Em 2009, a cantora, compositora e musicóloga Ligiana lançou seu álbum de estréia intitulado De Amor e Mar. Ano passado, escrevi um singelo comentário sobre o disco aqui no blog, que nem de longe aproxima o leitor da qualidade e da beleza daquele trabalho.

Créditos: Sébastien Dolidon

O repertório do disco de Ligiana é um dos que mais ressoa nos meus ouvidos nos últimos dois anos, pois a qualidade e refinamento das escolhas feitas pela artista, somada à sua voz forte e doce, fazem das canções obras de arte a serem apreciadas cotidianamente.

Em De Amor e Mar, que conta com excelentes participações especiais (como Philippe Baden Powell e Hamilton de Holanda), Ligiana interpreta canções de sua autoria (como Onda) e “clássicos desconhecidos” do cancioneiro brasileiro (como Consideração, de Cartola e Heitor dos Prazeres), entre músicas já consagradas, como Eu quero é botar meu bloco na rua (Sérgio Sampaio).

Nascida em Brasília e agora radicada em São Paulo, a artista estudou na universidade de sua cidade natal e também na Itália, Holanda e França, onde desenvolveu seus estudos sobre música barroca e concluiu seu doutorado.

Nesta entrevista, concedida gentilmente por Ligiana, com exclusividade para o Música Esparsa, a artista conta um pouco sobre sua trajetória, seu álbum de estréia, seus novos projetos e seu trabalho no Centro de Referência da Diversidade, abordado pela Revista Trip dias atrás.

Assim, aproveitem esta Conversa Esparsa (a primeira deste ano) para conhecerem um pouco mais sobre essa ótima artista e apreciar o que há de melhor na música brasileira mais recente. Vocês podem também acessar o MySpace da cantora aqui. E, para finalizar, fica aqui um apelo para produtores e donos de casas de espetáculo do Rio Grande do Sul: brindem-nos com um show de Ligiana!

Saudações musicais!

De Amor e Mar (2009)

1) No teu álbum de estréia, a base da sonoridade foi formatada a partir do samba. Teus interesses ainda continuam voltados para esse estilo ou estás se aventurando em outros ritmos e influências?

O samba é uma das  matrizes da nossa música, é algo de muito fundamental e foi por este caráter, por ser iniciático e por mexer com meu coração de forma direta, que comecei a cantar música popular a partir do samba. Por isso fui atrás de aprender um pouco desse universo e gravei um disco que “flerta” com ele. Mas minha criação atual tem sido mais livre, mais aberta para o mundo e para os tempos, o próximo disco deve ser por esse lado (esses lados, aliás).

2) Como foi a recepção do teu disco “De Amor e Mar” no Brasil e no exterior? Tem alguma previsão do show deste álbum ser apresentado no Rio Grande do Sul?

Foi muito interessante! Eu não vivia no Brasil há nove anos e não tinha ninguém que conhecesse a minha música por aqui, assim que voltei lancei o disco e fiquei feliz com a forma como foi recebido. Claro que nada é fácil, começar algo artístico é difícil em qualquer lugar do mundo, é duro e é batalha constante… mas gosto disso.

No caso do exterior nem sei dizer muito porque este disco ainda não foi verdadeiramente lançado fora do Brasil, fiz alguns shows pela Europa e África mas o disco não saiu por lá, apesar disso alguns jornais e revistas escreveram sobre ele, em alguns casos porque haviam acompanhado o iniciozinho do meu trabalho de cantora na França.

Ainda não tenho show previsto para o Sul, espero que seja em breve, brevíssimo!

3)  Tu pretendes investir mais no trabalho de compositora ou em futuras produções ainda deve predominar principalmente tua faceta de intérprete?

Tenho composto bastante e quero muito gravar algumas dessas coisas, acho que o próximo disco vai ser quase todo de composições minhas. Mas gosto muito também de interpretar, de ser a leitora de um poema, de uma idéia, isso é um privilégio enorme.

4) Na releitura feita no teu álbum de estréia da canção “Se” (Tom Zé) há um diálogo com o tango a partir da música “Malena” (Lucio Demare e Homero Manzi). Essa relação entre samba e tango foi apenas ocasional ou tu apostas na existência de uma afinidade entre estes estilos musicais?

Foi uma brincadeira meio irônica/meio dramática mas que abriu portas para pensar e criar. Eu ouço muito tango, especialmente uma cantora chamada Adriana Varela, é um universo que adoro, me reconheço nele. Experiências de misturar tango e Brasil já são feitas há muito tempo e em várias esferas (Nazareth que o diga!), acho que é riquíssima, assim como outros cruzamentos possíveis de sonoridades de longe ou de tempos passados… [Escutem abaixo a versão de Se, por Ligiana.]

