Eu já corri o mundo inteiro

Eu tenho pé de cantador

(Leandro Maia)

Em 2009, o projeto Unimúsica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul convidou o cantor e compositor Leandro Maia para apresentar seu álbum de estréia Palavreio na série Cancionistas. Naquela ocasião, tive a oportunidade e o privilégio de assistir pela primeira vez o excelente show de Leandro, recheado de belíssimas canções e de parcerias fantásticas ao lado de Michel Dorfman, Marcelo Corsetti, Luke Faro, Marcelo Delacroix, Andréa Cavalheiro, entre outros.

Lançado em 2008, o álbum de estréia de Leandro Maia é acompanhado de um livreto e divide-se em três partes: Palavra de papel (poemas), Palavra dita (poemas recitados) e Canções.

E para dedicarmos atenção especial a esse “projeto musical” de Leandro, convidei o cantor e compositor para protagonizar esta edição das Conversas Esparsas. Aqui, os leitores podem ler um pouco mais sobre o Palavreio, a cultura e a canção brasileiras e sobre as interessantes ideias deste cancionista, que gentilmente topou conversar conosco.

Portanto, leiam, ouçam e desfrutem.

Saudações musicais!

1) Conte-nos um pouco da tua trajetória artística antes do lançamento de Palavreio (2008).

Leandro Maia: O “Palavreio” marca meus dez anos de atuação profissional. Eu marco esta data com o surgimento do Grupo Café Acústico – um quinteto de música popular de câmara que conquistou o II Festival de Música de Porto Alegre e dois Prêmios Açorianos de melhor grupo de MPB. Paramos com o Café em 2001 e eu segui me dedicando à minha formação acadêmica, paralelamente atuei como regente e arranjador de coros juvenis, e integrei projetos juntos com músicos como Alexandre Vieira, Jorge Hermann, Karine Cunha, Mário Falcão, Alejandro Massiotti, Dunia Elias, depois participei do teatro em Antígona, do Alabarse, música do Arthur de Faria. Foi o momento em que me aproximei também do Marcelo Delacroix, com quem colaborei em Depois do Raio. Ainda tive rápida passagem pelo Serrote Preto e pelo Depósito de Teatro. Enquanto mixava o “Palavreio” também compunha e gravava a trilha do Espetáculo Penélope Bloom, na Costa Rica. Minha trajetória de vida musica inicia, no entanto, cantando numa língua inventada antes dos quatro anos de idade. Com oito, escrevia poemas. Com dez anos já era um compositor de sucesso numa escola chamada “Oficina de Música” (risos), compondo “palitos”, pecinhas musicais nas teclas pretas do piano. Aos doze iniciei o estudo de “violão clássico”, aos quatorze já tocava Villa-Lobos. Estudei na escola de música da OSPA, cantei no Coro Juvenil da Escola Técnica da UFRGS, no Madrigal do Departamento de Música da UFRGS e participei do Conjunto de Música Popular do Projeto Prelúdio, que deu origem ao Café Acústico.

2) Em 2007 defendeste uma dissertação de mestrado sobre a canção O Quereres de Caetano Veloso. De que modo a atenção acadêmica que dedicaste ao estudo da canção influenciou na construção do teu primeiro álbum solo?

LM: Na verdade, a coisa é inversa: as minhas inquietações e descobertas como compositor e intérprete é que me fizeram adentrar na trajetória acadêmica. Foi cursando o pós na Unirriter e depois o mestrado na UFRGS que conscientizei algumas coisas que já praticava intuitivamente. Uma intuição sábia que todo o cancionista/cantautor utiliza. Eu componho como quem estuda. Então achei que deveria estudar como se compõe (risos). Então o mestrado foi um mergulhar de cabeça na canção como forma de pensar, como forma de conhecimento, como exercício de pensar a própria condição brasileira. Acho que a minha dissertação – orientada pelo prof. Luís Augusto Fischer e co-orientada pelo prof. Celso Loureiro Chaves – foi pioneira neste aprofundamento. Acho que “Quereres de Caetano: da canção à Canção” é a primeira dissertação sobre apenas uma canção. 110 páginas sobre uma canção de três minutos e meio. E faltou coisa para aprofundar.

3) Em relação à estrutura de Palavreio, dividida em Palavra de papel, Palavra dita e Canções, ela foi pensada como uma maneira de explorar os laços estreitos existentes entre literatura e música popular?

