Desde que conheci o trabalho da Bianca Obino em 2010, tenho acompanhado, mesmo que à distância, sua contribuição à cena artística de Porto Alegre e o desenvolvimento de seu trabalho autoral.

Bacharel em Música (Habilitação Canto) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) desde 2007, Bianca é uma cantora e compositora versátil, que transita pela música popular, pelo canto lírico, pelo ensino de música e também pela promoção de apresentações nas quais a performance musical dialoga com outras expressões artísticas ou integra-se a uma abordagem analítica do seu processo criativo e de composição.

Essa diversidade que caracteriza o trabalho da artista, bem como a clareza e ótima fundamentação das suas ideias e propostas, são evidentes nessa Conversa Esparsa que agora disponibilizo para os leitores. Muito gentilmente, Bianca contribuiu para o conteúdo do Música Esparsa com excelentes análises e uma abordagem instigante sobre temas musicais em geral e sobre o seu trabalho artístico em particular.

Assim, é com imensa satisfação que disponibilizo abaixo essa entrevista exclusiva com a Bianca Obino, para os leitores conhecerem ou aprofundarem seus conhecimentos e sensibilidades em relação à arte dessa cantora e compositora que faz uma belíssima contribuição aos nossos ouvidos, mentes e inspirações criativas.

Saudações musicais!

Créditos: André Christo

1) Nos últimos anos, tu promoveste vários encontros artísticos articulando a música com outras artes. O que fundamenta, na tua visão sobre a criação artística, a proposta de fazer interagir essas diferentes expressões?

Bom, na verdade estes encontros artísticos que mencionaste fazem parte de um projeto de 3 anos que leva meu nome (“Bianca Obino Convida”), mas que foi concebido pelo artista Felipe Azevedo, e também dirigido por ele. Meu contato com o Felipe se deu mais profundamente em nossas aulas individuais (que ocorreram antes e durante o projeto) onde eu aprofundei com ele meus conhecimentos em arranjo, composição, história da música popular brasileira e minha técnica ao violão. Aconteceu que, durante este período, o Felipe me ajudou a identificar e desenvolver traços estéticos importantes nas minhas composições. A canção que marcou o início deste processo foi justamente “Artesão”, e dela conseguimos extrair o conceito de “Artesania”, como uma maneira específica de compor, baseada em organizar os materiais musicais promovendo uma espécie de “entrelaçamento” entre os instrumentos “violão” e “voz”, para que o resultado de cada canção seja coeso e autêntico. Por isto, então, a idéia de também entrelaçar “universos artísticos” no contato com artistas de outras áreas. Penso que o grande fundamento de interagir desta forma foi, justamente, o contato com cada convidado e a troca de experiências! Aprendi muito sobre os processos criativos de todas as pessoas que estiveram comigo, assim como também aprendi muito sobre meu próprio processo criativo. Percebi que as diferentes expressões artísticas podem nascer de um mesmo “impulso” (em perceber coisas do mundo e dizer ao mundo de volta, através da arte), e podem perfeitamente se complementar neste discurso. Foi o que tentamos fazer durante o projeto.

2) Na música Artesão [confira no vídeo abaixo], tu cantas sobre a especificidade do trabalho artesanal, que origina um produto único e especial. Comente um pouco sua opinião sobre os benefícios desse tipo de atividade e de suas características nesse contexto atual, no qual a padronização do comportamento e dos produtos culturais parece ser hegemônica.


O que sempre me chamou atenção em trabalhos artesanais é a singularidade de cada peça, e a dedicação necessária do artesão para aquilo ser concebido. Sinto que vivemos em um mundo que talvez, mais do que nunca, nos convide a não aceitação da nossa individualidade, e a vivermos realizando o máximo de coisas que nos demandem o mínimo tempo, em todas as instâncias da vida (justamente o oposto do que sinto sobre o processo artesanal). Em “Artesão” eu expus uma reflexão minha sobre meu próprio processo…eu realmente me considero uma “artesã”. E esta descoberta, o simples fato de compreender e aceitar esta maneira de ser e proceder, tem me feito uma pessoa mais inteira, com talvez mais condições de contribuir um pouquinho ao mundo, justamente pela diferença. Todos nós temos a nossa “diferença”, e por isso eu acredito ser muito importante a disposição de cada pessoa em talvez se abster momentaneamente da grande “extroversão” que o mundo nos incita para identificar qual é a sua própria “artesania”…e a partir daí, aceitar e desenvolver isto, com confiança de que a melhor coisa que podemos fazer é justamente sermos, com cada vez mais integridade. É super filosófico (risos). Mas eu acredito muito nisto.

