Carnaval do Recife, e também pro evento “Era Iluminada: Manguebeat”, dirigido por Siba e realizado no SESC Pompéia (SP).

Tive o prazer de produzir no ano passado, juntamente com Missionário José e Alessandra Leão, o primeiro disco de Biu Roque, excelente cantor e percussionista de coco, ciranda, maracatu e cavalo marinho, nascido e criado na Zona da Mata Norte de Pernambuco, e que acompanha Siba como integrante da Fuloresta. Neste disco, que será lançado ainda no primeiro semestre de 2010, também criei arranjos de sopros e cordas em boa parte das faixas.

Aconteceram outras colaborações muito prazerosas com a cantora argentina Florencia Bernales (para quem criei e gravei um arranjo que fará parte de seu primeiro disco solo) e com o grupo instrumental SaGrama, que gravou uma composição minha no disco “Chão Batido, Palco, Picadeiro” em 2008.

Desde janeiro, estou trabalhando na produção musical do primeiro disco da banda cearense Fulô da Aurora, que tem forte influência dos reisados e bandas cabaçais da região do Cariri, e do forró pé-de-serra.

No final de 2008 fui contemplado pelo Programa de Bolsas de Estimulo à Criação Artística – Categoria Composição (Música Popular) e pude me dedicar, durante alguns meses de 2009, à composição de música instrumental para viola de arame. E acabo de receber a notícia de que tive o projeto da gravação de meu primeiro disco aprovado pelo Programa Petrobrás Cultural. Será um CD duplo (um CD de áudio e um CD-Rom contendo todas as partituras em animações didático-musicais) com parte do repertório composto pra Funarte, e deverá ser lançado no final deste ano.

2) A técnica do contraponto utilizada na composição de diversos arranjos seus foi idealizada aproximadamente desde quando? Ela possui uma relação com as temáticas e propostas dos álbuns que produziu?

Por volta de 2000, adquiri 2 discos que me impressionaram muito: uma gravação excelente dos “6 Concertos de Brandenburgo”, de J. S. Bach, e o antológico “Estudando o Samba” de Tom Zé (lançado em 1975). As composições de Bach representam o ápice da aplicação das técnicas de contraponto na música tonal européia, e o disco de Tom Zé (junto com seu antecessor “Todos os Olhos”, de 1973) praticamente inaugura a possibilidade de utilizar o conceito do contraponto (renovado, e com uma linguagem mais áspera e moderna) como um dos pilares da composição e arranjo da música brasileira mais tradicional.

Nesta época eu estava cursando Licenciatura em Música na UFPE e por conta própria resolvi dedicar boa parte de meu tempo à leitura dos tratados sobre contraponto que encontrava nas bibliotecas. Ao mesmo tempo, passei a ouvir cada vez mais a música indígena e a música de rua do Nordeste, além da música tradicional e popular da África Central e Ocidental.

Comecei então a perceber que esta música tradicional, nordestina, indígena ou africana, em boa parte dos casos, recorre muita mais intensamente às texturas polifônicas (algumas vezes em suas formas mais simples e primitivas) do que à lógica da música homofônica (em que uma melodia principal é acompanhada por acordes). E passei a me interessar cada vez mais por essa questão, tentando trazer esta percepção ao trabalho de composição e arranjo que desenvolvo. A estranheza que algumas pessoas talvez sintam quando ouvem minhas colaborações, provavelmente se deve à influência esmagadora da música incrível de João Gilberto (marcada pela homofonia) sobre os arranjadores brasileiros, desde os anos 60, e que levou a uma considerável padronização das texturas, muitas vezes deixando em segundo plano as possibilidades que a técnica do contraponto abre para a criação.

A preparação do primeiro disco da cantora Renata Rosa (“Zunido da Mata”), entre 2001 e 2002, foi o momento em que comecei a utilizar, de maneira consciente, a técnica do contraponto na criação de arranjos. Já no disco de Tiné (“Segura o Cordão”), em virtude da total liberdade para criar os arranjos, naturalmente me dirigi para uma utilização mais intensa das texturas polifônicas, praticamente abrindo mão de qualquer tipo de acompanhamento por acordes. E nos trabalhos mais recentes com Alessandra Leão, outras possibilidades se abriram por conta da utilização de timbres e padrões rítmicos e melódicos diferentes dos trabalhos anteriores.

