René Magritte ("Os Amantes", 1928)
René Magritte (“Os Amantes”, 1928)

“Tudo que vem rápido, vai rápido”, afirmou ela em tom solene. O rosto, franzido e preocupado ao proferir a frase, por um momento disfarçou o clichê conformista dessa convicção sobre a fugacidade de certas coisas da vida.

Apesar de saber que tal máxima poderia ser implausível como outros vários exemplos de generalizações apressadas, ele sentiu aquilo como uma condenação sumária da relação. O sentido relativo que poderia estar implícito à noção de rapidez parecia sobrepujado por uma ideia definitiva de que tudo já havia acabado.

Depois pensou que seria melhor ela ter dito “veio rápido e foi rápido”, deixando clara a sua percepção e a sua vontade sobre o relacionamento. No entanto, isso dificilmente aconteceria: na ocasião era mais apropriado colocar a culpa em uma suposta lei universal das relações humanas do que confessar a mudança do desejo.

E o desejo que nela havia acabado transformou-se nele, nos anos que se seguiram, em uma combinação fantasmagórica de saudade, ciúme e emoções de ocasião, que poderiam ser tanto o desespero do amor perdido quanto a esperança de que o sofrimento fosse alguma espécie de bilhete de entrada para uma (impossível) maturidade afetiva.

[Na vitrola: Túnel do tempo, de Verônica Sabino, do álbum “Que Nega É Essa” (2009)]

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