Nestas andanças por diferentes mundos musicais, é sempre prazeroso e instrutivo encontrar artistas que surpreendem nossos ouvidos e emoções de uma forma muito especial, agregando de uma só vez criatividade, autenticidade e um admirável interesse no diálogo sobre a arte que produzem.

Estas boas qualidades (e outras mais) fazem parte das características do quinteto argentino 34 Puñaladas, que semanas atrás indiquei aqui no blog como um dos melhores grupos de tango da atualidade. Com quatro discos de estúdio, a orquestra lançou ano passado o prestigiado álbum Bombay Bs.As. que é tanto uma ruptura para o grupo (já que é o primeiro disco com músicas autorais) quanto para o tango contemporâneo, ao apresentar composições inéditas que redimensionam o estilo nos aspectos instrumentais (com uma arrojada combinação de guitarras na qual o protagonismo entre os instrumentistas se alterna) e poéticos (ao atualizar o tema das contradições urbanas que era um dos motes dos tangos reinterpretados pelo grupo nos seus três primeiros discos). Segundo Leandro De Leonardis na resenha que fez para a Revista Los Inrockuptibles: “La cruda densidad de esta propuesta se completa con las poéticas cantadas que recorren desangelados paisajes urbanos habitados por personajes que preludian un porvenir sin venir“.

Como destacaram diversos críticos, da musicalidade criada nesse álbum emana uma atmosfera sombria, densa e introspectiva, cuja harmonia transita pelos instrumentos e ganha matizes inesperados. Nas referências para a construção dessa sonoridade são lembrados nomes tão importantes quanto heterogêneos como Alfredo Zitarrosa, Nick Cave e Leonard Cohen.

E hoje, para adentrarmos nesse cenário peculiar criado pelo quinteto, tenho a honra e o prazer de disponibilizar para os leitores do Música Esparsa uma bela entrevista (mais pelas respostas do que pelas perguntas) que fiz com o guitarrista Edgardo González que, junto com Augusto Macri e Juan Lorenzo (guitarras), Lucas Ferrara (guitarrón) e Alejandro Guyot (voz), integra a orquesta 34 Puñaladas.

Antes da turnê européia do grupo, que começa nesta quinta-feira (15 de julho) em Paris, Edgardo (que também gravou, mixou e masterizou Bombay Bs.As.) gentilmente conversou com o blog a respeito da trajetória do 34 Puñaladas, sobre as características principais do processo de composição do grupo e sobre o álbum mais recente, entre outros assuntos instigantes.

Não percam, portanto, essa imperdível oportunidade de conhecer  mais profundamente uma das melhores expressões do tango argentino das últimas décadas.

Saudações musicais!

1) Como os integrantes do 34 Puñaladas se conheceram e decidiram formar uma orquestra de tango? Qual é a trajetória do grupo até hoje?

34 Puñaladas: O grupo se formou em 1998 na oficina de composição de Ricardo Capellano, um dos compositores e docentes mais importantes e menos reconhecidos da Argentina. Todos os integrantes do grupo, os originais e aqueles que foram sendo incorporados, já tinham, de algum modo, contato com o tango, apesar de pertencermos a uma geração que cresceu escutando (e em alguns casos tocando) rock. Nessa época, o rock começava a sofrer o aburguesamento pelo qual transita atualmente. Por isso, encontramos muito mais viva, genuína e representativa a idéia de abordar o tango. Mais de uma década depois, os fatos demonstram que não estávamos equivocados.

Durante os primeiros anos freqüentamos a cena underground e, a partir de 2002, nos incorporamos ao circuito formal. Editamos quatro discos: Tangos Carcelarios [2002], Slang [2005], Argot [2006] e Bombay Bs.As. [2009], este último integrado por composições próprias e no qual tivemos a honra de contar com a participação de Vitor Ramil [para ouvir algumas faixas do álbum, incluindo a canção na qual Ramil participa, Milonga del tiro de gracia, é só clicar AQUI]. Realizamos shows permanentemente em Buenos Aires, cidade na qual estamos radicados, e também turnês a nível nacional e internacional, apresentando-nos no Brasil, Chile, Uruguai, França, Espanha, Portugal, Itália, Áustria e Austrália.

2) O tango canção já tem quase cem anos. Quais características vocês atribuem a ele e que motivações vocês têm que fomentaram a criação da orquestra, apostando na atualidade do estilo?

34 Puñaladas: Através de sua história, o tango canção transitou por períodos distintos, desde o estribilho picaresco nos seus primórdios, no início do século XX, passando pelo conteúdo social durante a década de 1930 (a chamada década infame), o romantismo dos anos 1940 e 1950 e uma espécie de costumbrismo nas décadas seguintes (pensando, é claro, de forma genérica). Por volta dos anos 1970 sofreu um estancamento, já que foram muito poucos compositores que deram continuidade ao estilo, de tal modo que quando os músicos que hoje (como nós) têm entre 35 e 45 anos retomaram o gênero em meados dos anos 1990, o fizeram sem ter muitas referências da geração anterior (por isso nos chamamos de geração bastarda). Esse é o motivo pelo qual fizemos, a princípio, um trabalho como intérpretes e depois de alguns anos começamos a compor. Paralelamente investigamos o tango e incorporamos a ele nossas influências que provinham de gêneros às vezes afins e às vezes nem tanto, até desenvolver uma linguagem própria que poderia instalar na contemporaneidade um gênero que estava estigmatizado como velho.

