Com essa postagem, inauguro uma nova seção no blog intitulada Discografia Esparsa, destinada a comentários sobre discos raros, esgotados ou que possuem alguma destacada peculiaridade e/ou importância histórica.

Lançado em 1988 pela Funarte, o LP Nosso Sinhô do Samba reúne 14 gravações dos grandes intérpretes Francisco Alves e Mário Reis para os sambas e canções compostos por José Barbosa da Silva (1888-1930), mais conhecido como Sinhô.

Integrante da primeira geração do samba brasileiro, ao lado de Donga, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, entre outros frequentadores da boemia carioca e da casa da Tia Ciata, Sinhô envolveu-se em diversas polêmicas autorais, inclusive no caso de Pelo telefone, considerado o primeiro samba, composto em 1916 e gravado no ano seguinte. Para alguns pesquisadores, foram justamente essas polêmicas que motivaram o músico a ser talvez o primeiro a se preocupar em registrar as partituras de suas composições no Brasil.

Apesar das inúmeras inimizades terem propagado a fama de Sinhô como “alto, magro, feio e desdentado”, a popularidade do sambista fica explícita nas palavras de Manuel Bandeira, quando do velório do músico em 1930: “A capelinha branca era muito exígua para conter todos quantos queriam bem ao Sinhô, tudo gente simples, malandros, soldados, marinheiros, donas de rende-vous baratos, meretrizes, chauffeurs, todos os sambistas de fama, os pretinhos dos choros dos botequins das ruas Júlio do Carmo e Benedito Hipólito (principais ruas do Mangue, a zona do meretrício carioca), mulheres dos morros, baianas de tabuleiro, vendedores de modinhas… As flores estão num botequim em frente, prolongamento da câmara-ardente. Bebe-se desbragadamente. Um vai-vem incessante da capela para o botequim” (Citação retirada do blog MPB CIFRANTIGA).

Com o objetivo de valorizar e preservar algumas das criações de Sinhô, a Funarte reuniu 14 versões de suas músicas, do final da década de 1920, feitas pelos dois maiores intérpretes do compositor: Chico Alves e Mário Reis. No repertório do LP, grandes sucessos como Cansei (1929), Jura (1928) e Gosto que me enrosco (com Heitor dos Prazeres, 1928), além de outros sambas que tematizam as principais preocupações daquele sambista: dinheiro e mulheres.

Para quem quiser escutar o álbum inteiro é só clicar AQUI e conferir também as imagens do encarte, que traz uma breve biografia do músico e uma pequena história de cada canção, inclusive da inusitada Sonho de gaúcho (1927), que destoa dos sambas conhecidos de Sinhô e demonstra a criatividade do compositor em falar de um lugar que nunca chegou a conhecer: o Rio Grande do Sul.

E para uma degustação mais contemporânea das composições de Sinhô, confira abaixo a versão de Ceumar para Maldito costume (1929, que não faz parte do repertório do LP).

Saudações musicais!

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