5) A formação que tu tens em canto lírico e as pesquisas que fizeste em música barroca e ópera italiana contribuem de alguma forma para o teu trabalho como intérprete de música popular?

Acho que tudo que a gente estuda, lê, vê e sente influencia no jeito de fazer arte, de pensar no mundo, nas coisas. No meu caso, pela minha caminhada, acabei realmente conhecendo muita coisa antiga, erudita e rara…então é claro que essa poética faz parte de mim, e cada vez mais isso me interessa: unir em mim essas referências, esses mundos e transmitir algo de forte e amoroso.

6) Alguma outra expressão artística (como filmes, livros, entre outros) te inspira de alguma forma na tua produção artística na música?

Todas essas que você citou e mais a vida, as pessoas, os dramas diários (planetários e pessoais). Tento observar o mundo com olhos de magia e isso vai me dando aberturas para letras, idéias e conceitos. E claro, ver um Antonioni, um Glauber, ler um Borges, Pessoa ou um Dante é uma forma de celebrar a vida e abrir as possibilidades de visões e sensibilidades.

7) Você já se relacionou com a música através da pesquisa acadêmica e da profissionalização artística como intérprete e compositora. Quais seriam as semelhanças e diferenças nestas duas áreas entre a Europa e o Brasil?

A academia é academia em qualquer lugar do mundo, carrega seu charme, sua faísca da curiosidade e seu tédio… em qualquer lugar. Por eu ter estudado um tema ligado à Europa (minha tese de doutorado é sobre ópera barroca veneziana) me senti privilegiada em poder estudar isso no lugar de origem, com professores que vivem deste repertório e destes pensamentos, e tendo acesso às grandes bibliotecas, aos manuscritos, aos livros antigos.

Estudei também em um conservatório clássico europeu (na Holanda, em Haia) e vivi um pouco da rígida e maravilhosa formação que eles proporcionavam. Realmente eles têm grandes mestres e a sorte de terem acesso a coisas raras e muito ricas, mas os grandes talentos que vi nascer ali eram quase todos de países pobres, eram pessoas que agarravam com unhas e dentes a possibilidade de estar ali, que faziam faxina de noite para se sustentar e que de dia tocavam e cantavam com alma e coração. Então o que me parece é que realmente uma formação de qualidade é tudo para um artista, mas se ele não tem por quê chorar, por quê rir, por quê sonhar, não vale muito e não toca realmente os outros.

8 ) Theodor Adorno, referência quando pensamos sobre arte e cultura, afirmou o seguinte: “Na era da opressão social universal, apenas nos traços do humilhado e esmagado indivíduo vive a imagem da liberdade contra a sociedade. […] Concretamente, a liberdade se dá nas formas cambiantes da repressão: na resistência contra elas. Tanta liberdade da vontade havia quantas eram as pessoas que queriam libertar-se”. A tensão entre catarse e resistência na arte ainda é um dilema para pesquisadores e artistas. Pensando no trabalho ao qual te dedicas no Centro de Referência da Diversidade, tu acreditas no papel da música como um meio de exercitar a liberdade e superar ou amenizar as opressões sociais e os preconceitos culturais?

Acredito muito! Meu trabalho ali dentro se baseia no amor e na crença que tenho de que as artes podem ser um caminho em direção à dignidade e justiça social. Não espero que ninguém ali vire artista (se isto acontecer será, é claro, maravilhoso), mas torço e sonho que estas pessoas sejam acolhidas pela sociedade, que batalhem pela própria história e dignidade e que a música seja um dos instrumentos para esta transformação. Tento aproximar meus alunos de um universo que, a principio, é reservado às elites, que é negado a eles. É um primeiro passo para uma integração em vários níveis: social, espiritual, artístico. [Confira abaixo a reportagem da Revista Trip sobre o assunto.]

9) Quais são teus novos projetos musicais? Há previsão de um novo disco?

Tenho um novo disco na cabeça, quase todo pronto e à espera de uma possibilidade para vir ao mundo. Fora isso, estou cantando e fazendo shows e encontros musicais importantes para mim. Estou também traduzindo as cartas de Claudio Monteverdi, que devem sair em breve pela mesma editora que lançou minha tradução do “Teatro à Moda” do Benedetto Marcello. É um trabalho que tem me tocado muito, estou acompanhando os passos de um grande homem, de um dos maiores criadores musicais que conheço e observando esta figura que é o pai do barroco.

10)  Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Que a música seja sempre maior que nós mesmos, que ela seja grande, universal e esparsa!

[Abaixo um trecho do excelente programa Ensaio (do Fernando Faro da TV Cultura), com Ligiana]

 

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