Fiz um samba pra você
Apreciar no seu silêncio
Ainda que não lembre ao certo
De um verso sequer

(Rodrigo Panassolo, “Samba em silêncio”)

Em dezembro do ano passado, o cantor e compositor Rodrigo Panassolo lançou seu álbum de estreia Versos Dobrados. No time de colaboradores do projeto, excelentes artistas e produtores deixaram sua marca, como Edu Martins (produção musical e contrabaixos), Leo Bracht (pós produção) e Vagner Cunha (arranjos e direção musical), além das participações de Ana Lonardi, Gisele De Santi, Leandro Braga, Paulinho Fagundes, Gabriel Grossi, entre outros.

Apesar de ser lançamento recente, o disco já está circulando muito por aí: foi lançado dias atrás no Japão pelo selo Production Dessinee e uma turnê internacional de apresentação do disco está sendo preparada e passará por países como Portugal, França, Áustria, Suíça e Inglaterra. Além disso, em janeiro desse ano, um dos espaços virtuais mais importantes de divulgação da música autoral brasileira contemporânea, o musicoteca, fez um lançamento exclusivo do repertório de Versos Dobrados.

Nesta postagem especial do Música Esparsa, vou abordar alguns aspectos das canções do disco e apresentar também um pouco das ideias e da trajetória do Rodrigo Panassolo, que gentilmente concedeu uma entrevista exclusiva para este espaço virtual.

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Das 11 canções que formam o repertório do álbum (que ainda contém como bonus track a divertida Carnavalium), todas são composições do próprio artista, incluindo aí três parcerias com André Fay, Gisele De Santi e Moisés Westphalen. Na sonoridade das músicas predomina uma combinação refinada e repleta de sutilezas entre o jazz e a “mpb” (principalmente bossa e samba).

Entre os inúmeros méritos do disco, encontramos já na primeira audição aquela sinergia peculiar entre as melodias e os versos do compositor, que se “desdobram” em ritmos e ênfases inesperadas a cada manifestação sonora. Em síntese, congifura-se os requisitos principais de um belo conjunto de canções. Sobre isso, Rodrigo nos diz:

“Para mim canção é a expressão que faz letra e melodia falarem a mesma coisa de forma complementar. Complementar eu digo de forma que juntas passem uma mensagem, um sentimento. Às vezes letra e melodia estão em sintonia total de atmosfera, e as vezes a letra é forte e séria mas está em uma melodia leve e doce, o que não deixa de ser complementar, pois elas juntas passam uma mesma mensagem. No final das contas, acho que a canção é uma mensagem passada de uma forma única, eternizada, e isso é o mais legal deste gênero.”

Pensando nisso, mesmo com a diversidade de temas abordados nas letras das canções, alguns aspectos me parecem dar uma unicidade ao repertório como um todo e passar determinados “sentimentos” e “mensagens”. Um desses aspectos é aquele do narrador que tenta poetizar seus dilemas e inquietações, quase todas elas oriundas da relação com o “outro”. Seja de uma maneira mais linear e direta ou de uma forma mais tortuosa e sub-reptícia, os recados líricos vão sendo transmitidos ao “outro” e também, me parece, a si mesmo (nesse caso, o narrador) que tenta consolidar e dar sentido a determinadas impressões subjetivas.

Para dialogar com essa interpretação, vale escutar a faixa de abertura do disco, Quase Paralelas, e o que Rodrigo escreveu sobre ela:

“Todas as músicas do disco são um pouco autobiográficas. Talvez uma música que me represente bem seja a primeira música, ‘Quase Paralelas’. Escrevi ela em um momento de vida que me vi com a certeza de que uma história de amor aconteceria, mesmo que não naquele momento. E sempre achei legal esta serenidade de acreditar que o que for para acontecer vai acontecer. Além disso, a analogia feita na música é uma coisa bem simbólica para mim, pois as duas retas quase paralelas que se acharam em algum lugar, em algum tempo, é uma coisa bem científica, e de fato eu estudei e me formei em Engenharia, o que mostra que sempre tive essa visão das coisas.”

Outra característica das composições que me pareceu presente ao longo do disco é que os “versos dobrados” de alguma maneira referem-se ao “incomunicável” das relações humanas, especialmente as afetivas. E o compositor é muito habilidoso nesse quesito, pois as palavras, sedimentadas em canções, parecem ora “substituir” aquilo que não podia ser comunicado em determinado momento ora expressam e representam os próprios momentos de “incomunicabilidade”. A tensão entre linguagem e relacionamentos humanos parece sempre deixar uma sensação de incompletude da comunicação, quase sempre desejada, mas nem sempre viável.

Sobre esse aspecto, aliás, vale citar um interessantíssimo trecho do livro Trem noturno para Lisboa, de Pascal Mercier, que se encontra no estudo Sobre a incomunicabilidade humana, de Claudenir Modolo Alves:

“Lendo jornais, ouvindo rádio ou escutando no café aquilo que as pessoas dizem, sinto cada vez mais tédio, até nojo por causa das palavras sempre iguais que se pronunciam e escrevem – por causa das expressões, retóricas e metáforas que sempre se repetem. O pior, porém, acontece quando estou escutando a mim mesmo, e ali constato que eu também repito coisas eternamente iguais. Estas palavras estão terrivelmente gastas. Desgastadas por terem sido usadas milhões de vezes. Será que ainda têm algum significado? Mas, é claro, a troca de palavras funciona, as pessoas agem conforme elas, riem, choram, se dirigem para a esquerda ou para a direita… A grande questão é: são ainda expressões de ideias? Ou são só construtos efetivos de signos auditivos, os quais fazem as pessoas andarem para cá e para lá, porque os vestígios gravados da tagarelice aparecem incessantemente?”

