Sobre o show de Filipe Catto ontem (25/02) no Teatro Bruno Kiefer da Casa de Cultura Mário Quintana poderiam ser comentados vários aspectos: o teatro lotado, o virtuosismo do violonista Ricardo Fa, a interpretação marcante de Filipe e a sua voz afinada e potente, as releituras impactantes de Chico Buarque e Edith Piaf ou mesmo a força das canções inéditas do artista. No entanto, não é sobre tudo isso que quero escrever aqui.

Como foi a primeira vez que vi a performance ao vivo do cantor, pude confirmar mas também me surpreender com um aspecto das canções do EP Saga e da interpretação de Catto que só poderia ser melhor verificado em um show: a capacidade do artista em contar histórias envolventes, em narrar através de canções.

E essa habilidade narrativa não é comum nos dias de hoje, época em que a densidade das informações dificultam, muitas vezes, o intercâmbio de experiências, como já havia alertado Walter Benjamin. E o efeito dessa característica na fruição musical é impressionante. Ela provoca um deslocamento da atenção dedicada ao “refrão” , ao clímax das canções para a história que elas contam, influenciando para que o show seja aproveitado por inteiro.

Deste modo, a estrutura simples do espetáculo (violão e voz) é potencializada pela riqueza das canções e de suas histórias, que tematizam de forma pouco usual as relações amorosas e suas vicissitudes. E Filipe Catto consegue intepretar e valorizar essas histórias muito bem.

Mas além da interpretação do cantor, penso que existe algo mais que envolve o espectador ao escutar as canções de Saga e que é mérito do compositor Filipe. Trata-se das letras muito bem elaboradas que versam sobre a relação entre amor e ódio, entre paixão e vingança, que explicitam o inconfessável, como nos falou o cantor em entrevista. Ou seja, as histórias das canções remetem à alteridade radical com a qual convivemos nos relacionamentos amorosos e que, muitas vezes, nos provoca sofrimento. E isso me lembra um poema de Marcelo Sandmann, intitulado Vênus a Marte, em breve aparte: No amor/ (diferentemente da guerra)/nem tudo vale/meu amigo./No amor, deixas vivo/o inimigo.

Por fim, me parece, portanto, que uma das razões do show Saga: Violão & Vísceras ser tão impactante é a combinação entre interpretação forte e letras refinadas sobre um tema universal, que nos proporciona histórias emocionantes, envolventes e de uma beleza rara.

Agora, dia 12 de março Filipe vai a Buenos Aires, depois passa por São Paulo e no dia 6 de maio volta a fazer show em Porto Alegre no Teatro Renascença. Por isso, quem ainda não foi planeje-se para prestigiar e, quem ainda não conhece as músicas do cantor e compositor acessem seu MySpace e baixem o EP Saga no seu site.

Saudações musicais!

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