Com certeza, o álbum Líricas (2000) de Zeca Baleiro é o trabalho do músico maranhense que mais gosto de escutar. E isso pode ser facilmente explicado, já que este foi o primeiro cd que escutei de Zeca, logo após minha irmã ter assistido o show deste álbum em Santa Maria (RS). Na verdade, mais do que isso, Líricas foi o primeiro álbum que escutei e gostei por inteiro, quando ainda não me preocupava em apreciar música de forma mais organizada e sistemática.

Mas não poderia ser diferente quando o repertório do disco começou com Minha Casa (com melodia cativante e letra criativa) e encerrou com a lindíssima Brigitte Bardot, com um epílogo abrilhantado pela mãe de Baleiro cantando Na virada da montanha (Ary Barroso e Lamartine Babo) ao telefone e pela citação de “a alma é o segredo do negócio”, frase-conceito que seria tema de uma canção posterior do compositor.

Diferente dos dois primeiros álbuns de Baleiro, a sonoridade de Líricas é um pouco mais homogênea, construindo uma atmosfera mais acústica e com letras em sua maioria falando do amor em seus diferentes aspectos. Babylon e Nalgum Lugar (poesia maravilhosa de E. E. Cummings traduzida por Augusto de Campos) poderiam muito bem ser temas de alguma serenata sofisticada. Já Você só pensa em grana e Balada para Giorgio Armani falam de um mundo nada agradável para uma alma poética, seja nas relações amorosas (como no primeiro caso) ou nas relações sociais em geral (como no segundo).

Para uma prova de Líricas, abaixo o clipe da música Quase nada (em parceria com Alice Ruiz):

No terceiro álbum de sua carreira, Vitor Ramil apostou em poucas canções longas, diferente das muitas pequenas que atravessaram o álbum anterior. Essa experimentação, como salientei no post anterior dessa série, fez parte de um processo criativo maior, ao qual Vitor se dedicou antes de conceber plenamente as principais linhas da “Estética do Frio”. Neste Tango (1987, com reedição em 1996)), o cantor e compositor pelotense apresentou clássicos definitivos de sua carreira, como Joquim (versão da música Joey, de Bob Dylan e Jacques Levy, com letra baseada na vida de Joaquim Fonseca) e Loucos de cara (em parceria com Kledir Ramil).

A capa do LP “Tango” com o bonito desenho de Carlos Scliar

No entanto, apesar da beleza incontestável dessas canções e de outras do álbum como Sapatos em Copacabana e Passageiro, a música Nada a ver foi a melhor surpresa do disco para mim. A fina ironia da letra e o arranjo que representa bem a tensão dos dilemas do narrador me pegaram de jeito. Mesmo assim, se não estou redondamente enganado, essa não é uma das canções mais celebradas de Ramil. E isso só prova a qualidade do artista, que consegue criar excelentes canções que podem ser redescobertas a cada audição.

Aliás, é justamente em Tango, com suas 8 canções, que Vitor se mostrou um compositor bastante maduro, com letras bem elaboradas e melodias mais complexas. Nesse momento, Vitor morava no Rio de Janeiro e seus parceiros musicais no álbum foram Carlos Bala (bateria), Nico Assumpção (baixo), Paulo Supekovia (guitarra), Leo Gandelman (Sax Alto), entre outros.

Abaixo, Joquim interpretada pelo “Barão de Satolep” durante o espetáculo Tangos e Tragédias:

Não esqueçam, meus próximos comentários singelos e pessoais sobre as discografias de Zeca Baleiro e Vitor Ramil continuarão com Pet Shop Mundo Cão (2002) e À beça (1996).

Saudações musicais!

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