Essa inquietação do narrador com a impertinência da linguagem, especialmente nas suas expressões repetitivas, evidenciam os possíveis desconfortos que podem surgir para aqueles que tentam superar as condições da incomunicabilidade de uma maneira menos clichê e mais criativa. Talvez essa inquietação também possa, de alguma forma, ser atribuída às composições de Panassolo, que escreveu as palavras abaixo:

“Outra música bastante simbólica na minha trajetória como compositor foi Coração Gelado. Há mais de oito anos atrás, logo que conheci a Gisele, que hoje é minha namorada, nós conversávamos muito sobre a coisa de compor, os temas, os assuntos, etc., e eu dizia que não me sentia muito à vontade de compor sobre amor. Eu achava este um tema muito difícil e muito recorrente nas músicas, e portanto, muita coisa boa já tinha sido dita. Bom, é claro que isto foi motivo de chacota e ela começou a me chamar de “Coração Gelado”. Mas no fundo destas conversas todas, tinha uma admiração mútua entre eu e a Gisele, e eu sabia que ela queria falar de amor por outras razões, então fiz esta música brincando com a idéia de que eu congelei seu coração por fazê-la esperar por mim. A partir desta música, começamos a desenvolver um diálogo musical que hoje já daria pra fazer um disco só de músicas feitas um para o outro.”

A partir dessas reflexões e experiências sensoriais (ao escutar as canções acima), espero que os leitores aproveitem a oportunidade para conhecer melhor o álbum de estreia do Rodrigo, que vocês podem acessar também no site dele AQUI. Para contribuir nessa descoberta, confiram abaixo mais algumas palavras do artista, nas quais aborda sua trajetória artística e deixa um recado exclusivo para os leitores do Música Esparsa. Além diso, lá no finalzinho da postagem, apreciem também a participação especial da Gisele De Santi na lindíssima Canção dos Olhos.

Saudações musicais!

Sobre a trajetória artística

Comecei a me envolver com música de forma mais “séria” quando eu tinha 12 anos e formei minhas primeiras bandas no colégio. Já começava também a compor algumas coisas, que na época eram mais paródias de outras músicas do que músicas novas, de fato… Com 15 anos comecei a me apresentar em festas e eventos com as bandas que tocava, já começando a ganhar alguma coisa por isso, e aos 17 anos formei minha banda de Blues, a Maverick, com a qual comecei a tocar profissionalmente em bares, etc. Desta época até meus 21 anos muita coisa mudou, e eu passei a me interessar mais pelo jazz e MPB, e comecei a tocar com alguns cantores da cidade. Eu era muito tímido pra cantar, e só consegui vencer isto lá pelos 26 anos, quando comecei a mostrar minhas composições para os amigos, e tomei coragem pra cantar em público. Daí em diante comecei a esboçar meu trabalho autoral, que só veio a sair do plano das idéias com meu disco, Versos Dobrados, já que antes dele eu raramente me apresentava como artista solo. Claro que já tinha cantado coisas minhas antes, como no espetáculo DOSPESACABEÇA – Sapateado e Música, que cantava duas músicas minhas que fiz para o espetáculo. Também cantei em shows coletivos, como o ESCUTA, que foi um projeto muito legal que surgiu no final do ano de 2012. Enfim, esta é minha trajetória como artista independente, esquecendo um pouco as coisas adjacentes que fiz como as produções em estúdio, participações em teatro, e etc., porque, como pode-se notar, eu demorei um bom tempo pra encontrar este caminho, e no meio desta procura muitas coisas aconteceram.”

Sobre o selo Formiga Records (pelo qual saiu Versos Dobrados).

O selo Formiga Records é uma coisa mais filosófica do que palpável. Filosófica pois ele nasceu da nossa vontade de demonstrar nossa coletividade de uma forma organizada. Os quatro artistas que fizeram o selo [Além de Rodrigo, Ana Lonardi, Leo Bracht e Edu Martins] estavam em um momento de bastante convergência nos seus trabalhos, e a gente resolveu fazer uns shows juntos, etc. O selo acabou sendo a maneira de dar nome a nossa coletividade. Mas claro que também tinha o desejo de formar uma estrutura organizada pra representar os artistas, já que hoje em dia somos tão independente que acabamos por correr o risco de ficarmos desconectados de tudo e de todos. Claro que isso não acontece na prática, mas no mundo “empresarial” da música isso pode parecer. Mas hoje em dia o selo já está presente em 3 discos e estamos montando uma loja virtual para vendermos eles pela internet. Isto é o mais concreto que temos por enquanto.”

Recado para os leitores do “Música Esparsa”.

Aos leitores do Música Esparsa, eu peço para que sempre se abram para o novo, pois toda obra artística um dia foi algo dentro da cabeça de alguém, e só passou a ser conhecida porque alguém acreditou naquilo e deixou que aquilo lhe transformasse.”

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