No início de 2011, a cantora portuguesa Cristina Branco lançou seu décimo segundo álbum, intitulado Não há só Tangos em Paris (na edição portuguesa). No disco for export, com previsão de lançamento para abril, o nome ficou como Fado Tango, deixando evidente o tom das canções que fazem parte do repertório do substituto do excelente Kronos (2009).

Aproveitando esse momento especial, a intérprete portuguesa aceitou conversar com o Música Esparsa sobre o álbum e ainda sobre sua trajetória artística e sua relação com a música brasileira.

Em 2009 escrevi alguns comentários sobre a discografia da artista, que se destaca pela combinação de quantidade (incluindo o próximo são 12 discos em 15 anos de carreira) com qualidade. Os álbuns, sempre vinculados a uma temática específica (seja o tempo, as viagens, o amor físico ou mesmo homenagens à Amália Rodrigues e Zeca Afonso) transbordam interpretações emocionantes e repertórios de alto nível.

Neste Não há só Tangos em Paris acontece uma viagem musical entre Lisboa, Paris e Buenos Aires, combinando tangos, fados, milongas e boleros e apostando na sinergia entre bandoneón, piano e guitarra portuguesa. É o fado de Lisboa e o tango de Buenos Aires que sofrem uma síntese cosmopolita na capital francesa. A prória trajetória artística de Cristina Branco (que começou sua carreira na Holanda), marcada pela divulgação da sua música por diversos países europeus, dá sentido para esse “transatlântico musical” que caracteriza o álbum.

Entre os instrumentistas que formam a base do disco encontramos os excelentes Bernado Couto (guitarra portuguesa), Bernardo Moreira (Contrabaixo), Carlos Manuel Proença (viola), João Paulo Esteves da Silva (piano) e o inigualável Ricardo Dias (acordeón).

No grupo de compositores das letras, encontramos Antônio Lobo Antunes, Mário Laginha, Miguel Farias, Vasco Graça Moura e até mesmo Charles Baudelaire, com seu poema Invitation au Voyage. A faixa-título, que vocês podem conferir no vídeo abaixo, é de autoria de Pedro da Silva Martins (do grupo Deolinda).

Saudações musicais!

Desde sua apresentação na Holanda em 1996 até a preparação deste Não há só tangos em Paris (2011) que mudanças ocorreram na recepção da sua música em Portugal e nos outros países? Possui informações sobre a recepção de seus álbuns na América Latina e Brasil?

Claro que aconteceu muita coisa, eu mudei, o mercado e o mundo também, isso faz girar as opiniões, a concepção que fazemos das coisas e sobretudo, crescer, eu e o público. Sobre mim e já agora sobre o Fado também, sabe-se mais qualquer coisa, no fundo, Portugal passou a aceitar melhor a minha música e a respeitá-la como sua.

No álbum a ser lançado em breve, Não há só tangos em Paris, as trocas culturais que permeiam as canções se deslocam no eixo entre Buenos Aires, Lisboa e Paris. Qual a importância destas cidades e da cultura que elas agregam na tua trajetória artística?

Conheço um pouco todas elas e nunca o suficiente para me apoderar de alguma. A nenhuma posso chamar minha e têm todas o charme de intemporal senhora experiente e misteriosa. No meu caminho são rituais de passagem, cais de partidas e chegadas (Paris ou Marselha, por Paris não ter um cais), de sensualidade vincada em cada esquina, que têm uma música própria que se expressa nos corpos dos que passam e que se colam aos turistas, que as levam no peito para casa para nunca mais se libertarem, como se fossem doenças…não se esquecem de nós e nós estamos inexoravelmente presos, vítimas de tanta luxúria, de tanta saudade! Enquanto observadora, canto-as e desfaço novelos de encontros e possíveis desencontros num imaginário transatlântico onde o Fado e o Tango trocam olhares.

Carlos Gardel chegou a cantar fados, como o famoso Caprichosa, e Amália Rodrigues cantarolava tangos do zorzal na sua juventude. Para além dessas coincidências entre os dois maiores intérpretes destes gêneros musicais, que aproximações você enxerga entre os dois estilos? E quais são outros ritmos presentes no álbum que fazem parte da proposta sonora das canções do repertório?

Coincidências não faltam, basta ouvir alguns tangos e logo trauteamos um fado! De resto, é a minha música, a sonoridade de sempre, mesmo o Tango aqui, assume os trejeitos de música universal…pode ser que seja um Fado? Ou um Fado que poderia ser um Tango?

A cantora argentina Karina Beorlegui lançou dois álbuns (Caprichosa, 2003 e Mañana zarpa un barco, 2008) promovendo também um diálogo entre tango e fado. No último disco, o nome tenta dar conta dos “ares portuários” dos dois estilos. Neste seu próximo disco, tu já escreveste como ele pode ser também um “convite à viagem” (como no poema de Charles Baudelaire) bem como um disco de memórias, referências importantes quando falamos de Fado e Tango e quando pensamos nas “raízes portuárias” destes dois estilos. Comente um pouco sobre esses aspectos.

A viagem é um processo inerente ao meu trabalho, é natural que a evoque quase obsessivamente, afinal, é o que nos afasta daqueles amamos. Há também uma confessa dualidade, uma atracção pelo indizível, uma tentativa de nomear este amor inominável pelo canto e a dor rasgada da separação.

Esta é a minha viagem também e porque não o relato mais ou menos enfatizado dos que tiveram que partir?

Qual a origem de sua relação com a música brasileira, já que gravou versões de músicas daqui, como O meu amor (Chico Buarque) e Soneto da separação (Vinicius de Moraes/Antônio Carlos Jobim)? Do que conheces, quais são tuas preferências na música brasileira?

A origem está nos LP’s na casa dos meus pais, e a minha preferência é vasta tal é a força da música brasileira. Pixinguinha, Elis Regina, Chico Buarque, Adriana Calcanhoto (just to name a few!)

Quais seriam as características de tua interpretação do fado, já que esta parece ser influenciada pela questão de divulgares a música portuguesa para outros países? Como seria, portanto, efetuares uma abordagem original de uma tradição (o fado) e divulgá-la sem sucumbir a uma imagem “aprisionadora” de fadista?

Naturalmente, o que sucedeu, o que acontece todos os dias no meu canto, no palco, é que o que ouço e vejo, ou como (pela mesma ordem de ideias, em exemplo) condiciona o que sou ou o que canto. Não acredito em indivíduos estanques, incapazes de se “adulterarem”, de se corromperem, seja no amor, na ideologia, no credo ou na mesa. E isso eu já faço, não creio que passe uma imagem tradicionalista ou conservadora da música do meu país, não transporto ícones do Fado comigo e o meu discurso é universalista e despojado. A minha música é já e desde sempre por força das minhas escolhas sonoras, do meu apetite musical abrangente e sabe a música urbana e cosmopolita do séc.XXI.

Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

A música é o alimento da alma, o mote para “sentir”. Como cada vez sentimos menos, recomendo que se “coma” muita música como terapêutica dos tempos modernos. Recomendação: nada de versões light, vão pela música mais gourmet, sem medo de pecar!

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