Não há como dizer melhor que o canto é a casa do ser.
(Gaston Bachelard. A poética do espaço)

Em 2010, o Música Esparsa comentou o álbum de estreia da Gisele De Santi e publicou uma entrevista com a cantora e compositora gaúcha. Desde então, acompanho sempre que posso os caminhos artísticos percorridos por ela e neste texto escrevo sobre dois deles: os projetos Violão e Canto da Sala e Meridiano 50 (este ao lado de Arthur Nogueira).

Gisele De Santi (foto: Alesi Ditadi)
Gisele De Santi (foto: Alesi Ditadi)

Em seu famoso texto A poética do espaço, o filósofo francês Gaston Bachelard abordou o fenômeno da imaginação poética, principalmente a partir das imagens do espaço que configurariam uma aproximação afetiva com o mesmo, uma espécie de “topofilia”. No capítulo sexto da obra, o pensador escreve justamente sobre os “cantos”, esses espaços diminutos da intimidade, do conforto e da solidão.

Diz ele: “todo canto de uma casa, todo ângulo de um aposento, todo espaço reduzido onde gostamos de nos esconder, de confabular conosco mesmos, é, para a imaginação, uma solidão, ou seja, o germe de um aposento, o germe de uma casa.” E desse espaço de aconchego e de intimidade, Gisele interpretou um de seus compositores preferidos e declaradamente inspirador de sua arte: Djavan, que ela escuta desde os 7 anos de idade.

Foi assim que, na véspera desse último Natal, a cantora disponibilizou, como primeiro vídeo da série Violão e Canto da Sala, a sua intimista e sensível releitura de Meu Bem Querer (que apareceu pela primeira vez no lado B do disco Alumbramento, em 1980), na qual vocês podem conferir abaixo e também tentar imaginar e habitar poeticamente seu canto predileto.

Mas a possível geografia poética de Gisele não para por aí. Ano passado, em parceira com o cantor e compositor Arthur Nogueira (que fez parte da nossa seção Música Comentada), a artista lançou o projeto Meridiano 50, usando a metáfora da linha imaginária que corta o Rio Grande do Sul e o Pará (onde nasceram os músicos) para expressar as trocas sonoras e poéticas entre eles.

Desse intercâmbio nasceu a lindíssima Ardis, cuja trama lírica é envolvente e dotada de uma sensibilidade ímpar. Os encontros e desencontros de um amor são narrados/cantados/poetizados com uma elegância e uma sutileza surpreendentes. A seguir, podemos nos deleitar com o videoclipe da canção e você também pode baixar ela no excelente site musicoteca.

Seja, portanto, no resguardo e na intimidade do “canto” ou na troca e no contato do “meridiano”, Gisele parece percorrer e habitar espaços (concretos e/ou imaginados) cuja poética pode sempre encontrar morada nos nossos ouvidos.

Saudações musicais!

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