Bastaram uma hora e 15 minutos para o show do álbum Longe de Onde, da Karina Buhr, deixar extasiado o público que compareceu ao Bar Opinião na noite passada (30 de janeiro) em Porto Alegre.

Naquela ocasião intensa protagonizada por músicos de incrível competência e criatividade, presenciou-se a performance impecável da banda formada, na parte de trás do palco, por Guizado (trompete), Mau (baixo), Bruno Buarque (bateria) e André Lima (teclado) , enquanto na parte da frente, os guitarristas Edgard Scandurra e Fernando Catatau e a própria Karina avançavam em direção ao público com uma performance enérgica. Tudo isso com uma intensidade e uma sinergia musical inéditas aos meus olhos.

O repertório, que incluiu as 11 canções de Longe de Onde (2011) e mais 6 músicas de Eu menti pra você (2010), começou a ser destrinchado com Sem fazer ideia e atingiu pontos altíssimos (para não citar todas as músicas) em Guitarristas de Copacabana, Cadáver, Nassíria e Najaf (no momento de apresentação da banda) e na “voz e guitarra” de Amor Brando. Além disso, o encerramento do bis com Ciranda do Incentivo foi apoteótico e muita gente deve ter saído com a sensação de “Puxa vida, que privilégio ter assistido a tudo isso!”

Mas agora uma pausa: o leitor talvez esteja pensando que exagero nos superlativos para descrever o espetáculo de ontem: pois bem, se você não estava lá pode ser dificil de acreditar, mas vou tentar ajudar mostrando aqui algumas canções de Karina e uma entrevista que ela gentilmente cedeu para o Música Esparsa. E se você não se convencer ainda, bom, me desculpe, mas é porque você não estava lá ontem para assistir.

Saudações musicais!

Crédito: Jorge Bispo
1) A referência espacial/geográfica expressada no título “Longe de Onde” indica que tipo de características da tua arte e das músicas que fazem parte deste novo álbum?

Na verdade não é um título fechado no sentido geográfico, pelo contrário, ele tira da geografia o centro da importância. Acho que indica até uma diluição da geografia.

2) Ocasionalmente li algumas opiniões tuas sobre os rótulos de “música regional”, “país de cantoras”, “nova geração da MPB” e achei muito interessantes. O que você poderia comentar mais sobre os problemas deste tipo de apropriação esquemátca que se faz da produção musical aqui no Brasil?

É assunto pra muitas e muitas linhas…basicamente se trata de uma visão paternalista sobre o nordeste e outras regiões, que não o sudeste e, no caso das “cantoras”, se trata de um machismo colossal.

3) O comentário de Ronaldo Evangelista sobre “Longe de Onde” refere-se ao teu trabalho dessa maneira: “riqueza de interpretações, insinuações, declarações, provocações, despadronizações”. Muito se tem pensado, em diversos aspectos da cultura contemporânea, sobre essa “despadronização”, na tentativa de fazer uma arte ou mesmo uma análise social que não sucumba a estereótipos e explore a pluralidade de olhares, sensações e experiências. No entanto, muitas vezes esse princípio aparece apenas como um postulado, sem ter uma expressão concreta e diferenciada no trabalho artístico em geral. Como você percebe nas suas composições e na sua arte os sinais concretos dessa criação rica e multifacetada?

No meu jeito de escrever e de fazer música nada disso entra na hora de botar a mão na massa. Eu simplesmente escrevo e faço música, sem pensar nessas coisas todas. Eu analiso essas coisas num outro momento e acho que pra ser de verdade, pra ser profundo, tem que se ser mais livre na hora do feitio.

O que faço nas minhas composições, é o que sinto, não faço pensando em despadronizar, em revolucionar. Se isso acontecer, ótimo, mas eu paralisaria diante dessa obrigação.

4) Na música “Ciranda do Incentivo”, do álbum anterior, você canta: “Mas eu não sei negociar/ Eu só sei no máximo tocar meu tamborzinho e olhe lá”. Quais seriam os aspectos, na sua opinião, mais perniciosos atualmente da relação entre mercado fonográfico, indústria cultural e políticas públicas para a cultura?

O mais grave é que o que é mais valorizado em todas as instâncias é o dinheiro dos negócios dos poderes envolvidos e, de uma maneira bastante significativa, para os poderes envolvidos. O modelo é esse e é difícil escapar disso. Não é impossível, eu mesmo faço das tripas pra trilhar outros caminhos. A arte mesmo e o artista acabam, muitas vezes,  virando coadjuvantes. Existe muito vício ruim nas relações entre essas camadas todas, sem falar que isso de arte X comércio sempre foi e será assunto delicado, conflituoso e contraditório. Requer paciência e certeza do que se quer realmente, porque os obstáculos são muitos e a maneira de driblá-los ou exterminá-los, pelo menos nas suas relações de trabalho, é que vai fazer a diferença para um e para o todo. Há vício nos governos todos, nas secretarias e fundações de cultura, nas empresas e marcas, nos artistas “estabelecidos”, no jornalismo musical, que muitas vezes põe o foco em links que não se sustentam, passando a valorizar assim o que não é o que importa nos trabalhos, em busca de uma suposta novidade maior ainda do que a própria novidade. É a histeria do comércio querendo sempre dominar essas relações. Mas existem forças contrárias muito fortes também. É porque você me perguntou sobre “os aspectos mais perniciosos” (risos).

5) Escolha uma música de “Eu menti pra você” e outra de “Longe de Onde” e escreva algum aspecto sobre elas para os leitores fazerem uma espécie de “audição comentada” das mesmas.

Eu não me sinto a vontade pra escrever sobre minhas músicas. Acho que o principal que tenho pra dizer sobre elas são elas mesmas. Qualquer coisa que eu falar tentando explicar, ou ressaltar algo, vou estar desrespeitando o valor delas, que é de serem ouvidas sem cartilhas, mesmo que minhas (risos).

Escolho: “Nassíria e Najaf” e “Não me ame tanto”

6) Em algumas de suas canções que falam sobre o amor é possível perceber uma sensibilidade que extrapola os clichês do  “amor eterno” e da “alma gêmea” e aborda a saudade, a padronização dos sentimentos e mesmo a autonomia dos indivíduos na relação amorosa de forma muito provocadora e sincera [escute abaixo a canção Não me ame tanto]. Na sua visão, quais mudanças nos arranjos afeitvos das últimas décadas dão sentido a esse tipo de abordagem?

Não sei. Prefiro pensar que essas letras são ficção científica, misturada com romantismos reais.

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