Embora tudo isso pareça um tanto racional demais, na verdade a intuição e o gosto pessoal é que me fazem trabalhar dessa maneira… Me identifico muito com a linguagem da música polifônica, seja ela européia, africana, indígena, barroca ou moderna, e não haveria sentido em negar isso, seja por comodidade ou por conformismo com as práticas musicais que dominam o mercado atualmente.

3) No texto De Arcoverde ao Recife, Yokohama e Buenos Aires, de 2006, tu manifestas a intenção de divulgar mais amplamente o álbum Segura o Cordão (2004) de Tiné. Desde aquele ano, o que mudou na recepção do tipo de música criado por ti e por teus parceiros da cena pernambucana?

Acredito que o interesse do público pela música que se produz em Pernambuco tem crescido e se consolidado, e a maior ferramenta de disseminação e divulgação desta música é a internet, principalmente através dos blogs, podcasts, e redes sociais. Também tenho a impressão de que hoje existem muito mais ouvintes atentos, e relativamente bem informados sobre a música de Pernambuco, em outros estados e em outros países como, por exemplo, o Japão e os Estados Unidos (nos quais foram lançadas coletâneas dedicadas exclusivamente a esta produção), e a França, a partir do lançamento de vários discos gravados por artistas daqui.

Apesar desses avanços, penso que ainda existem três grandes entraves para a consolidação do mercado musical de Pernambuco. O primeiro, e mais óbvio, é o pequeno espaço que as emissoras de rádio e televisão dedicam à numerosa produção musical do Estado. Outro ponto, menos discutido, mas tão importante quanto, é a pequena oferta, e em alguns casos a inexistência, de cursos técnicos e superiores dedicados à música popular, e à capacitação e formação de técnicos (iluminadores, roadies, engenheiros de som) e produtores culturais. Além disso, considero fundamental e urgente a criação e aplicação de políticas públicas que estimulem e apóiem o surgimento de empresas e cooperativas do setor cultural.

4) Quais são as principais dificuldades para o trabalho de um arranjador vinculado à música independente hoje no Brasil?

Em primeiro lugar, existe a dificuldade do próprio público (e às vezes até por parte de críticos, jornalistas, e dos próprios profissionais do ramo) em compreender a função do arranjador e a importância de um arranjo bem resolvido. Poucos ouvintes têm conhecimento do trabalhado desenvolvido nos bastidores por músicos de alto nível, como Pixinguinha, Radamés Gnattali, Moacir Santos e Rogério Duprat, e da importância de seus arranjos para o resultado final de algumas das gravações mais belas e populares da música brasileira. Para um arranjador vinculado à chamada música independente, a situação não seria diferente…

Se as pessoas não percebem a importância desta função, obviamente não reconhecem a necessidade de remunerar bem esse profissional. Algumas vezes presenciei bons músicos criarem arranjos definitivos para os artistas aos quais acompanhavam, e não receberem nenhum pagamento por isso, e às vezes nem sequer os créditos pela criação. Também existe o mau costume de não se recolher devidamente os direitos patrimoniais por execução pública (em shows, rádio, TV…) aos quais os arranjadores tem direito, como previsto na Lei de Direito Autoral brasileira.

E ainda existe o problema da formação do arranjador, que deveria ser tão ampla e profunda quanto a de um compositor de música erudita, pois além do cultivo da imaginação e da intuição, o domínio da  técnica é fundamental. Embora nos últimos 10 ou 15 anos tenham surgido no Brasil alguns livros e cursos dedicados ao assunto, ainda há muito por se fazer nesta área, para disseminar a informação e o conhecimento. E no caso daquele que se dedique à música brasileira (e mais especificamente à nordestina) ainda existe outra questão (que, na verdade, nem considero como um problema): boa parte do que um arranjador pode aprender de valor, ele não encontrará em nenhum livro, escola ou academia, mas nas ruas, no convívio com os músicos mais experientes, e com a música tradicional, o que exige muitos anos de dedicação e investimento pessoal.

5) No teu MySpace, tu citas diversas influências e/ou inspirações para a tua criação artística (entre artistas, discos e livros). Se possível comente algumas delas.