3) A preferência por tangos com forte gíria lunfarda, de temática “criminal”, sobre a urbanidade própria dos arrabaldes é uma característica do grupo desde sua fundação ou é algo que foi surgindo ao longo do tempo?

34 Puñaladas: Foi uma escolha estética adotada desde o princípio. Por tratar-se de um repertório até então esquecido e pela fascinação que nos provocavam essas histórias e a atmosfera que as ambientava.

4) A formação da orquestra, fundamentada nas guitarras e na interpretação dramática, pode ser entendida como uma forma mais genuína de abordagem dos tangos “carcelários”? Qual é, portanto, a função da linguagem “guitarrística” na música do quinteto?

34 Puñaladas: É um repertório com muita afinidade em relação à sonoridade das guitarras, mais sóbria e escura que a da orquestra típica, que utiliza cordas frotadas [como violino e violoncelo, por exemplo], piano e bandoneon. Em relação aos aspectos técnicos, o grupo ressignificou a linguagem guitarrísitica no tango. Até o momento, os conjuntos de guitarra trabalhavam com papéis definidos sobre a estrutura de primeira voz, segunda voz, oitava baixa da primeira voz e base. Nós às vezes utilizamos esta estrutura, porém, os papéis vão se alternando entre os distintos integrantes. Outras vezes incorporamos elementos que vão desde o fugatto barroco até o riff rockeiro.

5) Quais as diferenças fundamentais entre as composições inéditas de Bombay Bs. As. e os tangos apresentados nos outros discos do grupo, além do próprio ineditismo?

34 Puñaladas:  Bombay Bs.As. expressa, desde a ambientação e a encenação da obra, uma continuidade da estética da etapa interpretativa. Do ponto de vista musical, as melodias talvez tenham algo menos de lirismo que as dos tangos tradicionais. Esta foi uma busca deliberada com o objetivo de dar mais coesão ainda entre a voz e o arranjo sonoro das guitarras. As letras são mais descritivas que narrativas e se descolaram do lunfardo, já que transportar essa gíria do princípio do século passado para a poesia contemporânea teria sido pouco genuíno.

6) Como vocês avaliam a produção de tangos inéditos na cena musical contemporânea? Essas composições vinculam-se principalmente aos grupos de tango independente?

34 Puñaladas: Além dos grupos com os quais continuamos trabalhando há mais de uma década, há uma boa quantidade de músicos muito jovens da cena independente, que estão abordando repertórios próprios muito interessantes. Creio que este é um período de transição que em alguns anos mostrará muitos bons resultados. A maioria do que se escuta no circuito comercial, que faz parte das casas para turistas e de quase todas as companhias de dança, é de muito pouca qualidade artística e carece absolutamente de audácia, apesar de que, em geral, está interpretada por muitos bons instrumentistas.

7) Abordar o que está presente nestes tangos pode ser uma maneira de desnudar o que se oculta nos dias de hoje? Comentem sobre as contradições subjacentes no título Bombay Bs. As.

34 Puñaladas: Bombay Bs.As. é uma metáfora que descreve em linguagem poética a agonizante forma de vida nos conglomerados urbanos, que incluem as grandes cidades e seus subúrbios. A escolha do nome tem a ver com o imaginário absurdo que tem boa parte da classe média portenha, que considera Buenos Aires como a Paris da América do Sul. Posicionando-nos com ironia em relação a essa subjetividade, dizemos que em Buenos Aires convive o que se supõe representar Paris, como uma imaculada jóia Européia, com o ideário de marginalidade que se supõe representar Bombay.

8 ) Quais outros grupos de tango independente vocês indicariam a um ouvinte brasileiro?

34 Puñaladas: Cuarteto Bien Pulenta, Cuarteto de Julio Coviello, Alfredo Piro, Karina Beorlegui e Alan Haksten Grupp [é só clicar nos nomes para acessar o MySpace ou o site dos grupos].

9) Conhecem algo da música brasileira? Se sim, o que gostam mais? Há alguma previsão de show no Brasil?

34 Puñaladas: Conhecemos e amamos a música do Brasil. Posso elaborar uma lista heterogênea que inclui, entre muitos outros, a Elis Regina, Caetano Veloso, Djavan, Paulinho da Viola, Naná Vasconcelos, Hermeto Pascoal, Luiz Carlos Borges, Egberto Gismonti, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, João Gilberto, Marisa Monte, Ná Ozzetti, Chico Buarque, Kleiton e Kledir, Yamandú Costa, Moreno Veloso, André Mehmarí, Paralamas do Sucesso e, é claro, a nosso amigo Vitor Ramil. Neste momento, não temos notícia sobre a possibilidade de voltar a tocar no Brasil, algo que nos encantaria.

34 Puñaladas com Hermeto Pascoal no Festival de Músicas do Mundo de Sines (Portugal, 2005)

10) Deixem uma mensagem para os leitores do blog Música Esparsa.

34 Puñaladas: Que sejam curiosos, que investiguem e, ao mesmo tempo, difundam os canais alternativos de comunicação como o Música Esparsa, já que vão encontrar propostas muito interessantes que, em geral, têm pouca difusão nos meios tradicionais.

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