No dia 17 de maio de 2012, durante o I Festival Brasileiro de Música de Rua, em Caxias do Sul (RS), sonoridades e sensibilidades combinadas originaram uma surpreendente música incidental: os sinos da Catedral Diocesana, em um dos lados da Praça Dante Alighieri, acompanhados da escaleta (e delays) da performance do músico Roger Canal foram registrados por Elisabeth Souza, legando para o devir a peculiar atmosfera sonora daquela ocasião.

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Para quem alguma vez circulou no centro da cidade de Caxias, pisar nas pedras que desenham a Praça Dante Alighieri e notar os numerosos pombos que habitam e passeiam pelo local não é tarefa difícil. Talvez, nos momentos em que isso aconteceu, os sinos da Catedral Diocesana Santa Teresa podem ter também emitido seu som familiar à paisagem sonora cristã.

Mas nem sempre as características de um lugar, principalmente quando é rodeado pela vida comercial e frenética de uma cidade do porte de Caxias, atraem os transeuntes  para experienciarem a beleza e o movimento de suas imagens, sons, cheiros e cores. A aparência estática (com “s”) das praças centrais dos municípios escondem uma possibilidade sensorial extática (com “x”) que nem sempre exploramos devidamente. Ora, em um espaço criado por uma intervenção humana deliberada (mas que ao longo do tempo parece sucumbir a uma espécie de naturalização da paisagem), a tentativa de promover uma nova interação com esse espaço, colocando em xeque seu lamentável destino de cartão-postal, é sempre estimulante e uma conquista da nossa sensibilidade frente às padronizações e aos reducionismos que cotidianamente tentam enquadrá-la.

Se através dessa divagação tento chamar a atenção para a vida que não vemos no espaço urbano, uma prova de que a dinâmica dos lugares que o formam é mais intensa do que às vezes imaginamos aconteceu cerca de sete meses depois da gravação do áudio que motivou essa postagem. Na manhã do dia 19 de dezembro de 2012, mais de uma centena de pombos apareceram mortos e/ou agonizando na Praça Dante Alighieri. Segundo laudo fruto de investigações, as aves ingeriram um farelo amarelo que continha uma substância encontrada em venenos para ratos.

No entanto, se esses pombos não puderam voar e escapar de seu fatídico destino, a presença marcante deles na Praça motivou outros vôos, poéticos e sonoros, que originaram a música incidental que vocês podem escutar a seguir. A vida da praça, que nem sempre enxergamos, proporcionou um réquiem antecipado aos seus frequentadores mais assíduos através da intervenção artística de Roger Canal.

Saudações musicais!

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