Desde que assisti o espetáculo Xaxados e Perdidos da Simone Rasslan (com Álvaro RosaCosta e Beto Chedid) na Feira do Livro de Porto Alegre em 2009 não consegui esquecer as sensações que tive ao compartilhar daquela atmosfera sonora incomparável.

Mesmo não conseguindo acompanhar como gostaria as outras apresentações do trio que, nos anos seguintes, deram origem ao álbum lançado em 2012 com o financiamento do Fumproarte, procurava com frequência os registros sonoros e audiovisuais desse projeto artístico para reviver um pouco daquela beleza musical que tanto me surpreendeu há alguns anos atrás.

Da esquerda para a direita (Álvaro RosaCosta, Simone Rasslan e Beto Chedid). Créditos da imagem: Tiago Coelho.
Da esquerda para a direita (Álvaro RosaCosta, Simone Rasslan e Beto Chedid). Créditos da imagem: Tiago Coelho.

Por tudo isso, foi com considerável ansiedade que parti para uma sedenta audição do disco quando o tive em mãos pela primeira vez. Antes mesmo de fazer uma audição completa e cuidadosa, não resisti em escutar imediatamente a lindíssima versão de Ciranda (Gilberto Gil e Moacir Santos) que, desde o referido show em 2009, ressurgia em minha “memória musical” com uma espantosa assiduidade.

Depois de escutar o repertório algumas vezes tive que voltar a enfrentar uma questão que não conseguia responder satisfatoriamente sobre o Xaxados e Perdidos até então: qual o motivo da persistência daquela sonoridade na minha memória auditiva e afetiva? Que encantamento subliminar é esse que faz parte da sensibilidade que os artistas imprimiram às canções?

Apesar de ter clareza das perguntas, ainda continuo à procura de respostas satisfatórias. Uma possível explicação que me agrada momentaneamente é a de que a musicalidade de Simone, Álvaro e Beto consegue resguardar e expressar uma beleza nada convencional, que de alguma forma dialoga com as nossas noções estéticas mais íntimas e intuitivas. Tanto o espetáculo que assisti quanto a versão discográfica do repertório parecem nos puxar pela mão e levar para uma dimensão adormecida e latente da nossa sensibilidade que, por ter sido traduzida de alguma forma por eles, quando tenta se expressar novamente busca naquelas melodias uma voz e uma pulsação ideais.

Eleito pela crítica especializada como um dos melhores álbuns de 2012, Xaxados e Perdidos reúne, além de parcerias da Simone com Arnaldo Sisson, Álvaro RosaCosta e Ronald Augusto, canções de diversos compositores brasileiros (entre eles Nico Nicolaiewsky, Egberto Gismonti e José Miguel Wisnik) que também, a seu modo, resguardaram e expressaram certa beleza essencial das nossas sensibilidades. Indico para a audição dos leitores/ouvintes a lindíssima Cuitelinho e a indescrítivel Formosa, apenas dois belos pretextos para que vocês conheçam o álbum por inteiro e me ajudem a pensar sobre as inquietantes perguntas que lancei dois parágrafos atrás.

Saudações musicais!

Cuitelinho (Domínio Público, recolhido por Antonio Xandó)

Formosa (Álvaro RosaCosta e Ronald Augusto)

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