Até que enfim surge mais um capítulo da série de longa duração deste blog que aborda a discografia dos cantores e compositores Zeca Baleiro e Vitor Ramil. Nos comentários de hoje, os álbuns O Coração do Homem-Bomba, Vol. 1 (2008) do Zeca e Tambong (2000), do Vitor.

Depois de lançar uma versão ao vivo de Baladas do Asfalto e Outros Blues em 2006, dois anos depois Zeca Baleiro apresentou um disco duplo (cujas partes foram lançadas em datas distintas), intitulado O Coração do Homem-Bomba. No volume 1, do qual se ocupa essa postagem, 13 canções (com exceção de Alma não tem cor do André Abujamra e de Bola Dividida do Luiz Ayrão, todas do Baleiro, sozinho ou em parceira) expressam a ironia típica do compositor, que versa sobre os relacionamentos amorosos e sobre as desigualdades sociais e de status de maneira muito criativa.

Por exemplo, em Você não liga pra mim, Zeca canta a decepção originada na rejeição amorosa, incluindo-se no destino de muitos frustrados: “eu ligo o rádio pra lhe esquecer/mas tudo ali me lembra você/ eu também vou fazer/canções de amor pra vender/ igual a mim quanto trouxa que tem/ que se apaixona e chora também/você quer ser o meu mal/mas sabe que podia ser meu bem“.

Mas também há o tormento amoroso da companheira que pede muitos presentes e exige do parceiro uma performance financeira e consumista maior do que é possível: “aí eu lhe disse ó nega quero que me entenda/até já botei a minha alma à venda/mas não há ninguém que lhe pague o preço“.

No entanto, as dificuldades impostas pela sociedade de consumo não atrapalham apenas os romances, mas interferem em todos os aspectos da vida desse malandro do século XXI, que acaba dando um jeito de se conformar com a sua fatia da riqueza social: “se tiver o que comer não precisa caviar/se faltar molho rosé no dendê vou me acabar/se não tem moet chandon cachaça vai apanhar”. 

A partir desses exemplos, o repertório de O Coração do Homem-Bomba mostra aquela que é, para mim, uma das principais características do letrista Zeca Baleiro: a de ser um dos melhores cancioneiros/cronistas do mundo contemporâneo. Característica presente também na ótima Toca Raul, na qual Baleiro expressa sua indignação bem humorada em relação aos “sem noção” que pedem pra os artistas tocarem Raul Seixas em qualquer show na face da terra:

Em 2000, Vitor Ramil lançou Tambong, que também tem dois volumes, um com canções em português e outro com as versões em espanhol. Produzido pelo excelente Pedro Aznar o álbum de 14 canções é quase por inteiro um conjunto de hits da obra ramiliana, seja pela releitura de canções como Estrela, estrela e Foi no mês que vem, seja pela sensibilidade de composições como Espaço e Valérie.

Apenas após 3 anos do ícone Ramilonga, Vitor deixou claro que não ia ser apenas o compositor da “estética do frio”, mas que também seria um dos principais compositores da música brasileira dos últimos anos, com letras diversificadas sobre romances, dilemas existencias e mesmo de homenagens a filmes, como aquela feita em Grama Verde para Blow-Up (1966) do Michelangelo Antonioni.

Neste disco, Vitor também arrisca compondo em inglês. Quiet Music é, além de muito bonita, uma aparente (porque pode ser apenas aos meus ouvidos) antecipação do clima intimista do álbum Longes (2004), tema da nossa próxima postagem dessa série. Além disso, em Espaço, o compositor consegue explorar aquelas contradições que só a apropriação subjetiva e poética da realidade é capaz de fazer: “Quarto de não dormir/Sala de não estar/Porta de não abrir/Pátio de sufocar”.

Em Tambong, outra característica de Ramil se torna evidente. Não bastasse a versão estupenda de Joey (Bob Dylan) a partir da “transcriação” de Joquim, do álbum Tango, Vitor consolidou-se aqui como talvez o artista que consegue fazer as melhores versões baseadas em Dylan no Brasil, com as fantásticas Só você manda em você (baseada em You are a big girl now) e Um dia você vai servir a alguém (baseada em Gotta serve somebody), que vocês podem conferir abaixo com a participação especial de Lenine.

Saudações musicais!

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