A alma é o segredo do negócio.

Zeca Baleiro (Balada do Asfalto)

Em melancolia a minha alma me sorriu e eu me vi feliz.

Vitor Ramil (Milonga de Sete Cidades)

Depois de muitos meses, retomo a série de postagens sobre a discografia de Zeca Baleiro e Vitor Ramil com o 5º texto dessa empreitada, sobre os álbuns Baladas do Asfalto e Outros Blues (2005), do Zeca e Ramilonga (1998), do Vitor.

Depois do lançamento de Pet Shop Mundo Cão, Zeca Baleiro fez uma parceria com o cantor Fagner, que resultou em um disco de belíssimas canções em 2003 (que será comentado nos extras dessa série discográfica). Assim, durante os 3 anos de intervalo entre seus discos autorais, o maranhense reuniu um conjunto de preciosas baladas e “canções de asfalto” que não só expressam as viagens constantes do músico, mas mesmo o sentido “on the road” de nossas vidas e relacionamentos.

Além das composições inteiramente autorais, o disco traz ótimas parcerias com Fernando Abreu, Fausto Nilo, Tuco Marcondes e até um poema de Murilo Mendes (Mulher Amada), “recitado musicalmente” de forma primorosa. Um destaque importante é que a faixa-título retoma a vinheta da canção Brigitte Bardot, última música do álbum Líricas (2000), que traz em um de seus versos a epígrafe do início deste post.

As composições abordam desde amores felizes até as dificuldades de quem vê o amor como uma “pedra no abismo/ a meio passo entre o mal e o bem”. Além disso, traduções poéticas das perdas (humanas ou da inspiração) e o dilema entre alma e amor carnal povoam o repertório de “baladas blues” do Baleiro.

Interessante pensar que quando escutei esse disco, eu mesmo estava consolidando minha experiência de vida “far from home” e descobrindo os aspectos positivos, negativos e inclassificáveis também da autonomia individual. Não preciso nem dizer que, como sempre, as ideias do compositor Zeca me ajudaram a expressar pela fruição artística as emoções desta época. Um grande exemplo disso é a canção Cigarro:

Se em Baladas do Asfalto, a alma desempenha um papel central nas canções de Zeca, o cantor e compositor gaúcho Vitor Ramil também foi fundo na elaboração artística de uma “alma sulina”, através de suas milongas do álbum seminal Ramilonga (1998).

No auge de sua discografia e do seu trabalho autoral, Vitor deixou explícita musicalmente sua proposta ensaística materializada no texto “A Estética do Frio”, no qual o autor lança as bases de uma reflexão teórica sobre a arte, especialmente a musical, que poderia dar voz e melodia às peculiaridades universais do espaço-tempo pampeano.

Na faixa Milonga de Sete Cidades, o compositor vai direto ao ponto e caracteriza a alma com a qual se identifica (tema da epígrafe deste post e deste blog, para quem ainda não notou) a partir de uma melancolia que provoca felicidade. Mas a melancolia é acompanhada por outras “seis cidades”: Rigor, Profundidade, Clareza, Concisão, Pureza e Leveza, produzindo assim um universo artístico próprio do compositor, que ele bem sinaliza quando na faixa-título canta “também eu me transformo numa canção”.

Passeando por poetas como João da Cunha Vargas e Juca Ruivo, que acentuam o tom regionalista das canções, Vitor consegue conectar essa alma milongueira a dilemas universais e às experiências urbanas, fazendo-a ficar “solta no tempo” e mesmo afinada com poetas de outras plagas, como Fernando Pessoa. Assim, a “alma sulina” pode ser gaúcha (sem gauchismos), brasileira, platina e universal ao mesmo tempo.

Um grande destaque deste disco é que as milongas são musicalmente riquíssimas, principalmente se pensarmos nos arranjos que são executados por piano, baixo e até mesmo um sitar. Logo fica claro para o ouvinte que, portanto, o rigor pode muito bem ser acompanhado pela inventividade.

Boa parte dessa demora em atualizar os textos sobre a discografia de Vitor veio do meu temor em escrever sobre um álbum importantíssimo como Ramilonga para minha formação como ouvinte e para a minha sensibilidade artística. Mas lembrei que nem sempre precisamos escrever para que nos entendam e, portanto, escutando com atenção a faixa-título do disco, o que quero dizer será bem cantarolado e dedilhado por ali.

Saudações musicais!

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