Foi em 2007, na apresentação do álbum Mosaico de Angelo Primon em Santa Maria, que conheci o trabalho do músico Matheus Kleber. Na ocasião, comprei também um álbum do Xquinas, grupo de música instrumental que Matheus integra ao lado de Marcelo Corsetti, Luke Faro e Carlos D’Elia.

Desde então, e isso se aprofundou quando vim morar em Porto Alegre, o nome de Matheus Kleber começou a se repetir com frequência nos créditos de álbuns e nos shows de artistas que admiro. Assim, nada mais adequado para a proposta do Música Esparsa do que publicar uma entrevista com esse excelente acordeonista da nova geração de instrumentistas gaúchos, que cada vez mais confirma sua qualidade e criatividade musical.

Confiram abaixo a entrevista na qual Matheus fala sobre sua carreira, sobre os instrumentos que toca e sobre seus planos para 2010 e acessem o MySpace do artista. Além disso, não deixem de conferir no final de março a apresentação de Matheus ao lado do exímio bandolinista Pedro Franco no Teatro do CIEE.

Saudações musicais!

1) Quais são os principais projetos musicais que tu desenvolves atualmente? E quais são suas perspectivas para 2010?

Atualmente estou concluindo o cd IDA, que será lançado dia 30 de março. Trata-se de um trabalho com músicas próprias em duo com Pedro Franco (bandolinista e violonista também da nova geração da música instrumental gaúcha). Este ano também acontecerá o lançamento oficial do DVD do Xquinas, uma banda de música instrumental da qual eu faço parte juntamente com Marcelo Corsetti, Luke Faro e Carlos D’Elia. Paralelamente, trabalho com o violonista Angelo Primon, com quem já me apresentei em diversas formações, mas nesse último ano focalizamos em um trabalho de duo.

Além dos trabalhos relacionados à música instrumental, acompanho diversos cantores. Em 2009 tive o privilégio de acompanhar nomes como: Andréa Cavalheiro, Richard Serraria, Gelson Oliveira, Vanessa Longoni, Ana Krüger, Elisa Machado, Caio Martinez, Juliano Barreto, Adriana Defentti, Rafael Caetano, Neto e Ernesto Fagundes, entre outros. E para fechar o ano com chave de outro tive a satisfação de tocar com o violonista Marcelo Caminha com quem fiz uma série de 15 shows pelo interior do estado agora em dezembro. Este trabalho terá continuidade em 2010 com o show Influência. Enfim, tem um uma porção de outros projetos bacanas que se realizarão em 2010, com certeza é um ano promissor.

2) Quais são os instrumentos que tu tocas? Desde que idade tu iniciaste no mundo da música?

Eu toco acordeon e piano. Comecei muito cedo, aos 7 anos, tendo aulas de acordeon com meu dindo Luciano Rhoden e depois com Adriano Persch, com ambos na FUNDARTE em Montenegro. Portanto, já são 17 anos de acordeon, isso explica as dores na região lombar (risos). Mais tarde, passei a me interessar por outros gêneros musicais além da música regional, o que acabou desencadeando o interesse pelo piano.

3) Como tu percebes a inclusão do acordeón em diversos estilos musicais, inclusive em uma banda de jazz instrumental, como o Xquinas?

Eu acredito que na música não pode haver nenhum tipo de limite, senão ela vira algo previsível e sem graça.  É o mesmo que assistir um filme que em nenhum momento te surpreende, acaba virando um saco (risos). O acordeon, assim como qualquer outro instrumento, pode tocar qualquer gênero musical desde o erudito (recomendo escutar o trabalho do Quinteto Persch) até o metal melódico, vide o cd da banda Scelerata, que gravei duas faixas, o que foi uma experiência muito interessante, e por que não tocar samba ou até mesmo Hip Hop, que é o que tem acontecido no show e no cd Vila Brasil de Richard Serraria. Acredito que esse tipo de flerte com instrumentos mais “exóticos” tem sido uma grande tendência na música atual. Essa semana mesmo estava pensando sobre isso ao ouvir o segundo cd da cantora Céu que utiliza acordeon, assim como tem acontecido em outros trabalhos como o DVD da Vanessa da Mata e do Arnaldo Antunes, ou em cds de cantores como Roberta Sá e Monica Salmaso. Enfim, é a nova geração da MPB utilizando o acordeon. Que bom, os acordeonistas agradecem (risos).

No caso do Xquinas, nós não nos preocupamos muito com rótulos, mas eu não diria que somos uma banda de jazz, claro elementos do jazz estão super presentes, assim como estão elementos do Rock e de música gaúcha. Inclusive, na minha percepção, a principal função do acordeon no grupo é dar uma roupagem mais regional para o trabalho.

