Esse é um dos mistérios da arte. O encontro é um reencontro. O texto, o quadro, a música, enfim – a obra, quando genuína, autêntica e forte, ao surgir a primeira vez diante de nós, nos dá a sensação de intimidade, de pertencimento. Ela vem ocupar em nós um lugar para ela reservado há muito. É como no amor. Um re-conhecimento. Um momento de plenitude.”

(Affonso Romano de Sant’Anna)

Escutar as músicas de Vitor Ramil há tempos tornou-se para mim uma experiência de intimidade e de pertencimento. A cada dia que passa, a cada audição (concentrada ou despretensiosa) de suas canções, muito do que sinto, penso ou imagino sentir e pensar parecem ganhar uma expressão possível pela arte do cantor e compositor pelotense.

Muitas vezes já escrevi sobre o artista neste espaço, mas tendo em vista o momento emblemático do futuro lançamento de um álbum duplo que revisita canções de sua carreira, Foi no mês que vem, convidei Vitor Ramil para trazer algumas de suas próprias ideias para o conteúdo do Música Esparsa.

Assim, mesmo em meio a esse movimentado trabalho de preparação do novo álbum, o artista fez a grande gentileza de responder às questões que enviei, conseguindo inclusive sanar as dificuldades e o caráter hermético de determinadas dúvidas ainda mal lapidadas da minha parte.

Convido a todos os leitores (cativos ou eventuais) deste modesto e intermitente blog a conferir as respostas do Vitor, apreciar as músicas indicadas pelo próprio e também a contribuir com o financiamento coletivo de Foi no mês que vem AQUI.

Saudações musicais!

1) Sobre a coletânea de canções de sua carreira a ser lançada ainda este ano, você poderia comentar sobre duas músicas do repertório (já divulgadas como parte do disco) para os leitores da postagem escutarem durante ou após a leitura da entrevista?

Vitor Ramil: A resposta e Noa Noa. Se me pedissem para selecionar músicas que eu considerasse tipicamente minhas, eu começaria por elas. Para quem toca violão, as duas têm afinação preparada. Quase não toco A resposta em shows porque a afinação é muito complicada de ser preparada na hora, durante o espetáculo. Tenho que deixar um violão só para tocá-la, e nem sempre isso é possível.

2) O filósofo francês Jacques Rancière argumenta que as relações possíveis entre estética e política podem ser analisadas a partir do que ele chama de “partilha do sensível”. Citando o autor: “A estética e a política são maneiras de organizar o sensível: de dar a entender, de dar a ver, de construir a visibilidade e a inteligibilidade dos acontecimentos”. A partir disso, o regime estético das artes (conceituação que o autor pensa mais útil do que “arte moderna”) ao permitir a exploração de diferentes possibilidades de produção e apropriação do sensível estaria vinculado com uma prática política mais “democrática”, pois essa permite a convivência de pontos de vista discordantes e diversificados. Pensando nisso, você poderia imaginar na sua “Estética do Frio” algum tipo de partilha da sensibilidade que dialoga com uma modalidade específica de comportamento político?

VR: Não conheço o pensamento de Jacques Rancière, nem os elementos que me trazes são suficientes (não poderia ser diferente nesta circunstância), para que eu possa te dizer qualquer coisa que tome o autor como referência. Falo então por pura intuição da ideia. “Estética do frio” torna-se uma expressão cada vez mais abrangente à medida que se distancia do meu âmbito pessoal e ganha as ruas, mais por adesão de outras pessoas (que não só aderem, mas agregam-lhe sentido) que por um trabalho meu para difundi-la. Aliás, a expressão sempre se fez sozinha. Eu ainda nem tinha pensado em falar nela por aí e ela já tinha fugido lá de casa. Acho bom que tenha sido e continue a ser assim. E acho que talvez isso aponte para partilhas de sensibilidade que parecem existir nela (ou deveria dizer “a partir dela”?). A estética do frio é usada hoje em dia associada a arte, comportamento, moda, futebol… Acho que ela só vai dar provas de ser portadora de um sentido se sobreviver a toda a diluição. Paradoxalmente, o processo de diluição só se inicia se a ideia é portadora de sentido. Comportamento político? Qual comportamento não é político? (Atenção: não estamos falando de política partidária.) Na origem da ideia da estética do frio está uma motivação artística e outra identitária e política, que se confundem. Acho que ela, que tem se desenvolvido por mostrar-se receptiva à contribuição de outras ideias, tem contribuído, por exemplo, para que muitos brasileiros, mesmo de regiões distantes da nossa, como já me confidenciaram muitos nordestinos, nortistas ou paulistas, reflitam sobre suas próprias identidades. Isso é algo que só ajuda a dar relevo à nossa diversidade nacional. Tem acontecido algo semelhante até entre os nossos vizinhos uruguaios e argentinos. Em Portugal um jornalista me disse que a estética do frio e o disco délibáb lhe davam a sensação de estar recebendo notícias de um lugar novo no mundo. Não seria tudo isso uma “partilha do sensível”?