3) Em 2009, o músico Lucas Santanna lançou o álbum Sem Nostalgia, tentando fazer um trabalho baseado em voz e violão que não sucumbisse às referências consagradas desse estilo, como João Gilberto, por exemplo. No teu caso, quais são as potencialidades criativas que tu atribui ao explorar constantemente esse “formato”?

Primeiro, o formato “violão e voz” era freqüente no meu contato com o público pela autonomia que ele me proporcionava (a de poder me apresentar em diversos locais apenas dependendo dos meus próprios horários, por exemplo) e também porque, embora cantora por formação, sempre senti um amor imenso pelo violão. Entretanto, com o passar do tempo, identifiquei na prática de tocar e cantar simultaneamente um traço estético característico, que representa, de fato, a “Bianca artista”, e isto vem sendo ressaltado de forma mais consciente nos últimos anos. Por isto busquei (e busco) aprofundar meu conhecimento nos dois instrumentos. No período de aulas com Felipe Azevedo tive contato com o pensamento dele, e de outros etnomusicólogos e educadores musicais a respeito do violão e seu “poder de síntese”: isto significa que é comum, dentro da cultura popular brasileira, utilizar o violão para tocar canções que podem ter originalmente uma instrumentação muito maior. Ou seja, o violão nos permite executarmos o ritmo e a harmonia de uma forma peculiar, que, dependendo de como for trabalhada, pode remeter o ouvinte a “atmosfera” de uma banda, de uma bateria de escola de samba, ou até de uma orquestra! Então, perceber a riqueza contida no violão me fez explorar possibilidades dentro deste formato enxuto, buscando uma união, uma espécie de “dialogo” entre o violão e a voz, para que ambos sejam iguais em importância no resultado final das minhas músicas e arranjos. Confesso que é algo que me exige muito, tanto em termos técnicos quanto artísticos, mas também acredito que aí reside o diferencial deste trabalho, e sou grata a todos os “mestres” que me possibilitaram enxergar e desenvolver isto. É um processo pra vida toda.

4) No ano passado, o primeiro LP independente aqui do estado, o Juntos, do Nelson Coelho de Castro, completou 30 anos. Qual a tua visão sobre a “cena independente” da música popular urbana da capital gaúcha, considerando os pontos positivos e as limitações que ela enfrenta? Se possível, relacione o tema com a tua experiência de compoisção do teu primeiro disco.


Da experiência de tocar em bares por um tempo, trabalhar em eventos, e depois abraçar junto com o Felipe a realização do projeto “Bianca Obino Convida”, sinto que temos um público potencial aqui em Porto Alegre para música autoral, atento e receptivo às novidades. Porém, percebo que faltam espaços culturais de circulação destes trabalhos, uma cena que pudesse “sustentar” uma certa freqüência/regularidade de apresentações dos artistas, atingindo um público maior. Acabei tendo muito auxílio, do Felipe, dos artistas convidados de cada edição, de pessoas que tiveram contato com meu trabalho e comentaram com outros, do próprio estabelecimento que nos acolheu (a Palavraria), mas houve muita disposição, muita energia e muito boa vontade para que o projeto perdurasse em 3 anos. Sobretudo, uma esperança de que a freqüência de apresentações constituiria um público fiel. Neste estágio, creio que o objetivo inicial foi atingido, e daqui pra frente é importante concretizar todo este esforço na gravação de um CD. Aqui, temos, felizmente, algumas alternativas de apoio e financiamento, através do governo e sistemas de “financiamento colaborativo” via internet, com as quais estamos trabalhando. A quantidade de trabalhos nesta mesma situação é grande, a verba é pouca, mas, graças a Deus, ainda há. Mesmo assim, seria muito rico se pudéssemos fazer circular mais pela cidade e estado a quantidade de bons artistas que temos. Vejo, por exemplo, Luiza Caspary, Gisele De Santi e Filipe Catto morando em outros centros, buscando outros meios para viabilizar a circulação de seus próprios trabalhos, principalmente através de shows. Acho que isto diz algo a respeito do que comentei, das dificuldades em relação à cena local.

