“(…) tinha acordado com um péssimo pressentimento, as águas a bater na barragem do Porto de Xavier indicavam que as tempestades não tardariam. Havia dormido pouco, e a superstição bem como a bússola são ferramentas indispensáveis ao homem do mar. Uma vez a bordo, o mais cético, muda sua ideia. Pela janela, observava o acordar da cidade, não havia dormido e procurava me conter acerca das más impressões. A nau de Don Batista tinha a missão de reconhecimento de uma nova rota. Um frenesi, financiado pelo varão do príncipe Miguel. Porém, se a empreitada fosse bem sucedida, os lucros vindouros compensariam, bem como os títulos à tripulação.

(…) pelo décimo dia, uma forte tempestade assolava a embarcação. Tentávamos em vão recolher o excesso de água do convés. Alguns homens, devido ao naufrágio iminente, se atiravam ao mar já sem esperanças. Eu como fora contratado para relatar os fatos, termino aqui meu relato. Que Deus tenha piedade. (…) 1498″

Barcarola
Barcarola (desenho: Lucas della Lucce)

Em outubro passado, o músico Carlinhos Carvalho lançou três canções no seu EP intitulado Barcarola. Na primeira audição, a sonoridade do violão provoca um impacto imediato e a melodia parece expressar uma emoção que talvez esperasse apenas aqueles acordes para declarar sua existência.

Ouvi as três composições em sequência várias vezes naquele primeiro contato com as músicas e desde aquela ocasião algo intrigante me desafiou: que tipo de emoção era essa que a sonoridade do Barcarola evocava, a que estado consciente ou inconsciente ela remetia? Que sensibilidade artística ela vinculava às suas características?

Assim, durante mais uma das inúmeras audições, me passou pela cabeça que tanto a sonoridade quanto as letras das músicas remetiam ao mundo da imaginação e dos sonhos. Mas o aspecto onírico das melodias não pode ser entendido como uma “fantasia” oposta à realidade, mas uma forma de traduzi-la de maneira lírica e poética.

Em um contexto no qual um realismo vulgar parece ter um destacado lugar na sensibilidade artística contemporânea, é um alento ter contato com produções artístico-musicais que investem em aspectos abstratos e oníricos da experiência e do pensamento humanos. No caso de Barcarola, o artista não sucumbe à narração e à descrição simplista de episódios e sentimentos, mas a um esquadrinhamento poético da polissemia emocional que nos envolve, independente do grau de ficcionalização que essa expressão possa envolver.

Na página do EP no SoundCloud (que você pode escutar abaixo), o release do disco, reproduzido como epígrafe dessa postagem, remete a um hipotético diário de bordo que, segundo Carlinhos, será desenvolvido aos poucos como um projeto literário relacionado (mesmo que indiretamente) às músicas que forem sendo disponibilizadas, seja virtualmente ou a partir de um suporte físico.

Assim, para apresentar a Barcarola aos leitores assíduos ou ocasionais deste humilde espaço virtual, convidei o próprio artista para contar-nos um pouco sobre sua trajetória artística, as ideias que mobilizaram seu processo criativo e os novos rumos de seu trabalho autoral. Mais informações vocês podem acessar na fanpage do artista no Facebook ou pelo e-mail atahualpaeospunks@gmail.com

Saudações musicais!

Carlos Ezael (Foto: Rochele Zandavalli)
Carlos Ezael (Foto: Rochele Zandavalli)

A trajetória artística

Carlinhos Carvalho: Comecei artisticamente como vocalista de uma banda de rock bem amadora, que durou uns dois ou três ensaios. Nesse meio tempo, aconteceram várias coisas na minha vida, sempre segui escrevendo, mas músicas em inglês tenho uma pasta cheia delas, creio que deva ter material para mais de uma centena, mas nada que me dê vontade de gravar por enquanto. Passado um tempo, comecei a estudar violão clássico e passei em torno de três anos buscando técnica, principalmente para composição. Nisso passei por um período de muita frustração criativa, pessoal e profissional, tinha composto algumas canções (que gravei no E.P), pensava em desistir da música, não tinha retorno financeiro. Daí surgiu uma proposta para acompanhar o Rodrigo Nassif num espetáculo que aceitei na hora. A partir de então as coisas foram acontecendo, mostrei minhas composições para ele, ele gostou e me falou que gostaria de produzi-las em estúdio. Testei-as em público, numa temporada de jams que o Rodrigo estava organizando na Casa de Cultura Mário Quintana e o retorno foi bacana, com o pessoal cantando as músicas depois do show. Depois de um mês, estávamos gravando no estúdio, foi tudo gravado em três dias seguidos, trabalhando de 10 a 17 horas por dia, processo total de imersão. Contando com o apoio do Selo Café com Leite, produção do Rodrigo Nassif e coprodução do Evandro Lazzarotto. Lancei na internet e foi muito bem recebido pelo público, atingiu em torno de 1000 plays na primeira semana, conheci muita gente que me elogiou e convidou para projetos.

As músicas

Carlinhos Carvalho: Bom, fundamentalmente, o Barcarola é um projeto antigo que havia sido abandonado. Durante o período que estudava violão, o que buscava realmente era encontrar uma estética que propusesse a fusão da música latina em geral (Norte, Centro e Sul), com a psicodelia folk sessentista e com muito lirismo (apesar de que muitas das músicas novas sejam em prosa). Essa estética eu achei sem querer e creio que foi quando compus a Barcarola, no entanto eu ainda não a compreendia direito, veio empiricamente à inspiração pra música e precisava racionalizá-la num projeto. Tinha sentido que era aquilo que buscava. Sempre escrevi e li muito, nisso imaginava também uma parte escrita onde fossem publicados pequenos pedaços de um diário de bordo de um cartógrafo que em um redemoinho acaba acordando numa ilha desconhecida, onde acontecem várias coisas com ele. O release seria uma introdução para isso, apesar de ter passado quase que despercebido por todos. Pretendo lançá-los numa página do Facebook e arquivá-los em um blog. Não terão datas às notas, então, podem ser relatados fatos antes da viagem, depois enfim… A pessoa vai acompanhando e entendendo o personagem de forma não cronológica.

Apesar de cuidar de tudo sozinho estou conseguindo ainda dar conta de tudo isso. Juntei tudo na mesma coisa, apesar de não necessariamente a música ter relação com os escritos, a mim se assemelham por que são coisas muito pessoais onde exponho através de personagens fatos de minha vida. No momento estou em busca de patrocinadores para prensar fisicamente o EP e começar a juntar dinheiro para gravar o álbum completo com umas 18, 20 músicas, das quais 30% já estão prontas [para entrar em contato com o artista basta enviar um e-mail para atahualpaeospunks@gmail.com ou ligar no (51) 9148-6411]. No mais a Barcarola segue, e a gente está no mundo para navegar…

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