Em minha opinião, a postagem mais interessante e importante que consta aqui nos arquivos do Música Esparsa é a entrevista concedida pelo músico pernambucano Caçapa no início de 2010, dada a riqueza de detalhes e o refinamento das idéias compartilhadas por ele com os leitores do blog.

No ano anterior à entrevista, o projeto “Coco-Rojão e Baião de Viola: Música Instrumental para Viola de Arame na Tradição Popular do Nordeste” fora classificado em um programa da FUNARTE e, posteriormente, o projeto do primeiro álbum solo do violeiro foi selecionado pelo Programa Petrobrás Cultural, dando origem ao disco “Elefantes na Rua Nova”, que foi lançado em 2011.

Crédito: Beto Figueiroa

O disco é daqueles que precisam ser incorporados aos poucos no nosso cotidiano (apesar de ser excelente já na primeira audição) para percebermos suas nuances e todo o esmero de sua produção.  Ainda mais que, além de um disco de áudio, o trabalho traz um material multimídia que orienta o ouvinte com informações diversas sobre a composição, os arranjos e a produção musical do disco, através da análise dos instrumentos utilizados no repertório, de vídeos explicativos sobre os processos criativos do artista e mesmo de um trabalho conceitual no que se refere às matrizes musicais das composições: o rojão, o coco, o baiano e o samba.

A partir do uso da viola dinâmica (instrumento criado por Ângelo Del Vecchio nos anos 1940 em São Paulo), Caçapa descortina uma criação artística incomparável, que funde de forma autoral a tradição de música de rua do Nordeste com a polifonia da música barroca europeia e da musica africana e também com o processamento sonoro através de amplificadores e pedais, recursos típicos do rock e do pop.

Ao lado de três violas dinâmicas (com encordoamento e afinações diferentes), fazem parte dos temas instrumentais o bombo (de 12 polegadas), o ganzá e o pandeiro (fechando a tríade de percussão) e o contrabaixo acústico (baixolão), este último em uma participação inédita ao lado dos instrumentos citados anteriormente no que se refere à sua utilização em cocos de roda, sambas e baianos. No disco, Alessandra Leão (ganzá e pandeiro) e Hugo Linns (baixolão) auxiliaram na gravação e aperfeiçoamento das músicas.

Em todas as oito composições do repertório a palavra rojão aparece no título, ora combinada com o coco, baiano e o samba, ora sozinha. Assim, o músico deixa claro que o timbre da viola dinâmica baseado na afinação típica da cantoria dos repentistas é o cerne das suas criações. No entanto, como bom pesquisador que é, Caçapa encontra raízes de sua combinação de diferentes tradições já em 1972, no LP Repentes e Repentistas, de José Vicente da Paraíba e Passarinho do Norte, no qual lhe chamou atenção a combinação da viola com o coco em uma das músicas registradas.

Assim, todo esse trabalho de composição, arranjo e produção musical, feitos exclusivamente por Caçapa, é alicerçado em dois pressupostos que, se para muitos incluem elementos dicotômicos, para o violeiro pernambucano são expressões orgânicas de seu processo criativo: 1) a relação entre intuição artística e rigor técnico/acadêmico e 2) a combinação criativa entre música tradicional do nordeste e processamento sonoro.

No primeiro pressuposto, percebemos um artista preocupado em fundamentar sua criatividade em uma tradição acadêmica rigorosa, de combinar seus gostos pessoais com o estudo e a aplicação da técnica musical, proporcionando aos ouvintes e interessados em seu trabalho compreender os caminhos e soluções criativas elaboradas e feitas pelo artista.

No segundo pressuposto, é importante mencionar que, em um dos vídeos do material multimídia do álbum, Caçapa afirma que o que a tradição de música de rua do Nordeste ensinou para ele foi a liberdade (ao contrário do que muitos pensam, ao associar às manifestações culturais tradicionais a imitação ad infinitum de padrões e ritmos) e por isso, além de fundir tradições diferentes como o rojão, o coco, o samba de matuto e o baiano (todos eles com múltiplos significados dependendo do contexto analisado), ele alterou o som dos instrumentos a partir do processamento sonoro com amplificador e pedais, acentuando assim sua intervenção autoral em cada uma das nuances dos arranjos e do produto final das composições.

O resultado de tudo isso é um álbum impecável, um dos melhores da música instrumental brasileira dos últimos tempos. Mais do que isso: é uma contribuição inigualável para a cultura popular brasileira e para sua potencialidade criativa e renovadora.

Agora façam o que eu digo: coloquem os fones e escutem abaixo um exemplo desse magnífico trabalho, o segundo tema do repertório intitulado Coco-Rojão nº 01.

Saudações musicais!

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