Mario Benedetti, no seu livro Primavera con una esquina rota, ao expressar um pouco da sua indignação e sofrimento com a morte no exílio do jornalista Luvis Pedemonte, escreveu:

“O trago é mais amargo se pensamos que morrer no exílio é o sinal de que nos foi negado, não apenas a Luvis, mas a todos nós, o supremo direito de abandonar o trem na estação onde a viagem começou. Tiraram de nós a nossa morte doméstica, simplesmente nossa, essa morte que sabe de que lado dormimos, de que sonhos se nutrem nossas vigílias.” [p. 112 da tradução brasileira Primavera num espelho partido, Alfaguara, 2009]

Entre as tantas atrocidades e marcas indeléveis que as ditaduras civil-militares espalharam pela América Latina entre os anos 1960 e 1980, como torturas, assassinatos, desaparecimentos e censuras, o exílio foi uma das mais conhecidas e odiosas, pois fragilizava, rompia, transformava abruptamente relações afetivas e de pertencimento. Afetava, assim, como as outras modalidades de violência referidas anteriormente, o indíviduo e seus entes queridos nos aspectos sociais, psíquicos e nas demais dimensões da vida humana.

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Dessa dolorosa experiência, muitos artistas tiraram uma sofrida inspiração e realizaram seu desabafo poético. O mesmo aspecto familiar e de aconchego perdido pela violência do exílio, descrito por Benedetti, parece ter influenciado também uma das mais impressionantes canções brasileiras sobre o tema, composta por Chico Mário e integrante do repertório do seu disco Terra, de 1979. Nela, o cantor e compositor mineiro expressou de forma pungente e com um lirismo cortante as agruras dos exilados (como fora seu irmão Herbert de Souza, o “Betinho”).

Abaixo, confiram a letra da canção e escutem a homenagem que a sobrinha de Chico, a cantora Regina Souza (na época Regina Spósito), fez no disco Marionetes (1999), uma homenagem póstuma produzida pelo filho do cantor, Marcos Souza.

Adeus minha terra, adeus este chão
Cheiro de conversa, beira de fogão
Roça, vento a casinha, abençoou
Minha vida todinha suas redes
Embalou

Nunca mais sentir teus olhos
Procurando meu calor,
Gente doce, um carinho,
Meu carinho,
Perfumado de inocência
Que sei um dia tive, mas contigo
Não sozinho, viu ...

Adeus companheiros
De vida neste mundo
Não saio porque quero
Voltarei, me desespero
Se choro, choro mudo
Engolindo o coração
Mas a vida passageira, leva minha
Aflição

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