LM: Sim. Nisso tem muito a ver com a dissertação de mestrado, que é considerar a canção popular como literatura. Mas também tem um lance de buscar a origem de tudo, quando música e poesia eram uma coisa só. Então busquei um espectro de tudo que circunda a canção, a relação letra e música, o poema falado e o poema para se ler em silêncio. Parte também do pressuposto da canção como “linguagem”: assim como pensamos através de palavras, pensamos através de sons, imagens e creio que pensamos letra e música de forma espontânea e articulada, que é o que um repentista ou trovador faz: se utiliza da estrutura musical para deixar fluir seu texto verbal. Nisso a canção popular e a canção erudita se diferenciam radicalmente. Ao que tudo indica: na canção popular é a música que dá o texto, e na canção erudita é o texto que determina a música. Essas reflexões fazem parte dos antecedentes do “Palavreio”, que tem um bisão, uma pintura rupestre, que é uma forma de dizer que estamos fazendo uma das coisas mais antigas, talvez a coisa mais antiga do mundo, que é canção.

4) Voltando ao tema dos estudos acadêmicos sobre música, você poderia resumir, sobre aquilo que conhece, o “estado da arte” destas pesquisas na área das Letras?

LM: É uma área bastante heterogênea. Talvez ainda predominem os estudos sobre “a poesia da letra da canção”, na minha humilde opinião equivocados. Em geral jornalistas ou pessoal das letras que busca analisar “a poesia” de Chico Buarque, por exemplo. Existe a linha de estudo de uma poética da voz, que estuda a vocalidade. Tem americanos que tratam da melopoética, que é a relação letra e música, mesmo, com mais influência da “teoria dos afetos”, da ópera e do lied europeu, por exemplo. Outro campo de estudo é o campo histórico: o resgate de determinado compositor, as biografias, os festivais, a análise do conjunto da obra. Autores como Jairo Severiano, Zuza Homem de Melo, Sérgio Cabral, entre outros. Tem a linha da “semiótica da canção” que é a linha do Luiz Tatit, por exemplo, que é quem se atém na análise da relação melodia e letra propriamente ditas, com um método de análise bastante rigoroso e influenciado pela lingüística. É um autor obrigatório, concorde-se ou não. Eu, particularmente, gosto muito das análises escritas pelo pessoal que é músico, mas dá aula de literatura, como o José Miguel Wisnik e o Arthur Nestrovski, acho que tem uma escrita mais ensaística e com muita informação musical, se analisa harmonia, etc, que ao meu ver é o mais interessante. Gosto muito do Carlos Sandroni, que é o cara que consegue trazer o ritmo para a análise da canção. Daqui do sul, Celso Loureiro Chaves e Luís Augusto Fischer estão nos devendo publicações nestas áreas. Novos pesquisadores no RS são o Luciano Zanatta e o Carlo Pianta. Neste sentido, eu destacaria o Núcleo de Estudos da Canção, da UFRGS, que é um grupo dedicado ao assunto.

5) No sítio eletrônico do jornalista Luís Nassif, Palavreio foi indicado como representante da “Nova música gaúcha”. Quais os possíveis diálogos da tua música com os múltiplos significados que podem ter o conceito de “novo” e a expressão “música gaúcha”?

LM: Pois é. Acho que é “nova” porque é recente (risos), não necessariamente uma novidade. É nova porque é o primeiro disco, porque é de 2008. Embora em música POP 2008 já seja uma velharia. Algo que eu nunca advoguei foi a “novidade”. Quem precisa de novidade é o mercado. As pessoas precisam de qualidade. Talvez o Nassif esteja usando o termo “nova música gaúcha” como uma diferenciação da música gaúcha que o Brasil conhece como gaúcha, ou seja, aquela apropriada pelos CTGs e pelo Tradicionalismo, representada, digamos, pelo gaúcho da Fronteira, pelo Teixeirinha. A música que é popular, com raiz folclórica, que o Brasil conhece. A minha música tem essa raiz, mas não se encaixa no estereótipo do gaúcho, clichê do cavalo. Sou extremamente gaúcho em “Palavreio”, mas não falo de cavalo, nem bombacha, nem querência. É um gaúcho da linha do Mário Quintana, do Vitor Ramil, do Luís Fernando Veríssimo, um gaúcho que não ta nem aí para os caudilhos. Minhas músicas não entram em festivais nativistas, por exemplo, mas gente de todo o país me reconhece como gaúcho sem eu ter que dizer uma palavra sobre isso. Ser gaúcho é uma fatalidade. Gosto do meu sotaque rio-grandense carregado, por exemplo, mas não acho que gaúcho é adjetivo, um termo carregado de valores morais e estéticos pré-concebidos. Há pouco foi requentada essa briga. A discussão sobre música gaúcha acaba revelando, diferente de outras músicas, uma série de questões ideológicas e até políticas, relacionadas com questões de poder. De todos os lados.

6) Ao longo da história, a definição do que seria uma “cultura brasileira” alterou-se inúmeras vezes e, em diversos momentos, novas pesquisas problematizam esse tema. De que forma os estudos mais recentes sobre a “canção” redimensionam o debate sobre as características e manifestações da “cultura brasileira”?

