Foto: Camila Mazzini

Angelo Primon é um dos melhores instrumentistas que já tive oportunidade de assistir ao vivo. Desde a apresentação de seu álbum Mosaico (2004) em Santa Maria (2007) até as performances recentes com o quarteto Realidade Paralela (ao lado de Marcelo Corsetti, Vanessa Longoni e Luke Faro), a minha admiração pela arte deste instrumentista só aumenta.

Apesar de ter escrito alguns comentários sobre a trajetória do músico ano passado aqui no blog, sempre me pareceu que faltava um espaço a mais no Música Esparsa para a música e as ideias de Primon. Pensando nisso, convidei o violonista para escrever um pouco sobre seu processo de composição e sobre seu trabalho instrumental, tanto sobre o já lançado Mosaico quanto sobre o disco Solar (atualmente em pré-produção).

Para acompanhar mais de perto o trabalho de Angelo, é só acessar o blog do músico e conferir as músicas do álbum Mosaico no site do artista.

Saudações musicais!

1) Como você concebe o processo de composição na música em geral e o seu processo de composição em particular?

Angelo Primon: Compor sempre é um estado de sofrimento para mim. Existem muitas situações pontiagudas quando me coloco nesta situação. Coisas que vão desde a definição do caminho a ser tomado como até mesmo a própria desconfiança, muito pautada pelo meu senso crítico.

Mesmo assim, o que busco atualmente é um diálogo muito claro das idéias musicais independentemente de sua simplicidade, jocosidade ou brejeirice com a forma.

Esta “situação de composição” me coloca invariavelmente em um leque muito grande de opções no tratamento do substrato musical. Este pode vir de uma frase em uma viola de dez cordas ou talvez até mesmo  de experimentações tímbricas no sitar ou na viola de cocho, por exemplo. O fato é que deste caldeirão de possibilidades tímbricas faz-se vir à tona o som, o sentimento e o sentido.

São estes os três pilares do meu “sofrimento”: Som, sentimento e sentido.

Pelo “Som”, leia-se timbre, dinâmica, divisão, frase, encadeamentos harmônicos, etc.

Tudo que possa me movimentar internamente a ponto de me impulsionar de encontro à resolução, construção de algo, apaixonar-me. “Sentimento” é isso!

Após este turbilhão de sensações e sentimentos, existe um processo, ainda que intuitivo, de construção. Aí eu busco o “Sentido”, uma espécie de organização para tudo o que eu quero dizer. Isto não significa que vou colocar tudo em simetria, aliás, tenho me sentido cada vez menos afeito a este tipo de dimensionamento musical, mas sim, uma construção de como esta música se distribuirá no espaço/tempo para que possa ser ouvida.

[Assista abaixo o vídeo da música El Tunge Le, interpretada por Adriana Deffenti e que, a partir dos 3min e 50s mostra Angelo Primon e Marcelo Corsetti “colocando abaixo” o Theatro São Pedro]

2) Como foi o processo de composição e produção do álbum Mosaico (2004)?

AP: O Mosaico foi meu trabalho composicional de estréia, portanto muito cercado de expectativas e por vezes, ansiedades. Eu reuni composições de fases bem iniciais da minha carreira como Chão batido e Dona Helena,  por exemplo, a composições novas como Altos da Glória, Mato e a Quadrilogia Encantada. O que marcou bastante o processo todo do cd foi o fato de que me coloquei como um compositor muito mais do que um instrumentista, pois na época não fazia mais sentido para mim um trabalho instrumental feito diretamente para músicos, acadêmicos ou iniciados em música. Eu queria contar uma estória! Que as pessoas pudessem ouvir e sentir, se emocionar. Esta foi minha pretensão. Tive a certeza da dose certa disso tudo quando em uma situação de estúdio, em plenas gravações, fomos visitados por pessoas e, depois de um tempo, uma destas saiu assoviando uma frase de uma das minhas músicas. Cara, para mim, naquela hora, eu estava me sentindo satisfeito! E tecnicamente, as colocações dos meus instrumentos foram muito mais  para a composição do arranjo do que uma clara e manifesta atitude solista. Foi bastante divertido tudo aquilo. Era para por a cara à tapa mesmo.

3) Conte um pouco como está sendo a formatação do teu próximo álbum, Solar.

AP: Quase que antagonizando o Mosaico,  Solar caminha em sentido oposto no que se refere à sua construção composicional. Neste novo trabalho, eu claramente componho a partir dos instrumentos e, posteriormente, analiso a possível colocação de coberturas de outros instrumentos para a formatação final. Refletindo em uma situação de solo entre o instrumentista e suas atitudes musicais.

Se no Mosaico eu priorizei a composição das músicas para após colocar-me como instrumentista, no Solar o instrumentista fala para o compositor: a música é esta e com este instrumento! Arranja aí!

Solar está nascendo a partir desta viagem em solitude que o compositor mergulha, para extrair-se de si através de seu instrumento musical.

É das sensações de solidão, de solitude, de abandono, de vácuo, de flutuação que tento pintar em som através do instrumento que estou tocando o momento.

Tenho aprendido ao longo destes anos a observar meu tempo, por isso ainda estou em processo de pré-produção. As coisas estão se encaminhando bem.

4) Escreva um pouco sobre as características da música instrumental que você faz, pensando em divulgá-la a um público que não é acostumado a ouvir compoisções só intrumentais.

AP: Olha Icaro, é bem difícil falar sobre isso, até porque a música por si só já é uma arte que é imaterial, por conseqüência invisível, mas ainda assim, mexe com sensações do momento que se ouve até fixar-se em lembranças e sentimentos por anos afora. Acho que o convite para que as pessoas ouçam e falem sobre o que sentiram seria um desafio e tanto!

Contudo, acho que talvez esta dificuldade seja a própria explicação do que eu busco com a música que faço. Tentar contar estórias, pintar um quadro mental, sintonizar sensações.

Existem tantas formas em que a música instrumental é expressa. No jazz, por exemplo, temos as qualidades técnicas improvisatórias a desafiar o ouvinte. Na música erudita, temos as várias paisagens de muitas épocas e contextos artísticos, históricos e políticos do velho mundo. Na música étnica temos o reconhecimento da raiz da expressão do som como os cantos mouros, os couros africanos e a flutuação das melodias védicas e seus comas de tons de um transcendente mundo ainda mais antigo.

Acho que por hora posso me definir como um músico que tenta passear por estes universos citados com a simplicidade de um assovio, um cantarolar, um ferir das cordas de uma viola e a construção do meu silêncio.

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