4) Quais são as semelhanças e as diferenças de colaborar com artistas diversos, como, por exemplo, no show do álbum Mosaico do Angelo Primon, no Xquinas e na gravação do EP Saga do Filipe Catto?

Bom, são experiências totalmente diferentes. Para mim que estou começando carreira é um grande aprendizado tocar ao lado do Angelo, do Marcelo e de diversos músicos com quem trabalho. Eu sempre digo que a universidade foi muito válida para a minha formação como músico, mas onde eu aprendi e sigo aprendendo mesmo é na hora do “vamos ver”, no palco, tirando músicas, ensaiando e trocando experiências com outros músicos. O Filipe eu tive pouco contato com ele, somente durante a gravação dos pianos do EP, mas me impressionei bastante com a maturidade estética dele, ele sabia exatamente o que queria.  Ele é mais um exemplo de uma série de ótimos cantores e compositores de uma nova geração aqui de Porto Alegre, além dele temos o Rafael Caetano, a Bianca Obino, a Gisele de Santi, a Fernanda Krüger. Enfim, com certeza a música popular gaúcha estará bem representada pelos próximos anos.

5) Que instrumentistas são referências constantes na tua forma de fazer música?

São vários, de diversos estilos e instrumentos, procuro não me deter apenas em pianistas e acordeonistas. Atualmente tenho escutado bastante os prelúdios do Shostakovitch para piano, um guitarrista chamado Kurt Rosenwinkle, uma baixista chamada Esperanza Spalding e o cd Diz que foi por aí do gaitista Gabriel Grossi. Mas focalizando mais nos meus instrumentos, de acordeonistas escutei muito Dominguinhos, Sivuca, Chiquinho do Acordeon, Toninho Ferragutti, Luiz Carlos Borges, Albino Manique, Luciano Maia, Renato Borghetti, Raul Barbosa, Richard Galliano e Frank Marocco. Acredito que todos esses me influenciaram diretamente na minha formação musical. No piano gosto muito do Benjamin Taubkin, André Mehmari, Vitor Araújo, Brad Mehldau, E. S. T., Chick Corea, Oscar Peterson, entre outros.

6) No documentário “O Milagre de Santa Luzia” (que trata da história do acordeón no Brasil) são evidentes as diferenças na forma de se relacionar com o instrumento no nordeste, no centro-oeste, sudeste e sul do país. Como tu te relacionas com essas diferentes influências?

Nesse documentário fica evidente, que o acordeon está presente em todo o Brasil. Por ser um pais muito extenso, cada região acabou criando uma maneira peculiar de tocar o instrumento. Acredito ser o mesmo fenômeno que acontece com o idioma que falamos, é o mesmo no país inteiro mas cada região tem o seu sotaque. Como estudo, acho super válido tirar e transcrever a maneira como acordeonistas de outras regiões do país tocam. Mas quando eu toco um forró ou choro, não adianta, mesmo que seja de maneira involuntária acabam saindo alguns acentos que são muito peculiares aqui do sul. Há um tempo atrás isso de certa forma me incomodava, mas atualmente eu gosto de ter esse “sotaque”, e acredito que ele faz parte da minha identidade e ajudou a compor a minha forma de tocar o instrumento.

7) Quais são as principais dificuldades de profissionalização para um instrumentista da tua geração aqui em Porto Alegre?

Bom, eu muito cedo entrei no “mercado de trabalho”, estou morando aqui a apenas 4 anos, e desde que vim para cá tenho trabalhado bastante. Acho que não cabe mais aquela conversa de que em Porto Alegre não tem espaço onde tocar e não tem trabalho. É claro que se o músico não se mexer, não produzir, fica mais complicado, mas colocar a culpa na cidade não vai resolver. Temos diversos projetos bacanas acontecendo por aqui durante todo o ano, claro teria muito o que melhorar, mas aos poucos vamos chegando lá, o que não vai resolver é ficar em casa de braços cruzados esperando.

Há um tempo atrás acredito que era mais complicado, tanto que existia um mito que para um instrumentista ser bem sucedido ele deveria ir para o centro do pais. Atualmente, eu percebo que um instrumentista, cantor ou compositor pode tranquilamente estabelecer uma carreira sólida morando em Porto Alegre. Por isso, devemos respeitar nomes como Renato Borghetti, Geraldo Flach, Telmo Jaconi e Plauto Cruz, pois eles com certeza abriram diversos caminhos para a nossa geração e enfrentaram diversas barreiras pelas quais hoje não precisamos passar.

8 ) Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Vou deixar um convite, para que compareçam no dia 30 de março no lançamento do cd IDA, às 21 horas no teatro do CIEE. E que sigam acompanhando o blog que é uma ótima iniciativa. Parabéns ao Icaro e vida longa ao Música Esparsa.

Um forte abraço a todos,

Matheus

Anúncios