Desde criança, eu gostava muito de ouvir os discos de vinil de meus pais, principalmente a coleção História da Música Popular Brasileira (através da qual conheci muitas preciosidades da tropicália, do samba e da bossa nova). Tão marcante quanto isto foi vivenciar anualmente as festas de São João e Carnaval, muito fortes no Nordeste, ouvindo o repertório de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Capiba, Levino Ferreira, Nelson Ferreira e assistindo as orquestras de frevo desfilando nas ruas. Na adolescência ouvi muito o rock inglês e norte-americano (Beatles, Led Zeppelin e Velvet Underground são meus preferidos) e também comecei a me interessar mais pela música erudita européia, principalmente a de J.S. Bach e Stravinsky. Nessa época, ouvir e colecionar discos já era um verdadeiro vício…

Dentre tudo isso a que tive acesso, posso destacar algumas referências mais fortes. Como já afirmei antes, a música instrumental de Bach e os discos de Tom Zé foram, e ainda são, muito importantes para minha formação como compositor e arranjador, pelo mundo de possibilidades que me apresentaram, especialmente no emprego do contraponto. E a música dos Beatles foi uma das coisas que mais ouvi em toda minha vida. Admiro enormemente seus discos lançados, entre 65 e 69, pelo incrível trabalho de produção musical, pela beleza atemporal e criatividade das composições e arranjos (que também recorriam ocasionalmente ao contraponto, por obra de George Martin).

Para quem conhece meu trabalho, a música tradicional do Nordeste talvez seja a maior, e mais óbvia, referência. Dentro deste universo musical, dois dos gêneros que mais me atraem são a cantoria de viola (ou repente) e o coco de roda.

A primeira audição, já faz uns 15 anos, do antológico disco de José Vicente da Paraíba e Passarinho do Norte (“Repentes e Repentistas”, de 1972) foi uma experiência incrível. O timbre das suas vozes e violas, e o jeito, ao mesmo tempo áspero e sutil, de cantar e tocar, é único. Até hoje é o meu disco de repente preferido.

Outro disco que me impressionou muito foi a gravação do violeiro e cordelista Azulão lançada pela Funarte em 1975. São apenas duas faixas, cada uma com cerca de 15 minutos, onde ele canta de maneira magistral, acompanhando apenas de sua viola, o texto integral de dois cordéis, o clássico “O Marco Brasileiro” (de Leando Gomes de Barros) e “O Homem do Arroz e o Poder de Jesus” de sua autoria. Uma aula!

Há poucos anos, tive uma agradável surpresa ao ouvir as gravações de um violeiro paraibano chamado José da Luz. É música instrumental pra viola, altamente original e criativa, e foi gravada pela Missão de Pesquisas Folclóricas (idealizada por Mário de Andrade) em pleno agreste nordestino, no ano de 1938! Não conheço nada parecido…

José da Luz, violeiro, 1938 (Foto: Luiz Saia)

Entre os coquistas, aprecio e me identifico muito com o estilo de Zé de Teté, da cidade de Limoeiro. É um excelente e muito produtivo compositor de cocos que me encanta pela originalidade de suas melodias e pela força da sua voz.

As viagens pela Zona da Mata Norte de Pernambuco, ainda nos anos 90, também foram muito importantes para mim. Numa dessas viagens assisti boquiaberto a um ensaio do Maracatu de Baque Solto Estrela de Ouro de Aliança, no terreiro de Chã de Camará, com o mestre Zé Duda improvisando, emocionado, sobre a morte de um caboclo, assassinado naquela noite quando se dirigia ao ensaio.

As apresentações do excelente banco (conjunto musical) do Cavalo Marinho de Mestre Batista, que assisti nesta mesma época, também foram muito marcantes. Ouvir e ver em ação o rabequeiro Luiz Paixão junto com Mané Deodato, Biu Roque, Mané Roque e Sidrak (vozes e percussão) foi uma das coisas que me fez decidir ser músico.

Impacto igual foi assistir, durante a década de 90, as primeiras apresentações do Mestre Ambrósio! E os discos de Siba e a Fuloresta na década seguinte são os meus preferidos entre todos os lançados em Pernambuco desde então. É como se grande parte das informações musicais a que me refiro estivessem presentes ali, numa síntese equilibrada e instigante.

Atualmente, graças ao acesso à internet, tenho procurado conhecer melhor a música de outros países, especialmente a do Congo, do Mali, de Gana, da Nigéria, da Tanzânia, da Etiópia, do México, do Peru, da Colômbia e da Venezuela. E não tenho me arrependido! Satisfação garantida!

6) Que artistas tu indicarias para um hipotético leitor desse blog escutar, caso ele se interessasse em aprofundar seu conhecimento sobre a música pernambucana?