3) No seu livro “O Século da Canção”, Luiz Tatit afirmou: “Se o século XX tivesse proporcionado ao Brasil apenas a configuração de sua canção popular poderia talvez ser criticado por sovinice, mas nunca por mediocridade. Os cem anos foram suficientes para a criação, consolidação e disseminação de uma prática artística que, além de construir a identidade sonora do país, se pôs em sintonia com a tendência mundial de traduzir os conteúdos humanos relevantes em pequenas peças formadas de melodia e letra”. Pensando nesses dois aspectos salientados por Tatit em relação à canção brasileira (“identidade sonora” e “tradução de conteúdos humanos”) quais aspectos possíveis você destacaria sobre as características da canção no teu trabalho como compositor no que diz respeito aos temas da “identidade cultural” e da “tradução de conteúdos humanos em melodia e letra”?

VR: Não dá para separar identidade cultural e conteúdo humano. As canções ou milongas que componho, e que já soam como uma coisa só, são sempre um depoimento pessoal, explícito ou não e, ao mesmo tempo, falam do lugar do mundo de que faço parte.  Não me refiro só à temática das letras, mas à forma delas, bem como à forma musical. A ideia central da estética do frio é chegar a uma linguagem síntese, uma mistura em essência, de gêneros musicais que reconheço como formadores da minha linguagem, mas que sempre vi isolados, até como antagonistas, na nossa cena musical e em meu próprio trabalho. Busco uma linguagem que rompa a barreira dos estereótipos e fale de nós com mais propriedade (uso o “nós”, por força de expressão, porque não posso, como artista, abrir mão do contexto em que estou inserido. A rigor, estou falando de mim mesmo. Um artista que more na casa ao lado da minha pode ter, e espero que tenha, uma visão e uma busca totalmente diferentes). Falar em identidade é ter um senso de coletividade, é reconhecer uma auto-imagem compartilhada. A busca da linguagem síntese refratária aos estereótipos é a busca da expressão mais justa dessa identidade-conteúdo-humano. Quando falo em canções e milongas que já são uma coisa só, estou querendo dizer que me sinto a caminho dessa linguagem síntese, até porque esses dois gêneros já fluem como uma síntese de outros na minha produção. Harmonias, melodias, letras, interpretação… Espero que, atualmente, qualquer um desses aspectos possa, se não expressar, ao menos sugerir essa busca.

4) Um aspecto importante da tua trajetória parecer ser a formação de uma identidade musical que se fortalece independente da indústria fonográfica, como bem você já comentou em outras entrevistas. E, nessa questão, o que mais me parece louvável é que essa construção não se dá exatamente em “oposição” à indústria cultural (postura que muitas vezes acaba trazendo embutidos muitos preconceitos relacionados a termos nada consensuais como “cultura popular” e “bom gosto”), mas em um interesse focado no próprio processo criativo que, ao final, como que por características próprias, acaba não se coadunando com a sensibilidade massificada própria da indústria cultural e do entretenimento. Você pensa que essa leitura faz sentido? Quais outras nuances você destacaria, sobre o teu trabalho, dessa relação entre identidade artística, cena independente e mercado fonográfico?

VR: É uma leitura tortuosa. Se não me perdi em alguma curva, acho que faz sentido. Cruzando teu caminho a bordo de um balão, para uma visão clara e do alto, digo que eu não estaria fazendo o que faço hoje se tivesse tido apenas a opção de seguir os caminhos convencionais do mercado fonográfico. Na real, acho que não estaria sequer fazendo música. Os esquemões não gostam de mim; eu não gosto dos esquemões.

