Nascido em Sevilha no ano de 1836, o poeta Gustavo Adolfo Bécquer (acima, em pintura do irmão Valeriano Bécquer) teve sua obra reconhecida principalmente após a sua morte, com a publicação póstuma de muitos dos seus escritos. Entre eles, encontra-se o poema Volverán las oscuras golondrinas (1868), parte de sua obra mais conhecida Rimas y Leyendas, que se tornou um clássico do repertório do cancioneiro hispânico.

Representante do chamado “romantismo tardio”, pois o caráter romântico de seus escritos fazia parte de uma época já considerada realista na periodização literária, Bécquer (que adotou esse sobrenome de seus antepassados, comerciantes de origem flamenga) desenvolveu artisticamente a tensão típica do contexto de meados do século XIX: as relações entre sonho e razão;  entre palavras e idéias; entre o amor idealizado e o carnal.

De acordo com Jesús Rubio Jiménez, Gustavo foi, ao lado de Rosalía de Castro, um marco da poesia contemporânea espanhola e, mesmo que tenha falecido jovem e relativamente desconhecido (o que reforçou a sua recepção posterior), teve uma produção não só poética, mas também narrativa, bastante polivalente e fortemente vinculada ao mundo artístico que se desenvolvia na Espanha na época de sua modernização.

Um exemplo disso é que, além de sua relação com a pintura (herança de família), dedicou muitos dos seus interesses à música, como a ópera e a zarzuela, citando, inclusive, em seus artigos nomes como Donizetti, Verdi e Rossini. Não seria, portanto, apenas um acaso do destino que uma de suas Rimas [38, LIII] fosse interpretada por diversos músicos (mesmo que populares), como Paco Ibañez e Nacha Guevara. No vídeo abaixo, vocês podem escutá-la na emocionante versão de Bïa Krieger, retirada do seu álbum em parceria com Yves Desrosiers lançado em 2011.

Além disso, é claro, acompanhem o poema transcrito abaixo e também uma pequena análise retirada da Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes (que vale uma vistia urgente), que enriquece ainda mais nossa sensibilidade em relação ao poema e à canção.

Saudações musicais… e poéticas!

“Estamos ante una rima amorosa, pero de amor desengañado. La construcción del poema se basa en el paralelismo de dos series alternas, una afirmativa y otra negativa: volverán / pero… no volverán. En última instancia, el tema amoroso desemboca en una reflexión sobre el tiempo y sus estragos. La naturaleza es cíclica y todo vuelve, vuelven las golondrinas, vuelven las madreselvas…, pero aquellas golondrinas vividas, las concretas, las asociadas a nuestra experiencia, «ésas… ¡no volverán!» Así, cada regreso trae un nuevo desengaño. De igual manera, los versos vuelven sobre sí mismos en esa estructura paralelística”.

Volverán las oscuras golondrinas
en tu balcón sus nidos a colgar,
y otra vez con el ala a sus cristales
jugando llamarán.

Pero aquellas que el vuelo refrenaban
tu hermosura y mi dicha a contemplar,
aquellas que aprendieron nuestros nombres…
ésas… ¡no volverán!

Volverán las tupidas madreselvas
de tu jardín las tapias a escalar,
y otra vez a la tarde aún más hermosas
sus flores se abrirán.

Pero aquellas cuajadas de rocío
cuyas gotas mirábamos temblar
y caer como lágrimas del día…
ésas… ¡no volverán!

Volverán del amor en tus oídos
las palabras ardientes a sonar;
tu corazón de su profundo sueño
tal vez despertará.

Pero mudo y absorto y de rodillas,
como se adora a Dios ante su altar,
como yo te he querido…, desengáñate,
nadie así te amará.

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