Inúmeras vezes, durante nossas vidas, nos deparamos com o dilema (nem sempre de forma consciente) de reproduzir as coisas que recebemos ou de transformá-las em algo diferente. No entanto, com o passar dos anos, percebemos que esse dilema se apresenta a nós de maneira ainda mais complexa, pois mesmo em uma aparente “reprodução” pode existir uma marca pessoal significativa e relativamente oculta e aquilo que muitas vezes nos mostra ser profundamente transformador esconde algumas de suas raízes e características daquilo que foi herdado.

No campo da arte, essas questões não são menos importantes e envolvem cotidianamente sujeitos coletivos e/ou individuais. Muitas vezes a discussão entre reprodução e transformação é o cerne de determinado projeto artístico que procura mostrar sua “releitura” de alguma obra ou afirmar a “originalidade” de determinada criação/composição.

No meu caso, sempre admiro aqueles artistas que conseguem, mesmo reconhecendo a influência inevitável de uma ou mais tradições musicais, criar um universo sonoro peculiar que aponta para um arranjo criativo entre influência e originalidade, entre herança e transformação. E esse aspecto percebo de forma recorrente nas composições instrumentais do violonista Rodrigo Nassif, que lançou ano passado seu terceiro álbum, intitulado O pulo do gato.

Rodrigo Nassif em apresentação no Café da Oca

Mesmo que o título deste trabalho também seja o nome da composição que abre o repertório de 10 faixas do disco, seria válido pensar também que “o pulo do gato”, isto é, aquela estratégia última de sobrevivência, aquele segredo que nos faz diferentes, é justamente o objetivo de um artista: uma marca autoral que justifica e enriquece sua trajetória, impossível de ser ensinada ou reproduzida completamente.

Dessa forma, “o pulo do gato” de Nassif apresenta-se em todas as músicas do disco, na execução impecável e criativa do seu violão e na sua capacidade cada vez mais aprimorada de fazer um “pop instrumental” de grande qualidade.

Para os leitores experimentarem um pouco do que escrevi aqui, confiram abaixo algumas palavras do instrumentista sobre seu trabalho e apreciem o tema Guaxo, no final da postagem. Escutem também mais canções de O pulo do gato aqui.

Saudações musicais!

1) Depois de 3 álbuns lançados, como tu percebes o cenário da música instrumental no Rio Grande do Sul, entre características positivas e dificuldades?

Creio que  esse nicho de público aqui no RS , é cativo e ávido ao mesmo tempo, a perspectiva é de otimismo em relação ao aumento de produção de música deste tipo.

2) Na tua trajetória como instrumentista, comente um pouco sobre o dilema de construir uma identidade própria como compositor, para além de ser um músico que executa muito bem composições e arranjos de outros artistas.

O principal fator, o que estrutura uma identidade musical é o quanto ela proporciona em experiência sensorial, em que parte ela reverbera, a partir daí tu já sabe : esse trecho de som vibra na cabeça das pessoas, esse no peito  e por aí vai….

3) Escolha uma música do álbum e faça um comentário (de análise ou com alguma curiosidade, para contribuir na audição dela pelo leitor).

Creio que a música que tem gerado mais comentários é a Guaxo : se pelo ritmo acelerado em 6/8 , pelo efeito percussivo, pela distorção da guitarra se cria uma tensão saudável no ouvinte.

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