Mesmo não morando em Porto Alegre há um bom tempo, os dois anos que morei lá sempre recordo com grande felicidade pelas experiências vividas. As minhas andanças pela cena musical da cidade, das quais este blog é uma das expressões, e as amizades que construí nesse trajeto já deixam saudades nestes anos de ausência, mesmo que continue visitando com frequência a capital gaúcha.

Toda essa nostalgia, inclusive, é sempre despertada quando leio um texto do blog do meu grande amigo Chico Cougo, o Memórias do Chico. No texto, Chico fala sobre uma das melhores tardes de parcerias que compartilhamos na capital gaúcha em maio de 2009. Além disso, a experiência envolveu a aquisição de um LP do grupo Saracura, do qual falei pouco aqui no blog, ainda mais pensando na importância que as músicas da banda têm na minha vida e para a história da música em Porto Alegre.

Assim, tomo a liberdade de reproduzir aqui o texto que Chico escreveu e proporciono a vocês momentos de uma leitura prazerosa. As palavras do texto, vistas de hoje, funcionam como uma bela “fotografia narrativa” daqueles ótimos tempos que vivi em Porto Alegre. Espero que gostem.

Saudações musicais!

PEQUENA AVENTURA PORTO-ALEGRENSE

por Chico Cougo (22/05/2009)

PORTO ALEGRE (Podia ser um pouquinho mais fácil…) – “Eu tenho esse. Tá com a capa meio estragada, mas eu te dou ele” – falou o senhor de meia-idade, pele morena, óculos pendurados no pescoço. Agachado, tentando desvendar o ano de um Teixeirinha Norte a Sul, me chamou atenção aquela frase vinda logo de um vendedor. O local: Mercado Público de Porto Alegre, Feira de Vinis. O momento: uma jovem tarde de segunda, tempo lusco-fusco típico do outono, friozinho ameno.

Vi o Icaro – que não é o que vôa – num passo miúdo, um tanto quanto afoito, quase que abduzido pela proposta do vendedor. Levantei-me. O “eu te dou ele” me fez, por um momento, duvidar que aquilo podia ser, de fato, verdade. Mas não! O vendedor de vinis estava falando sério mesmo! Se Icaro comprasse um dos discos à venda, ganharia “de brinde” o LP Saracura, gravado em 1982 pelo grupo musical homônimo.

Minutos depois, ele já havia feito sua escolha. Levaria um outro disco – o primeiro dos Engenheiros do Hawaii – especialmente para ganhar o Saracura. Quando vi a capa do “brinde”, pensei cá com meus botões: “mas o que o Icaro quer com um disco desses, com uma capa toda ‘desecha’?”. Porém, de imediato lembrei que ele estava “ganhando” o LP, o que – afinal – me parecia um bom negócio.

***

O toca-discos da Nicole é temperamental. Em dez meses, nunca consegui desvendar seus verdadeiros segredos, mas suponho que ele tenha sido adestrado, ensinado a reproduzir apenas os discos da dona. Digo isto porque em mais de uma ocasião tentei rodar meus vinis nele sem sucesso. Só depois de colocar um disco da Nicole no prato é que ele se digna a tocar – e aí toca o que for.

Foi o que aconteceu com o Saracura, o “brinde” do Icaro. Depois da compra, viemos aqui pra casa ouvir o disco. Inicialmente, o toca-discos com vida rodou o LP, mas não emitiu sons. Depois de alguns minutos negociando, ele aceitou o “intruso” e, passados aqueles milímetros sem vincos e silenciosos que todo vinil tem, um acordeom bem tocado começou a ritmar um autêntico xote gaúcho, que me surpreendeu de pronto.

***

O grupo musical Saracura alcançou grande repercussão na Porto Alegre dos anos 1970-80. Chegou ao fim em 1984, mas seus integrantes continuaram na estrada, alguns com boa fama, como o baterista Fernando Pezão e o show-man Nico Nicolaiewsky, o qual prefiro chamar de Nico, o Gênio. O LP Saracura foi gravado nos estúdios da ISAEC, aqui mesmo, na capital. A prensagem aconteceu em São Paulo, pela Fermata; uma segunda edição – assinada pela Continental – chegou às lojas em 1983.

Antes de comprar o vinil, Icaro já havia garimpado o grupo nos blogs da vida. Como sempre, ele chegou a me trazer as mp3 do disco para ouvir. Mas, sabem como é, sou meio preconceituoso com várias coisas – dentre elas a “música de Porto Alegre”. É feio, muito feio ter este tipo de preconceito e estou tentando reduzi-lo a curto-médio prazo (até porque descobri que é muito melhor ser pósconceituoso!).

Mas eu dizia que o Icaro já havia me aprensentado o Saracura e que não ouvi por pura bobagem minha. Daí a minha surpresa ao me deparar com as oito faixas do disco rodado no prato do toca-discos teimoso, naquela – a essas alturas – nebulosa tarde de segunda. Genial é o adjetivo mais próximo (embora não suficiente) para expressar o que achei sobre aquele disquinho de capa bobinha, que nem corresponde com o conteúdo da produção. Saracura não é um LP para ser apenas ouvido, mas sim degustado, cantado, dançado, vibrado. O lado A é “agitadinho”, com dois xotes puxados para o humorismo – mesclando instrumentos do rock, algo semelhante ao que Kleiton e Kledir faziam no início da carreira (Kledir Ramil, aliás,  compõe o Xote de Jaguarão, faixa 3) -, com um tango (Tango da mãe), que hoje compõe o repertório do espetáculo Tangos e Tragédias e com um bolero sensacional, o Bolero lero.

Parêntese para falar de Bolero lero: é fantástico, incrível, simplesmente genial! Uma mistura de bolero com rock, uma letra muitíssimo bacana (lavra de Mário Barbará… tá explicado), vocal perfeito de Silvio Marques e Nico, o Gênio. Enfim, uma música que entra fácil nas dez melhores que já ouvi. Na vida.

O lado B é mais intimista, mais piano, mais romantismo, mais Porto Alegre. Com Marcou bobeira e Flor, duas obras de arte, dá até pra sonhar acordado e sem fechar os olhos!

***

Conhecer música é algo que sempre me fascinou. A Internet facilitou muito o processo, mas – por outro lado – tornou as coisas mais gélidas. São três cliques e a música está em nossos ouvidos. É bacana, tem seu valor, mas não substitui a aventura de manusear um vinil, de descobrir 40 minutos de talento puro como os constantes em Saracura, de ouvir e de ter vontade de repetir tudo aquilo mil vezes, de sorrir sabe-se lá porque, acho que apenas pelo encantamento de estar diante de algo que nos faz ver o quanto o ser humano pode ser, no fim das contas, sempre genial.

Das pequenas aventuras porto-alegrenses que tive, acho que a “Missão Saracura” ficará bem viva durante muitos anos na minha mente. Cada vez que eu ouvir este disco – e ouvirei muitas vezes mais – vou me lembrar de como ele esteve nas minhas mãos durante tantas vezes e de como descobri que ele é absurdamente incrível só depois de andanças e mais andanças que incluem um café no Mercado Público, a pindaíba momentânea de um grande amigo, uma Usina do Gasômetro que não funciona nas segundas e um mestrado que, cada vez mais, gosto pelo que me proporciona.

Essa é a graça da vida, afinal.

Anúncios