Hoje o Música Esparsa, em parceria com o blog Memórias do Chico, traz uma entrevista exclusiva com a cantora argentina Karina Beorlegui, que dedica sua carreira artística a cantar tangos e fados belíssimos. Mencionada aqui no blog na entrevista concedida pelo 34 Puñaladas, a artista gentilmente aceitou responder algumas perguntas sobre sua carreira e sobre seus novos projetos. Para isso, eu e meu amigo Chico Cougo elaboramos algumas questões que contribuíssem para mediar a relação do público brasileiro com esta maravilhosa intérprete argentina.

Karina apresenta com Los Primos Gabino, dia 18 de fevereiro no La Trastienda Club, o show “Tango, fado, música de otros puertos…“, que apresentará um espetáculo centrado nas relações entre diversos portos e culturas a partir dos dois genêros musicais mais representativos da história portuária: o fado e o tango.

Karina já lançou dois discos: o primeiro, Caprichosa (independente, 2003), traz como destaques a faixa-título, fado composto por Froilán Aguilar e eternizado na voz de Carlos Gardel e a valsa Parece mentira, de Francisco Canaro e Homero Manzi, muito conhecida na voz de Nelly Omar, que parece ser uma das grandes referências de Beorlegui.

No segundo álbum de sua carreira, Mañana zarpa un barco (Acqua Records, 2008), Karina fez uma excelente parceria com os três guitarreros Los Primos Gabino e apresentou um ótimo repertório, cantando inclusive em português os fados Uma casa portuguesa (Artur Fonseca, Reinaldo Ferreira e V. M. Sequeira), Amor em casa (Alain Oulman) e Barco negro (David Mourão Ferreira, Caco Velho e Piratini). Outros destaques são os tangos Martírio (de Enrique Discépolo) e Amores de estudiante (Le Pera, Gardel e Battisttela), além da faixa-título composta pelos grandes Homero Manzi e Lucio Demare.

Aproveitem, portanto, essa oportunidade de conhecer esta incrível intérprete que é uma das mais destacadas da cena contemporânea da música argentina. Para mais informações acessem o site de Karina Beorlegui.

Saudações musicais!

ICARO BITTENCOURT – Faça uma pequena apresentação de sua trajetória artística para o público brasileiro:

KARINA BEORLEGUI: Defino-me como portenha, cantora e atriz. Filha de pais atores de cinema, teatro e TV, me criei entre roteiros e bastidores. Meu pai sempre teve amor pela música e na minha casa formavam-se grandes tertúlias nas quais me colocavam para cantar blues e temas de Moris, Janis Joplin e Beatles. No tango comecei profissionalmente quando Alejandro Dolina me converteu na co-protagonista Laura, em sua opereta Lo que me costó el amor de Laura. Eu já havia trabalhado junto ao grupo de teatro Los Macocos no Teatro Municipal Gal. San Martín e antes em várias obras de teatro underground, inclusive em um monólogo de humor. A partir daí não parei de investigar e me apaixonar por cantar tango e fado português, que já formavam parte de minha discoteca caseira e sempre me pareceram irmãos.

IB – Escreva acerca das possíveis relações entre o tango e o fado no que se refere à interpretação, harmonia e poesia das canções:

KB: O tango e o fado nasceram para a mesma época nos distintos portos; têm esse ar arrabalero, das ruas suburbanas da cidade portuária. Historicamente, eles têm muitas coincidências nas correntes imigratórias, algo que está plasmado em suas letras de alto conteúdo existencial e poético. Quanto à música, há finais e cadências em comum, mas a marcação base é diferente, ainda que soem tão nostálgicos… Outra semelhança – ou coincidência – é que o trio de guitarras gardeliano e a base de formação do fado são iguais e característicos, salvo pela guitarra portuguesa, de 12 cordas, que é o símbolo instrumental do fado. Mas ainda há muito que descobrir sobre essa relação entre fado e tango, e a isso estamos nos dedicando.

 

Mañana zarpa un barco (2008)

IB: Em seu último álbum, “Mañana zarpa un barco”, assim como no show do clube La Trastienda a imagem do porto é bastante significativa. Que sentidos essa metáfora portuária imprime nesta combinação que mescla tango, fado e outros ritmos que você promove?

KB: Agora, 18 de fevereiro, em La Trastienda (Buenos Aires), com Los primos Gabino estrearemos um novo show com tango, fado e outros “portos” que se vinculam às suas origens, com a imagem de que todas as águas desembocam em uma mesma água. Há um DNA nas músicas de porto, como se o vínculo entre elas fosse imperceptível… Como em Cabo Verde ou Brasil que tem o carnaval em comum. E Lenine, Chico Buarque, que fizeram uma homenagem ao fado várias vezes. Faremos o fado tropical, por exemplo. A mistura que promovemos é natural em nós, porque nascemos em um lugar onde os rostos que vemos são uma combinação de diferentes raças e cores. Sabendo de onde viemos, investigando as raízes musicais, saberemos onde estamos para voltar a ter nossa própria identidade.