LM: Eu defendo o seguinte, digamos: a melhor sinfonia é a austríaca, os melhores concertos são italianos, as melhores óperas italianas, os melhores contos, americanos, os melhores romances são russos, a melhor poesia é francesa, a melhor canção popular é a brasileira. É algo totalmente discutível, uma simplificação bárbara. Mas acho que se sustenta por termos 1) uma variedade de ritmos enorme: vanera, samba, milonga, maracatu, côco, repente, carimbo, catira, pagode de viola, etc. 2) Uma língua extremamente sonora, onde as vogais combinadas com fonemas como “z”, “v”, “j”, associadas à nasalidade, um timbre único, onde cada palavra tem sua cor, sem falar nos inúmeros sotaques. Não posso cantar “Joana Francesa”, do Chico, em gauchês, por exemplo, é uma canção que soa em carioquês/francês. 3) uma variedade temática absurda: os mais diferentes tipos de narradores, personagens, temáticas sociais, líricas, épicas, não fazemos só canção de amor e protesto como em muitos lugares. 4) A canção popular é um gênero híbrido que é o próprio resultado de nossa mestiçagem. É um gênero literário composto de diversos gêneros musicais. Nosso primeiro cancionista, o Domingos Caldas Barbosa já era um padre mulato e chegado na boemia. Não tem jeito (risos). Agora tem os argumentos do José Miguel Wisnik, que diz que a canção popular é uma espécie de “riflessione brasiliana”, ou seja, uma forma através da qual o próprio país se pensa, a forma utilizada pelo brasileiro, digamos, para constituir a sua subjetividade, é muito interessante e palpável. O Luiz Tatit fala que a canção brasileira tem dois grandes pólos de atuação: a Bossa Nova (triagem) e o Tropicalismo (mistura). Bem, existem estudos sobre a influência do Tropicalismo na Nueva Trova Cubana, que influenciou toda estética latinoamericana. Fatores políticos: foi através do samba que o governo Vargas se estabeleceu, por exemplo. È inegável o peso da canção popular na vida do país e mais, o Caetano fala na canção popular como “maior forma de propagação da lingua portuguesa no mundo”. A música é o maior produto de exportação brasileiro e o engraçado é que é a música com letra, ou seja, a canção, uma grande responsável por isso. A importância da canção para a cultura brasileira é inegável e creio que inesgotável.

7) Existem poetas e/ou músicos que são referências constantes na sua produção? Se sim, quais seriam eles e por quê?

LM: Sim. São muitas referências. Eu busco a referência nos mestres. Acho que o principal é sintonizar com o espírito poético de cada autor. Não adianta eu dizer que gosto de Tom Jobim, Piazzola, Drummond, Guimarães Rosa, Mário Quintana, Fernando Pessoa, Chico Buarque, Villa-Lobos, etc, se isso não se faz presente em alguma esfera na minha criação. O que interessa para o ouvinte do meu disco se eu gosto de ouvir Beatles ou Tião Carreiro? Se eu conheço todos os discos da Califórnia da Canção? Dos Almôndegas e do Saracura? Do Gelson, Nelson, Totonho e Bebeto? Leminsky e Che Guevara? Talvez alguma curiosidade de coluna social. Agora, no caso do “Palavreio” estas referências são o tempo todo, “Palavreio” é diálogo com muita gente, às vezes é explícito, às vezes não. Meu primeiro disco é pura referência e reverência.

8 ) Quais são teus projetos em relação à música atualmente?

LM: Tive um vazio existencial depois do Palavreio (risos). Porque muitas portas criativas foram abertas. Eu faria um disco de cada faixa, um disco de jazz todo na linha do Vaga-Lua, por exemplo ou um disco Pop como Digno de Nota (Connecticut). A vida está me convidando a radicalizar e estou compondo novamente coisas, bem elaboradas, com muito critério. Estou escrevendo mais letras para gente que vem da música instrumental. O lance é que estou começando a encontrar parceiros, o próximo disco terá novas parcerias. Já estou enxergando o próximo trabalho, o que é muito bom. Parou o devaneio mero desejo e a coisa está se tornando concreta. Acho que a ansiedade vai estabilizando, acho que a música que eu faço é para um público especial, que se dedique a sentar e ouvir atentamente. Acho que daqui a vinte, cinqüenta anos, uma pessoa vai ouvir o meu trabalho e ele vai continuar valendo alguma coisa. Pra mim está claro que o negócio é compor, inventar, contar e recontar. E projetos são muitos: segundo disco, publicar os estudos sobre canção, projetos de educação musical, livro de arranjos para coros juvenis, disco infantil, peça de teatro, palestras, shows.

9) Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

LM: Valeu gente. Deixo um abraço carinhoso e um salve ao Icaro por ter colocado a gente em contato. Um abração para vocês. Apareçam no meu MySpace e no blog Palavreio pra gente trocar uma ideia. Abração.

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