5) Uma parte da tua formação como intérprete diz respeito ao canto lírico. Tu pretendes incorporar essa experiência em trabalhos futuros ou, por enquanto, teu trabalho está concentrado na música popular?

Sim! Eu gostaria muito de juntar tudo isto (canto lírico/popular e violão), numa única expressão! Eu faço alguns experimentos, mas ainda não cheguei em um formato onde eu me reconhecesse. Ainda não sei bem como fazer tudo soar de uma forma “natural”, digamos. Existe uma dificuldade técnica em equilibrar os volumes dos dois instrumentos, bem como em executar músicas com uma sonoridade vocal “lírica” tocando violão ao mesmo tempo. Enfim, pode ser que haja um caminho do meio…e, com certeza, estou em busca dele.

6) Tu já divulgaste dois vídeos comentando as características e o contexto no qual se originaram composições tuas. Na tua interpretação, qual a importância dessa troca artística com o público, além da apresentação/performance musical em si?

Sempre fui uma pessoa interessada em processos. Gosto de ver os “extras” dos DVDs dos artistas, os bastidores, assistir entrevistas, procurar entender como pensam e são aqueles que eu admiro. Por esta minha característica e pelo meu lado docente (trabalho como professora de canto), achei que seria rico e humilde dividir com as pessoas estes processos, criando mais um canal de comunicação com quem gosta das minhas canções. Seria uma maneira de eu também saber o que elas pensam e sentem sobre as músicas, coisa que não consigo identificar claramente quando me apresento. Acredito que, inclusive por meu trabalho ser novo, cada vez que comento algo no show sobre alguma canção ou arranjo, o interesse na escuta modifica. É uma audição munida de outros elementos, muda a fruição. Acho isso muito interessante! A idéia em “explicar” os processos não é convencer as pessoas de uma “verdade absoluta”, nem privá-las das suas próprias interpretações, mas instigá-las a refletir sobre o objeto de escuta (e quem sabe descobrirem algo delas próprias – maneiras de pensar, sentir e criar).
Por isso está acontecendo a série “A História da Canção” no meu site [confira abaixo o segundo vídeo da série]. Também por isto que a palestra-show “Artesania do Som” surgiu: nela eu falo um pouco sobre meu processo criativo nas canções, mas também sobre alguns conceitos musicais, a relação do violão com a voz que comentei nas outras questões. Gosto muito destes momentos, tanto quanto dos shows.

7) Em 18 de agosto de 2008 foi publicada a Lei Nº 11.769 que torna obrigatória a inclusão da música como conteúdo dos currículos escolares no Brasil. O que você, como musicista, argumentaria para convencer os educadores e os educandos da importância dessa arte específica para a formação geral dos indivíduos?

A música tem um poder imenso, incrível e maravilhoso de agregar pessoas. Além disto, a música nos possibilita uma reaproximação com nossa sensibilidade, muitas vezes adormecida pela vida prática e o mundo de “excessos”, como discutimos na pergunta 2. Quanto mais pudermos entender, vivenciar e apreciar música, mais ganhamos em qualidade de vida e poder de reflexão a respeito das coisas. E juro que isto não é algo clichê, mas algo fundamental para uma mudança de consciência do nosso papel no mundo e da nossa importância como seres únicos e capazes. É uma medida governamental louvável, e, com a capacitação do corpo docente e melhores condições de trabalho, acredito que poderemos ver o bom reflexo dessa educação ao longo dos próximos anos.

8) Deixe um recado para os leitores do Música Esparsa.

Deixo um super abraço e o convite para conhecerem mais sobre meu trabalho em www.biancaobino.com. Não hesitem! Entrem em contato, manifestem opiniões, vamos trocar idéias sobre música.

Também agradeço muito a ti, Icaro, por me dar a oportunidade de expor o que penso de uma forma mais aprofundada e bem conduzida. Considero muito importante este espaço critico que proporcionas no teu blog, e valorizo a atenção que dás a inúmeros artistas. Fico feliz de estar “em palavras” por aqui! Obrigada!

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