Mesmo que as frustrações e os desencontros amorosos possam deixar marcas profundas na trajetória das pessoas, inclusive comprometendo o (impossível) equilíbrio psíquico daqueles que já vivenciaram coisa parecida, é inegável a potencialidade poética desses dilemas afetivos, explorada exaustivamente pelos cancioneiros e cancioneiras Brasil afora.

Cena do filme "Lost in Translation" (2003), de Sofia Coppola.
Cena do filme “Lost in Translation” (2003), de Sofia Coppola.

E o advérbio exaustivamente não está ali no parágrafo anterior para identificar algo ruim necessariamente, mas demarcar a recorrência inevitável deste tema nas nossas vidas e na arte (nesse caso musical) que com suas elaborações nos faz sofrer de forma menos indigna. É claro que, por ser frequente a abordagem do tema, os clichês aparecem em profusão e as pechas de piegas, cafona e outras mais acabam aparecendo na boca e no pensamento de muitos para classificar certas canções.

Mas não adianta muito (ou nada mesmo) querer direcionar a forma como os artistas e o público gostariam de traduzir ou de ver traduzidas as suas frustradas peripécias amorosas, pois cada um interage de uma maneira específica com aquilo que viveu, sentiu, imaginou e reelaborou e ainda com a maneira pela qual pensa ser o melhor caminho poético para expressar isso tudo.

Eu, de minha parte, gostaria de apresentar (ou, para quem já conhece, relembrar), duas “canções de desencontro” que estão entre as minhas preferidas.

1) A primeira é uma composição de Chico Buarque, intitulada (como não poderia deixar de ser) Desencontro, que apareceu em 1968 na bolacha de vinil Chico Buarque de Hollanda (vol. 3). No entanto, minha versão predileta da canção foi feita pelo Toquinho, na parceria discográfica com Paulinho da Viola em 1999: o imprescindível álbum Sinal Aberto. Me parece que o intérprete conseguiu mesclar na dose certa a melancolia ora serena ora inquieta que acompanha os versos abaixo:

“Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
E saudades fúteis
Saudades frágeis
Meros papéis”


2) A minha segunda lembrança é a incrível canção Tchau, do Bebeto Alves. Parte do repertório do disco Devoragem, de 2008, ganhou também uma versão ao vivo no ano seguinte, no show de Bebeto com os Blackbagual no Teatro de Arena (que virou disco duplo e integra o lançamento discográfico Bebeto Alves em 3D). Diferente de Desencontro, aqui a relação amorosa parece não ter se concretizado e a frustração já teria acontecido na própria expectativa (traduzida lindamente em diversas facetas nos versos de Bebeto), mas sempre interrompida pelo derradeiro e inexplicável tchau. Na versão ao vivo que vocês podem escutar a seguir, o refrão final ganha uma atmosfera sonora indescritivelmente bela na combinação da voz do cantor com o som da guitarra do Marcelo Corsetti.

Portanto, escutem e depois, se puderem e quiserem, deixem seus comentários sobre essa canções ou indiquem outras do gênero para apreciarmos por aqui.

Saudações musicais!

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