Posso afirmar que Pet Shop Mundo Cão (2002) foi o álbum que confirmou minha admiração incondicional à arte do cantor e compositor Zeca Baleiro. Digo isso porque antes mesmo de escutar o disco, assisti o show do maranhense em Santa Maria e me surpreendi deveras.

E essa surpresa teve dois motivos: o primeiro é que, baseado na audição anterior do álbum Líricas, esperava um espetáculo mais acústico e intimista, mas, o que presenciei foi uma apoteose sonora com guitarras, samplers, DJ e mais outros instrumentos que formatam o mosaico surpreendente das canções de Pet Shop. Já o segundo motivo da surpresa é que, guri novo e recém desencantando das fantasias do mundo lá em 2002, vi espelhadas nas letras das músicas do disco toda a crítica e o deboche à vida moderna que  alimentavam minhas angústias da época e que ficariam mais nítidas para mim nos anos seguintes.


Assim, apesar dessa mudança sonora e temática (mesmo que o lirismo do disco anteiror também tenha sua referência crítica à modernidade desalmada) o meu apreço pelas canções de Baleiro só aumentou e, mais do que isso, adquiri uma noção mais exata das potencialidades críticas e criativas deste grande compositor.

Neste álbum de 2002, preenchido por canções autorias de Zeca, com exceção de Filho da Véia (Luiz Américo/Braguinha), que também fez parcerias valiosas com Mathilda Kóvak, Ségio Natureza e Érico Theobaldo, exala uma visão multifacetada sobre diversos aspectos da vida moderna, como os problemas identitários (Minha tribo sou eu), a exploração do trabalho (Eu despedi o meu patrão, que tem uma citação fantástica de Gregório de Matos Guerra no final), a “morte do poema” (Mundo dos negócios), entre outras abordagens mais sutis e não menos eficazes. E é justamente dessa última música que deixo o vídeo para apreciação, com o seu maravilhoso convite “vamos viver do comércio barato de poemas de amor”.

Depois do fabuloso álbum Tango (1987), Vitor Ramil adiou por alguns anos o lançamento de um novo disco, dedicando sua vida artística ao teatro, com o personagem Barão de Satolep, à literatura, com a bela novela Pequod e ao mundo ensaístico com A estética do frio, reflexão que lançou as bases das características da sua identitade artística, que ficarão ainda mais claras quando do lançamento de Ramilonga em 1998.

Mas antes disso, em 1995, surge encartado em uma resvista de Porto Alegre, com tiragem limitada, o cd À Beça, apresentando diversas músicas que seriam retomadas por Vitor em trabalhos posteriores, como em Tambong (2000, Grama Verde e Não é Céu) ou em Satolep Sambatown (2007, Café da Manhã) e que demonstravam uma grande riqueza sonora e alguns experimentos que seriam essenciais para a melhor definição da sonoridade e poética “ramiliana”.

Além desses aspectos, esse disco pra mim tem um mérito mais inquestionável: foi nele que apareceu pela primeira vez na face da terra uma das canções mais lindas que já escutei e que esta no vídeo abaixo: Foi no mês que vem.

Bueno, espero que tenham gostado desta quarta parte da série Baleiro/Ramil, que contemplará na sua próxima aparição os álbuns Baladas do Asfalto e Outros Blues (2005) do Zeca e Ramilonga (1998) do Vitor. Até lá!

Saudações musicais!

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