Considero uma boa ideia começar pela audição das gravações realizadas em Pernambuco, em 1938, durante a Missão de Pesquisas Folclóricas (disponibilizadas na caixa lançada em 2007 pelo SESC/SP); dos 4 volumes da coleção “Música Popular do Nordeste” (lançada pela Discos Marcus Pereira em 1972); do disco “A Arte da Cantoria: Regras da Cantoria” (1979), com os repentistas Otacílio Batista e Oliveira de Panelas; da obra do compositor de frevos de rua Levino Ferreira (gravada pela Orquestra de José Menezes); dos frevos de Capiba e Nelson Ferreira (principalmente nas interpretações de Claudionor Germano); da obra de Luiz Gonzaga (entre os anos 40 e 60); das gravações dos anos 70 da Banda de Pífanos de Caruaru e da Ciranda de Baracho; dos primeiros discos de Jacinto Silva; e dos frevos gravados pelo paraibano Jackson do Pandeiro, nos anos 50 e 60.

Nos últimos 15 anos, foram lançados muitos discos dedicados à música tradicional, entre os quais recomendo o excelente CD duplo “Responde a Roda Outra Vez: Música Tradicional de Pernambuco e da Paraíba no Trajeto da Missão de 1938”; a coleção “Poetas da Mata Norte” (6 discos produzidos por Siba, com ciranda, coco de roda e maracatu de baque solto); e os discos de Edmílson do Pífano, Luiz Paixão, Coco de Tebei, Samba de Coco Raízes de Arcoverde, Samba de Véio da Ilha do Massangano, Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu, Mazuca de Agrestina, Bongar (Coco da Xambá), e do Maracatu Rural Cruzeiro do Forte.

Entre os músicos e bandas que surgiram a partir dos anos 90, me identifico muito com o Mestre Ambrósio, Siba e Fuloresta, Comadre Fulozinha, Maciel Salu e o Terno do Terreiro, Isaar, Orquestra Contemporânea de Olinda, Nação Zumbi, Mundo Livre, Azabumba, Areia Projeto, Pandeiro do Mestre, Cláudio Rabeca. Entre o pessoal daqui que atualmente mora em São Paulo e no Rio de Janeiro, aprecio Karina Buhr, Junio Barreto, Jam da Silva, Armando Lôbo. E uma das inciativas recentes que conheço e admiro é a criação do selo Joinha Records, que produziu o primeiro disco de Jr. Black, e vai lançar o próximo de China.

7) Conheces alguma coisa da música feita aqui no Rio Grande do Sul? Se sim, comente um pouco sobre o assunto.

Conheço alguns discos de Arthur de Faria [no vídeo acima com Alessandra Leão no Santander Cultural], uma grande figura que tenho o prazer de conhecer pessoalmente e de já ter recebido em nossa casa. Também conheci a cantora Vanessa Longoni, quando ela e o próprio Arthur fizeram uma participação especial no show de Alessandra Leão em Porto Alegre, no Santander Cultural, em 2008.

Infelizmente, mesmo em tempos de internet, ainda considero um pouco tímida a troca de informações e experiências entre o mercados musicais do sul e do nordeste do país… É uma barreira cultural que aos poucos vai sendo vencida: Arthur de Faria já se apresentou no Recife, participou do segundo disco de Siba e a Fuloresta, e o disco de Vanessa Longoni contém uma participação especial de Biu Roque na bela faixa “Espinho na Roseira”. Também ouvi, em 2001, uma pequena amostra do trabalho de alguns compositores gaúchos muito interessantes através da coletânea do Programa Rumos Música do Itaú Cultural, ao qual tive acesso pelo fato do Chão e Chinelo ter sido selecionado no mesmo ano. Gostaria de conhecer muito mais…

8 ) Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Algum jornalista já disse que escrever sobre música é tão absurdo quanto dançar sobre cinema… Concordo, em parte… Ao mesmo tempo, lembro de uma declaração de Caetano Veloso no documentário “Coração Vagabundo” em que ele afirma não gostar de obscurantismo, desse mito que muitos artistas cultivam sobre sua própria imagem e sobre seu processo criativo. Concordo plenamente! Prefiro a transparência e acredito que o conhecimento e a experiência profissional dos criadores devem ser passados adiante, para todos aqueles que se interessem. Compartilhar o prazer de ouvir música e de procurar compreender seus mecanismos e sutilezas será sempre uma alegria!

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