Lane at Alchamps, Arles (1888) – Paul Gauguin

Nesse mundo cada vez mais virtualizado (que, inclusive, permite a divulgação desse texto) recorrer à sensibilidade primeva das mudanças de estações é sempre uma experiência prazerosa e diferenciada. Muitas expressões artísticas já traduziram a seu modo as quatro estações e as transformações provocadas por elas nos sentimentos, nas sensibilidades, nas relações humanas e nas visões de mundo dos indivíduos.

Não é dificil pensar nisso tudo quando, nessa época, o Outono desponta no Hemisfério Sul e sugere uma trégua ao calor e também aos ânimos exaltados e às alegrias (muitas vezes forçadas) típicas do verão. Na inauguração desses meses de hojas caídas uma canção em especial me estimulou a escrever essa postagem, ou melhor, duas canções: Le Feuilles Mortes e sua posterior versão em inglês Autumn Leaves.

Composta em 1945 por Jacques Prévert (letra) e Joseph Kosma (música), Le Feuilles Mortes utiliza a simbologia clássica do outono, as “folhas mortas”, para narrar o declínio e a finitude de uma relação amorosa que, me parece, não tem um fim trágico/traumático, mas acaba como que ao natural, seguindo o mesmo fluxo da natureza ao trocar de estação. Mesmo assim,  não é uma transformação naturalizada e esquecida, pelo contrário, deixa marcas profundas e uma nostalgia, aparentemente, infinita. No vídeo abaixo, uma das interpretações mais famosas por Yves Montand, que popularizou a música a partir do filme Les portes de la nuit (Marcel Carné, 1946).

No entanto, a força da canção não se restringiu ao mundo francófono, e ela ganhou versão em inglês já no ano de 1947 por Johnny Mercer e tornou-se um tema recorrente no repertório de muitos artistas (seja cantada ou instrumental), entre eles Nat King Cole, Edith Piaf e Frank Sinatra. E a razão para tamanho sucesso pode ser atribuída não só à musicalidade cativante da versão francesa, mas principalmente, na minha opinião, à simplicidade precisa da letra de Mercer que, com versos curtos, estimula nossa imaginação e provoca nossa imersão nessa experiência nostálgica do Outono e da finitude amorosa. Entre todas as versões em inglês da canção, uma em especial, mais recente, me faz viajar de forma incrível, já que sua cadência explora como nunca as nuances daqueles versos. Trata-se da interpretação de Eric Clapton, parte do repertório de seu penúltimo álbum, Clapton, de 2010.  Sintam-se à vontade para, no final da canção, junto com as folhas do outono, deixarem cair algumas lágrimas…

Saudações musicais!

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