Sempre preferi a vida nas cidades. Apesar de achar bela a paisagem pampeana, a vida no campo nunca atraiu minhas atenções, a não ser quando ouvia as histórias contadas pela minha família. Muitas vezes, convidado a passar férias no campo, decidi mesmo ficar nas cidades onde morei, mesmo que isso significasse muito calor e o predomínio do cinza nas cores do horizonte.

Talvez por essa preferência, me acostumei a escutar músicas que tematizavam quase exclusivamente a vida urbana, vendo com um distanciamento até certo ponto preconceituoso aquelas canções que falavam sobre a vida rural ou, mais especificamente, sobre a lida campeira do “gaúcho”.

No entanto, minha paixão irremediável pelo tango e pela milonga  contribuíram para a minha paulatina identificação com os temas da região platina e o mergulho nesse universo musical e poético auxiliou na minha redefinição em relação ao material folclórico do lado brasileiro do Pampa.

Eu e Vitor Ramil após o show

Mas essa reaproximação com os “temas campeiros”, devo admitir, não teria sido tão rápida e nem tão prazerosa sem a audição cotidiana da discografia de Vitor Ramil. Como se não bastassem as milongas distribuídas em alguns de seus discos ou mesmo a empreitada artística de Ramilonga (1998), o mais recente álbum do pelotense, Délibáb (2010), parece expressar com maior nitidez do que antes uma leitura sobre a musicalidade da região platina que me parece ainda mais próxima da minha relação subjetiva com essa tradição.

Se essa idéia ficou clara para mim quando escutei exaustivamente o álbum, ela foi reforçada de forma mais intensa quando assisti o show de Délibáb na semana passada. No sábado do dia 12 de junho, fui prestigiar Vitor Ramil e Carlos Moscardini apresentarem o show Délibáb em uma das três noites dedicadas ao espetáculo no Theatro São Pedro. No repertório, todas as 12 músicas do álbum que transforma em canções os poemas do argentino Jorge Luis Borges e do brasileiro João da Cunha Vargas e outras milongas da discografia de Vitor, como Semeadura (A Paixão de V Segundo Ele Próprio), Ramilonga, Noite de São João (Ramilonga) e Querência (Longes).

Carlos Moscardini e eu após o show

Nos arranjos de dois violões (de aço e de nylon) que perpassam as músicas do disco e que estruturam o show do mesmo é destaque evidente a performance do inigualável violonista argentino Carlos Moscardini, que mostrou sua extrema importância nas interpretações e  no arranjo das canções. A precisão e criatividade do violonista me fazem afirmar ser ele um dos melhores instrumentistas que já assisti ao vivo. Segundo o violonista gaúcho Rodrigo Nassif, Moscardini nasceu em terras argentinas (Paraná, capital da província de Entre Ríos) reconhecidamente férteis em ótimos violonistas, como Eduardo Isaac e Walter Heinze.

Seja abordando a história dos arrabaldes buenairenses (pelas letras de Borges) ou o pampa sul-rio-grandense (pela sensibilidade fora do comum de Vargas), a “miragem” construída pelas canções e pela atmosfera do show me aproximaram poeticamente de uma realidade distinta da que vivo, mas que trouxe à tona, na forma como é musicalmente traduzida, muitos sentimentos e emoções que parecem produtos genuínos da minha subjetividade.

Assim, muitas das qualidades que vejo em Délibáb, seja no formato discográfico ou no espetáculo que assisti, são, a despeito da importância de Vitor Ramil e  de Carlos Moscardini, relacionadas com a minha trajetória de ouvinte que, cada vez mais, apaixona-se pelo diálogo lírico e poético com mundos diferenciados daquele que vivo cotidianamente. E essas minhas impressões podem mesmo estar relacionadas com a idéia que Vitor expressa no dvd do álbum, sugerindo a aproximação da milonga com a densidade da literatura e, podemos concluir nesse caso, com a capacidade que esta arte possui de nos transportar para mundos diferentes.

Saudações musicais!

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