Definitivamente, o argentino Pedro Aznar é um dos mais prolíficos artistas da música latino-americana. Só em 2012 foram lançados dois álbuns: o cd e dvd Puentes Amarillos (uma homenagem ao mestre Spinetta) e um novo cd só com músicas inéditas e autorais, Ahora, tema dessa postagem.

Resultado de um mês de “retiro criativo” em um bosque, as 12 canções de Ahora transitam por diferentes estilos, o que é próprio da versatilidade de Pedro, multinstrumentista e exímio intérprete. Com uma discografia que passeia entre o folklore sulamericano, canções autorais com pegada rockeira e releituras de canções de diversas partes do mundo (inlcluindo o Brasil), o repertório deste útlimo disco de inéditas expressa uma parte significativa da diversidade do artista.

No entanto, existe pelo menos um fio condutor entre as composições do álbum, que atravessa a referida diversidade sonora e poética das músicas. Como parece deixar explícito o nome do trabalho, o tempo e especialmente o tempo presente amarra muitos dos assuntos tematizados nas canções. Na faixa-título, que vocês podem escutar abaixo, uma levada meio trip rock acompanha uma reflexão ontológica sobre o “agora”:

“Ahora no es la cara del vacío/ Pues no tiene cara
[…]
Ahora no es hora/ Ahora es no-hora
Qué es ‘”es”? Ahora ni siquiera es!”

Mas não pensem que esse tempo presente é isolado de outras possíveis dimensões de temporalidade. Na verdade, me parece que uma abordagem muito recorrente nesse álbum é a dos usos do tempo e das experiências atreladas a ele (vividas ou imaginadas). Ao dar centralidade ao tema do “agora”, Aznar não sucumbe à ingenuidade do carpe diem individualista e desenraizado, alienado da intensa combinação de temporalidades que acontece na vida humana. O presente é cantado também como o momento de escolhas sobre o passado e sobre o futuro.

Como exemplo disso, em uma dimensão coletiva, temos a ótima Ruina sobre ruinas, que dá uma bela forma poética à crítica ao mundo urbano baseado em valores e relações mesquinhas, que provocam sofrimentos que ainda persistem em muitos lugares, especialmente na América Latina, citada no final da canção.

Mas o segundo e último exemplo do disco que sugiro para a imediata audição, é o tema que versa sobre os aspectos subjetivos da relação do presente com outras dimensões temporais, em especial o passado. Na belíssima balada Rencor, Aznar retoma o dilema da frustração amorosa e do remorso que a acompanha já expressados grandiosamente no tango de mesmo nome composto em 1932 por Luis César Amadori e Charlo. Na música a seguir (diferente do clássico tango), o presente, que atualiza a amargura do passado, recebe no final da canção uma sutil esperança, entrelaçando-o a um futuro menos perverso. E, a partir disso, o recado de Pedro Aznar sobre o “agora” pode ser o seguinte: o presente é um conjunto de possibilidades e se já usamos uma delas em demasia, é provável que esteja na hora de experimentarmos outros caminhos.

Saudações musicais!

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