5) Aqui no “Música Esparsa” iniciei em 2009 uma série de postagens de “longa duração” sobre a tua discografia e a do Zeca Baleiro, abordadas no mesmo texto. Como deixei claro desde a primeira postagem, estabeleci um vínculo entre essas discografias baseado em uma apreciação subjetiva, que tento explicar na análise despretensiosa de cada “dupla” de discos. Assim, gostaria de saber se, para além desse caráter subjetivo da afinidade que eu estabeleci entre as composições tuas e do Zeca, você realmente encontraria algumas relações dignas de nota entre a tua trajetória e a dele e quais seriam?

VR: Acho que somos semelhantes e diferentes em tudo. Por quê? Não sei dizer. Nem mesmo as duas músicas (inéditas) que compusemos juntos me deram uma pista clara. Vou consultar tuas postagens em busca de uma resposta.

6) Conte-nos um pouco sobre a experiência artística como Barão de Satolep, citada apenas sumariamente em alguns textos sobre tua trajetória artística, mas que principalmente os admiradores mais recentes da sua arte não conhecem muito bem.

VR: Criei o personagem para participar de um dos muitos aniversários do Tangos e Tragédias, o de 10 anos, talvez. Depois disso resolvi fazer um espetáculo, Midnicht Satolep, em que o Barão comandava a primeira parte. Ele se chama Barão Vamp de Sato, mas, com o tempo, o nome Barão de Satolep, como todos o chamavam, se impôs. Era uma espécie de vampiro corcunda e mal-humorado, mas de uma afetividade indisfarçável. Cantava um repertório baseado em músicas que eu criara para os poemas podres de Paulo Seben, poeta porto-alegrense e meu vizinho na época. Era divertido fazê-lo, o público também parecia gostar, ria muito. Com ele descobri o prazer de estar no palco e, por mais estranho que pareça, de ser eu mesmo em cena. Aposentei o Barão, mas muito dele permanece no Vitor atual, pois ele era uma exacerbação de como posso ser na intimidade, ácido e divertido. Aprendi com ele a gostar de estar no palco. Aposentei-o quando determinadas piadas dele começaram a ser esperadas pelo público ou até por mim mesmo, pois a força dele estava na espontaneidade, nas piadas ou comentários que surgiam na hora, a partir da relação com a platéia. Ao mesmo tempo, eu não poderia conciliá-lo com o caminho que meu trabalho começava a tomar. Ele vive hoje em Satolep. Nos visitamos às vezes.

[Confira abaixo a aparição do Barão de Satolep no 25º aniversário do espetáculo Tangos e Tragédias, em 2009]

7) Há uns 3 anos atrás, conheci a discografia do quinteto argentino 34 Puñaladas e, para minha surpresa, encontrei a Milonga del Tiro de Gracia, na qual você faz uma participação especial como intérprete. Indique uma ou mais parcerias que fizeste com outros artistas que você pensa não ser muito conhecida pelo público em geral.

VR: Sugiro que escutem Pimble Machine, que está em O primeiro disco, de Cláudio Levitan. É uma das coisas que mais gostei de conceber e gravar. O Totonho Villeroy me disse na ocasião: “Tens que fazer um disco inteiro assim.” Tocaram comigo Fernando Pezão, Zé Natálio e Leo Henkin, que depois formariam o Papas da Língua. Ou será que o Papas já existia?

8 ) Comente um pouco sobre as características da narrativa ficcional no teu trabalho como compositor e escritor. De que maneira ela se expressa de forma similar ou diferenciada nesses dois contextos de criação?

VR: Como ficcionista sou um fingidor, finjo não ser minha a dor que deveras não sinto. Minhas ficções nos dois contextos se parecem, até mesmo quando finjo nos moldes do poeta a la Pessoa. E a forma é determinante em ambas, muitas vezes como disparadora do conteúdo.

9) Em 18 de agosto de 2008 foi publicada a Lei Nº 11.769 que torna obrigatória a inclusão da música como conteúdo dos currículos escolares no Brasil. O que você, como músico, argumentaria para convencer os educadores e os educandos da importância dessa arte específica para a formação geral dos indivíduos?

VR: Música engloba Matemática, Português, Inglês, Física, História, Geografia, Religião, Ciências, Biologia, Filosofia, Educação Física, o recreio, o beijo no pátio, a merenda e a sineta que toca no começo e no fim das aulas. Além do mais, se dançar em Matemática, por exemplo, não é bom, dançar em Música é ótimo.

10)  Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Vitor Ramil: Coloquem As Variações Goldberg, de Bach, com Glenn Gould (segunda versão) para tocar e comecem bem a semana. Abraço a todos.

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