CHICO COUGO: Pertences a uma nova geração do tango. Como vês o movimento que busca dar uma nova face ao ritmo? Que importância o retorno das guitarras como fundamento do tango tem neste processo?

KB: Sempre gostei das guitarras porque, como contei antes, meu pai tocava canções com guitarra e eu cantava. Elas me são familiares e, além disso, para uma dama fica melhor, dá uma contenção especial estar rodeada por um trio de guitarras. Da mesma forma, os sons que incorporamos se rompem com o tradicional, ainda que sejam igualmente portuários. Mas agora também teremos violinos, acordeom e percussão, que sempre aparecem em algum momento de meus discos.

IB: Você poderia comparar a recepção do tango em Portugal (ou na Europa como um todo) com a recepção do fado na Argentina? Quais são as semelhanças e as diferenças entre os dois cenários?

KB: Não sei como está o fado ultimamente na Europa, porque faz dois anos que não viajo e tenho trabalho por aqui. Porém, seguramente, o gênero se difunde e é conhecido muito mais que por aqui, já que Portugal faz parte daquele continente e, por fazer parte da Comunidade Européia, tudo se globaliza mais; é natural que seja assim. No entanto, na Argentina, recém agora se está começando a conhecer mais do fado, até porque, há algum tempo já, uma ou duas vezes por ano algum fadista apresenta-se no país. Contudo, as pessoas que prestigiam são principalmente da elite cultural ou fãs de sempre do fado, como eu. Aqui, quase ninguém sabe o que é o fado. A comunidade portuguesa na Argentina está começando a ter um impulso maior através das novas gerações, mas ficou por muito tempo retraída nos espaços onde se assentou. Agora a situação está se modificando. O tango já é diferente, por que a dança é mundialmente famosa. Entretanto, não se pode comparar: a dança e a música ao vivo são duas coisas diferentes. Em Portugal, há anos existem milongas, organizadas por argentinos que viajam pelo mundo e vivem em outros países. Um dançarino de tango tem mais oportunidades no exterior do que aqui, ao contrário do cantor.

IB: Qual é a contribuição dos Primos Gabino para esta fusão entre o tango e o fado que interpretas?

KB: Permita-me dizer que não é uma fusão. Tratamos de dar espaço para cada gênero à medida que o interpretamos; apenas damos um novo olhar a eles e os Primos Gabino fazem uma sonoridade que não é exatamente tradicional para nenhum dos dois gêneros, característica que é muito importante para expressar um som parelho, sustentando muito bem minha interpretação. Somos uma equipe de trabalho. Trabalhamos desde a idéia e o repertório; a partir disto fazemos logo os arranjos, levando em conta também minha intuição ou necessidade interpretativa.

 

Caprichosa (2003)

CC: No ano de 2003, você gravou o fado “Caprichosa”, de autoria do uruguaio Froilán Aguilar (irmão de José María Aguilar, conhecido guitarrista). Esta canção foi primeiramente cantada por Gardel, em 1930. Desde então, ela figura no hall de êxitos secundários do Morocho. De onde veio a idéia de resgatar este tema?

KB: Caprichosa tem uma história muito linda. Um fã que sempre ouvia a canção como clássica e moderna me enviou por correio, do sul da Patagônia. Ele me disse “- Se cantas fado tens que cantar o fado que cantava Gardel!”. Escutei o tema e a reinterpretamos, fazendo uma releitura mais feminina e atual. Agora é um de meus carros-chefe, um hit! (risos). De fato, a canção me encantou tanto que o meu primeiro disco levou o nome desta música, até porque era simpático para me definir (risos).

CC: Como te sentes aproximando tua obra dos dois maiores símbolos do tango e do fado, Carlos Gardel e Amália Rodrigues?

KB: Sinto-me em comunicação com eles, totalmente conectada. Às vezes sinto emoção ao ensaiar em minha casa, ou ao redescobrir suas canções. Daí desperto um dia pensando em um clássico deles, o ponho a tocar e me arrepio, concluindo que devo cantá-lo – e logo comprovamos que estou certa! Assim é o meu repertório e assim escolhi tudo o que vão escutar em La Trastienda e no próximo disco, tudo muito intuitivo.

CC: Em teu segundo disco há algumas canções interpretadas em português. Que tamanho tem o desafio de cantar em outra língua?

KB: É muito difícil, porque o português de Portugal não tem nada que ver ao vizinho do Brasil. Custa-me. Digo sempre: desculpe meu português. Terei que viver um tempo por aí para ver se me impregna a língua!

CC: Quais são teus novos projetos? Tens planos de vir ao Brasil?

KB: Por enquanto, tenho os shows em La Trastienda e estou gravando um disco em estúdio. Depois, faremos uma homenagem à Revolução dos Cravos de Portugal em abril, no Teatro Alvear. E na segunda metade do ano, o Fado-Tango Club, no CAFF (Club Atlético Fernandez Fierro), ciclo que cumprirá três anos! Depois, Deus dirá… Oxalá viajemos ao Brasil. Estamos esperando um convite de algum contato. Estamos abertos a visitá-los com todo gosto! São vizinhos, irmãos… Tomara que seja em breve!

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